09/05/2012
Politicamente correto, as insanidades

O CRAVO NÃO BRIGOU COM A ROSA
Por Luiz Antonio Sima

 

Chegamos ao limite da insanidade da onda do politicamente correto!


Soube dia desses que as crianças, nas creches e escolas, não cantam mais "O
Cravo Brigou com a Rosa". A explicação da professora do filho de um camarada
foi comovente: a briga entre o cravo - (o homem) e a rosa (a mulher)
estimula a violência entre os casais. Na nova letra "o cravo encontrou a
rosa debaixo de uma sacada/o cravo ficou feliz /e a rosa ficou encantada".


Que diabos é isso? O próximo passo é enquadrar o cravo na Lei Maria da
Penha.

 

Será que esses doidos sabem que "O Cravo Brigou com a Rosa" faz parte de uma
suíte de 16 peças que Villa Lobos criou a partir de temas recolhidos no
folclore brasileiro? É Villa Lobos, cacete!

Outra música infantil que mudou de letra foi "Samba Lelê". Na versão da
minha infância o negócio era o seguinte: Samba Lelê tá doente/ Tá com a
cabeça quebrada/ Samba Lelê precisava/ É de umas boas palmadas.

A palmada na bunda está proibida. Incita a violência contra a menina Lelê. A
tia do maternal agora ensina assim: Samba Lelê tá doente/ Com uma febre
malvada/ Assim que a febre passar/ A Lelê vai estudar. Se eu fosse a Lelê,
com uma versão dessas, torcia pra febre não passar nunca. Os amigos sabem de
quem é "Samba Lelê"? Villa Lobos, de novo. Podiam até registrar a parceria.

Ficaria assim: Samba Lelê, de Heitor Villa Lobos e Tia Nilda do Jardim
Escola Criança Feliz.

Comunico também que não se pode mais atirar o pau no gato, já que a música
desperta nas crianças o desejo de maltratar os bichinhos. Quem entra na roda
dança, nos dias atuais, não pode mais ter sete namorados para se casar com
um. Sete namorados é coisa de menina fácil. Ninguém mais é pobre ou rico de
marré-de-si, para não despertar na garotada o sentido da desigualdade social
entre os homens.

Dia desses alguém - não me lembro exatamente quem se saiu com essa e não
procurei a referência no meu babalorixá virtual, Pai Google da Aruanda - foi
espinafrado porque disse que ecologia era, nos anos setenta, coisa de viado.

Qual é o problema da frase? Ecologia, de fato, era vista como coisa de
viado. Eu imagino se meu avô, com a alma de cangaceiro que possuía,
soubesse, em mil novecentos e setenta e poucos, que algum filho estava
militando na causa da preservação do mico leão dourado, em defesa das
bromélias ou coisa que o valha.

Bicha louca, diria o velho.

Vivemos tempos de não me toques que eu magôo. Quer dizer que ninguém mais
pode usar a expressão "coisa de viado"? Que me desculpem os paladinos da
cartilha da correção, mas isso é uma tremenda babaquice. O politicamente
correto é a sepultura do bom humor, da criatividade, da boa sacanagem. A
expressão "coisa de viado" não é, nem a pau (sem duplo sentido), ofensa a
bicha alguma.

Daqui a pouco só chamaremos o anão - o popular pintor de rodapé ou leão de
chácara de baile infantil - de deficiente vertical. O crioulo - vulgo picolé
de asfalto ou bola sete - depende do peso - só pode ser chamado de
afrodescendente. O branquelo - o famoso branco azedo ou Omo total - é um
cidadão caucasiano desprovido de pigmentação mais evidente. A mulher feia -
aquela que nasceu pelo avesso, a soldado do 5º batalhão de artilharia
pesada, também conhecida como o rascunho do mapa do inferno - é apenas a
dona de um padrão divergente dos preceitos estéticos da contemporaneidade. O
gordo - outrora conhecido como rolha de poço, chupeta do Vesúvio, Orca,
baleia assassina e bujão - é o cidadão que está fora do peso ideal. O
magricela não pode ser chamado de morto de fome, pau de virar tripa e Olívia
Palito. O careca não é mais o aeroporto de mosquito, tobogã de piolho e
pouca telha.

Nas aulas sobre o barroco mineiro, não poderei mais citar o Aleijadinho.
Direi o seguinte: o escultor Antônio Francisco Lisboa, o que tinha
necessidades especiais... Não dá.

 

O politicamente correto também gera a morte do apelido, essa tradição
fabulosa do Brasil.

O recente Estatuto do Torcedor quer, com os olhos gordos na Copa e 2014,
disciplinar as manifestações das torcidas de futebol. Ao invés de mandar o
juiz pra puta que o pariu e o centroavante pereba tomar no olho do  ...,
cantaremos nas arquibancadas o allegro da "Nona Sinfonia" de Beethoven,
entremeado pelo coro de "Jesus, Alegria dos Homens", do velho Bach.

Falei em velho Bach e me lembrei de outra. A velhice não existe mais. O
sujeito cheio de pelancas, doente, acabado, o famoso pé na cova, aquele que
dobrou o Cabo da Boa Esperança, o cliente do seguro funeral, o popular tá
mais pra lá do que pra cá, já tem motivos para sorrir na beira da sepultura.
A velhice agora é simplesmente a "melhor idade".

Se Deus quiser morreremos todos gozando da mais perfeita saúde.

Defuntos? Não. Seremos os inquilinos compulsórios do condomínio Cidade do Pé
Junto.

 


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