20/01/2020
O tempo e a mulher do espelho

Já tarde da noite ela rastejou até o banheiro para dar o último recado do dia para sua filha que ainda pipocava entre pentear os cabelos e limpar seu rostinho.

“Não é possível que ela não perceba que está tarde e precisa descansar”, resmungou sem pensar.

Ao virar-se em direção a porta de seus aposentos (como diria sua avó), deteve-se.

O vidro polido e metalizado não mentia !

Abaixo de seus olhos uma mancha escura coloria (ou descoloria) um flácido pedaço de pele.

Apoiou seus dedos e puxou a massa movediça para entender se aquilo era um chiclete mascado grudado ou a constatação de que ela não teve tempo de fazer as 50 manobras para uma pele saudável nos cinco anos passados.

Lembrou da moça do espelho e agradeceu que já devia estar no sono de beleza dos desocupados.

O dia amanheceu nublado e quente no auge do inverno.

Vizualisou a luz azul do relógio piscando enquanto o sino da tortura tocava alto.

Pensou que as 24 horas destinadas aos afazeres ou desfazeres da vida tratavam-se de um passatempo do Senhor do Calabouço das bruxas.

Seguramente a graça deste joguinho “enfadonho” de ponteiros correndo atrás de diminutos números era vê-las (as bruxas) apressuradas, descabeladas, correndo contra o tempo para arrematarem todos os fios pendurados na enorme teia da vida, sob pena de cair no fundo apestoso, tragicômico do buraco torpemente restaurado dos brinquedos sado-masoquistas da esquina número 10 do inferno!

E desde então é assim: o tique taque do relógio mudo gargalhando dia após dia da infantilidade da busca incessante pelo bem feito fim do dia.

Mas o culpado por toda esta trapaceira brincadeira de sem tempo, com tempo, cadê o tempo, deve ser indiciado, julgado, sentenciado com pena máxima transitada em julgado sem direito a recurso algum!

Ela!

A mulher de espelho e a réu DOLOSA de absolutamente tudo!

Ela sabia que aqueles olhos amendoados e seus charmosos cachos fogosos de cabelo, seriam capazes de convencer que o tempo tratava-se de estratégia humanoide de alienação e frustração constante e irreparadora!

Sendo desta maneira: o tempo daria para tudo !

E este “tudo” foi onde a “outra ela” não entendeu bem!

Ela (a Outra ela ) levantou seu corpo da cama, meio-cama ( não deu tempo de comprar um colchão compatível com o tamanho da cama comprada errada, então virou meio-cama,na meia-cama, com alguns centímetros remanescente daquele material totalmente anti-planeta limpo), pisou no chão e lembrou que não teve tempo de fazer aqueles exercícios para amenizar a dor em seus pés, com a bolinha de fisioterapia que ela não teve tempo de comprar também, porque a lojinha fecha antes que ela tenha tempo de chegar do trabalho.

Seguiu atordoada e acordou seus amores, já atravessando as frases habituais de “não demora, olha a hora”, “todo dia tenho que falar que não podemos atrasar?”, “corre, cadê seu casaco, a mochila?”

Suas pernas temblavam: preciso de exercício.

Seu coração tagarelava : tadinha das crianças, vai com elas até a escola, pai e mãe juntos fazem toda diferença no caminho para o dia cheio dos filhos.

Sua mente: você não entregou o orçamento dos móveis novos do escritório, falta fazer o reporte de despesas do mês, ainda não escolhi o nome para o projeto novo, meu chefe esta chegando.

E entre o som do microondas esquentando a comida nos precisos tres minutos e meio, ela apertava o botão do moinho de café com uma mão e com a outra abria as lancheiras.

Olhou o reloginho do fogão: “Ele está atrasado novamente, como alguém pode ficar tanto tempo no chuveiro?”

E quem se importaria com o tempo menos 1dez que ela teria para tomar banho e sair equilibrando sapato na mão, casaco na alça da bolsa e mais umas tantas bolsas, penduradas na vassoura voadora?

Mágica da manhã quase completa!

Ela subiu correndo as escadas, entrou no banheiro, e teve vontade de fugir para um monastério no pico Himalaia.

A mulher do espelho, estava ali.

“Nossa você quase me mata de susto, não tenho tempo agora, o dia já começou e ....” calou-se e contemplou intrigada o livro que ela sustentava na ponta dos dedos.

Seu nome estava escrito na capa envelhecida e a última letra borrada com farelos de borracha recém usada.

“Hoje não irei com vocês ”, limitou-se a gritar do segundo piso ao marido e filhos.

Nos últimos tempos a mulher do espelho estava desaparecida e a “Outra ela” agradecia imensamente que aquela bruxa do leste, não aparecesse com suas maluquices justo naqueles dias que ela estava tao sem tempo para filosofar.

O livro desvelou-se e algumas folhas voaram ao redor dela, levemente umedecidas.

Mais um drama? Ah Não!

A mulher do espelho esticou sua mão gelada, com aquelas unhas compridas, cintilantes e gentilmente pegou o celular de cima da bancada abarrotada de cosméticos intactos da “Outra ela”.

Teclou a senha, e com olhar de lamentável decepção mostrou para a “não senhora do espelho”

Era o editor do jornal que gentilmente aceitava um par de palavras mal escritas em seu conteúdo diário!

E agora ? Ela esteve escondida tão bem nos últimos meses, certeza ninguém notaria sua falta, melhor, sua ausência.

Ficou estrategicamente sentada naquele vão entre a porta e a parede lateral do banheiro quebrado, em modo silencioso para não sucumbir atropelada por todos os emails, de tantos contatos, que jaziam fechadinhos na caixa de correio.

Pronto, agora seria fatal!

Estaria demitida tao pronto apertasse o mouse e a seta dirigir-se à mensagem em questão!

Em ato de auto flagelação, resmungava: “Culpa minha, arderei na larva do arrependimento toda a eternidade! Perdi a chance de escrever, escrever, escrever para alguém ler! (ao menos era o que ela esforçava-se para acreditar). Melhor reduzir-me a pó nos próximos segundos, meu coração saíra pela boca em 3, 2....”

A mulher do espelho seria testemunha deste julgamento final. Não!

E a brilhante ideia surgiu resplandecendo seu calvário ressacado pelo remordimento.

Ela lembrou que ele (o editor) conhecia a mulher do espelho, e ainda que ela fosse uma megera, ele dava boas gargalhadas com ela.

O jeito era apelar.

“Ei, você está muito ocupada aí no espelho? Sei que ultimamente (nos últimos 20 anos) não tenho tido tempo mas de repente podíamos ser mais amigas? Que tal? Tá certo, nossas discussões são sempre as mesmas, mas até temos o mesmo rosto. Claro, que você ai atrás não envelheceu nada, nem está cansada, é óbvio que tem todo tempo do mundo, afinal não tem que se preocupar com o Senhor do Calabouço contando milésimos de segundo na sua orelha”.

A mulher do espelho estirou metade de seu corpo na direção da “Outra ela” e esbravejou :

“Você sabe que delicadeza não faz parte de meus dotes, verdade?”.

“Sim, você faz questão de ser clara como um elefante branco, neste quesito!”, respondeu a “não senhora do espelho”.

E a mulher espelhada continuou numa nota só : “Estou para lá de cansada de escutar você rosnar que não tem tempo. Sua mãe foi bem clara na lição “você faz seu tempo”, e eu assegurei que teria todo tempo para tudo que quisesse”.

“Ah mas você vive do outro do espelho e não sabe como o tempo galopa aqui, enquanto tento amargamente dar conta da labuta sem fim: ser mãe , mulher, amante, empregada doméstica, cozinheira, garota de recado, atleta da terceira idade, juíza de disputa fraternal, funcionária do marido, psicóloga, caixa forte.

Tem idéia de quanto tempo preciso para limpar esta casa aqui, deixar os rodapés na cor original, lustrar o chão da entrada?

E o tempo que demora fazer comida diferente para cada filho?

Eu gasto 30 minutos do meu tempo dirigindo até o escritório, na primeira hora já saio no negativo com o tempo.

Tem também a lição das criancas, embora eles já possa fazer sozinhos, eu acho que merecem que eu de um tempo a mais para voarem e blá-blá-blá.”

A mulher do espelho puxou a papada do pescoço da “Outra ela”: “Você já viu como esta papada esta gorda?”

“Realmente nossa relação está comprometida, não tem como, somos incompatíveis em gênero, número e grau”, a “Outra ela” desolada choramingou sussurrando.

O espelho balançou.

“ Cortou a grama? Lavou as lancheiras? As roupas estão no armário? Terminou o bolo para sobremesa do lanche da escola? Ordenou a prateleira com os livros de português que está guardando para sua neta? Deu o floral para ansiedade a prole e marido? Encheu o refil com leite de rosas para as crianças criancas passarem no rosto? Colocou nos potinhos o algodão redondo para eles?

Encontrou a pomada para a espinha da menina? Cortou os pelos do ouvido do senhor seu marido? Separou as cuecas e calcinhas dos adultos para não contaminar a roupa dos “bebês ” na lavadora de roupas? E aquela lona cinza que ficava embaixo da piscina e sua filha pediu para tirar, você já fez? Separou o lixo limpo? Rezou com a familia ante de dormir? Pediu para baterem os lençóis da cama para espantar eventuais aranhas, formigas?

“Sim! Óbvio que sim e sim para tudo!” Brandou a “Outra ela”!

A mulher do espelho não estava disposta a parar: “Passou aquele creme no SEU rosto? Já usou aquele sapato de salto amarelo que comprou no Brasil? Está usando aquele protetor solar que mamys encomendou? Tem tomado as vitaminas que a cunhada indicou? Tem passado nas articulações o creme de veneno de abelha para dores, que seu marido comprou em Singapura? E o óleo de cannabis, está tomando regularmente? Foi ao cinema nos últimos 6 meses? “

“Não, e você sabe que não!

A propósito nem me deseje feliz ano novo porque a única mudança aqui foi na data do número da conta que tenho que pagar”.

A mulher do espelho havia desaparecido novamente sem deixar nenhuma migalha de existência.

Não se tratava do tempo que ela não tinha.

Tratava-se das escolhas que ela não fez!

O dia seguia nublado, as janelas fechadas.

Ela fez um novo café, colocou a xícara na mesa do escritório, acendeu a luz de sua escrivaninha, olhou as árvores secas do jardim, abriu o computador e decidiu que ela precisava do tempo dela.

Ali, tão perto e tão impregnado de desculpas.

Hoje ela terá tempo!

Daniele de Cassia Rotundo

 

 

 

 

 

 



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