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16/09/2013
O começo do fim da crise de 2008

A reunião rotineira do Fed, a ser realizada na próxima quarta feira, deve entrar para o rol dos chamados eventos históricos. Quando no futuro os olhos dos analistas se voltarem para o texto das minutas desta reunião encontrarão nele muito mais do que a decisão de reduzir, em alguns bilhões de dólares, o volume de compras de títulos públicos e vinculados a hipotecas. Eles estarão consultando um documento que passará a ser conhecido como aquele que relatou o começo do fim da grande crise econômica e financeira iniciada em fins de 2007.

Muitos leitores vão mais uma vez achar que eu estou me antecipando ao declarar hoje o fim da crise financeira que vivemos. Mas fui treinado a ser mais ousado do que os analistas convencionais na previsão de acontecimentos econômicos futuros. Mas sempre dou este passo baseado em fatos concretos e em convicções de natureza ideológica que moldaram meu olhar para a economia. É o que pretendo fazer nesta coluna, na semana em que a falência do Lehman Brothers completa cinco anos e a atenção da maioria dos analistas se volta ainda para o passado.

O ponto de apoio mais importante desta minha previsão vem da convicção que tenho de que o capitalismo é um sistema econômico voltado para o crescimento. Mas rapidamente, antes de ser criticado, quero introduzir uma pitada de Keynes nesta leitura afirmando que as crises cíclicas de curto prazo também fazem parte de seu script. Aliás, a economia brasileira hoje é prova disto. A desaceleração do crescimento e a pressão sobre os preços que estamos vivendo estão previstas em qualquer bom livro texto de macroeconomia.

Neste quadro analítico em que acredito e trabalho, as crises como a que vivemos nestes últimos cinco anos só aparecem quando os pecados de liberais extremados na gestão de algumas economias âncoras do mundo atingem níveis extremos. Como o que aconteceu nos Estados Unidos depois da virada do século passado. São, portanto, eventos aleatórios e de ocorrência muito pouco frequente como nos mostra a história recente. Felizmente, desta vez, tínhamos no comando do Fed um especialista neste tipo de evento e que soube aplicar - no ambiente institucional do século XXI - os conhecimentos acumulados desde os anos em que Keynes iniciou uma reflexão sobre este fenômeno.

Portanto, para mim é uma coisa natural que, uma vez superados estes momentos de irracionalidade e covardia dos homens públicos, a economia mundial volte a seu leito do crescimento. Um subproduto desta minha convicção é que vamos voltar a ter a macroeconomia como a referência central dos mercados nos próximos anos.

Mas antes de chegarmos a esta situação de normalidade, vamos passar ainda por um período de volatilidade irracional dos mercados financeiros. A partir do momento em que o Fed sinalizou o início de uma redução cautelosa da política de monetização do déficit fiscal nos Estados Unidos, o mercado entrou em mais uma de suas crises histéricas. A maioria dos analistas e especuladores, com o tsunami monetário que irrigava de dólares as economias emergentes invertendo seu sentido, agiram como se estivéssemos à beira de uma nova crise financeira no mundo emergente.

Nesta situação as moedas emergentes sofreriam forte desvalorização e a fuga de capitais deixaria os países, que operam com elevados déficits em sua conta corrente externa, em situação muito difícil. O passo seguinte seria um aumento brutal dos juros internos nestas economias, com reflexo negativo sobre o crescimento econômico e os lucros das empresas. O Brasil - junto com outras economias como a da Austrália - sofreria um choque adicional com o colapso dos preços das commodities, que com certeza ocorreria a partir da desaceleração da economia chinesa. Um perfeito cenário para os que começaram a apostar contra o real e contra o IBovespa e que levou o real a se desvalorizar em quase 20% e a Bovespa a namorar com os 45.000 pontos.

Felizmente, neste mês de setembro, o bom senso de um grupo crescente de analistas começa a colocar as coisas nos eixos. Em primeiro lugar o próprio Fed, por meio das palavras de alguns diretores, passou a mandar o recado de que a redução no volume de compras de títulos nos mercados seria muito menor do que as estimativas iniciais do mercado. Com isto, houve uma acomodação nos juros de prazo mais longo e, principalmente, uma volta nos juros de prazos curtos e intermediários para os níveis anteriores a este chilique.

Esta correção retirou um pouco da pressão sobre os emergentes, fazendo com que as cotações das ações e o valor das moedas nacionais tivessem uma recuperação importante. Este movimento reforçou-se na medida em que os dados sobre a atividade econômica na China mostraram a inconsistência do cenário de quase catástrofe de muitos.

Na próxima quarta feira o Fed vai tomar sua decisão de iniciar o processo de retirada dos estímulos extraordinários dos últimos anos e o mercado vai acordar no dia seguinte sem esta ameaça. E mais uma vez vamos provar a máxima que todos no mercado financeiro conhecem: compre no boato e venda no fato.

Luiz Carlos Mendonça de Barros, engenheiro e economista, é diretor-estrategista da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações. Escreve mensalmente às segundas.


Por Luiz Carlos Mendonça de Barros - Valor Econômico

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