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18/07/2015
Impeachment e a economia

Artigo de André Perfeito: As consequências econômicas do impeachment, ou como parei de me preocupar e comecei a amar a bomba...

Itatiaia - Estou de férias, mas não é possível ignorar. Mesmo no meio das montanhas de um parque onde não pega celular, mas tem internet (vai entender), é possível sentir no ar o desconforto, a apreensão e a falta de controle que tomou conta de Brasília.

A imagem de uma Ferrari, um Porsche e uma Lamborghini saindo pelo portão da Casa da Dinda fez correr na espinha um frio esquecido, mas muito familiar. A cena tinha um que de “Terra em Transe” do Glauber, só que estava mais para “Dr. Fantástico”, do Kubrick.

Como economista, tenho obrigação de tentar tatear as possibilidades do futuro imediato para conseguir posicionar meus clientes e a sociedade de maneira geral sobre a gravidade do problema.

O tema, contudo, escapa da análise propriamente econômica e terei que me valer da intuição com o que tenho de bagagem da sociologia, da política e de história para tentar reconstruir uma narrativa que no mais, me parece neurótica.

Uma repetição infantil dos mesmos erros, catalisados por um presidencialismo de coalizão que se mostrou falido há anos mas que insiste na inoperância de uma geração que está no poder, mas perdeu o sentido de projeto. Quando digo geração me refiro aos brasileiros acima de 40 que fizeram o Real, mas não deram conta da realidade.

Diferentemente dos meus colegas economistas, acredito que estamos vivendo o nascimento do Brasil do pós-real (não o fim dele, mas para além dele), e isso está se demonstrando traumático.

Estamos passando o país a limpo, e isto implica dizer que tudo está sendo revisto e que muitos pontos de equilíbrios foram e estão sendo alterados.

Do ponto de vista econômico, vale notar que se a hipótese da Incerteza Jurisdicional estiver correta (aquela que aponta que os juros são altos porque a incerteza jurídica é grande), temos que lembrar que equilíbrio é uma mão dupla onde os juros altos equilibram a incerteza e sendo assim a perpetuam.

O Brasil tinha juros reais de 12% há 10 anos, hoje tem menos que 5%. Dito de outra forma: nos jogamos na incerteza.

Antes de avançar nas consequências de um impeachment, que na minha opinião seriam desastrosas, temos que ter em mente isso e mais outra coisa.

Esqueça o ajuste fiscal, isso é apenas um instrumento. O ajuste mesmo, em 2015 e em 2016, terá que ser nos salários reais, já que não conseguimos como sociedade transformar em investimentos a excitação de uma demanda crescente do surgimento de uma nova classe média. Estamos fazendo o ajuste para trás, rumo ao conhecido; a saber, os velhos pontos de equilíbrio do Brasil do Real.

Agora podemos avançar com uma atenção flutuante sobre o cenário.

Em primeiro lugar, ainda não estou plenamente convencido que haverá um impeachment. Parte do PMDB torce o nariz para Cunha e Renan, e do lado do PSDB não vejo convicção da ala paulista neste caminho (seja do governador Alckmin, dos senadores José Serra e Aloysio Nunes, sem contar do ex-presidente FHC).

No entanto, já disse, o incômodo se faz presente, e mesmo que a presidente Dilma aposte que não terão coragem para levar esse projeto adiante, é nítido também que essa fase da Lava Jato está colocando Brasília em transe.

Se a Dilma cair

É bem provável que o mercado se estresse na incerteza sobre o processo sucessório – afinal, se Eduardo Cunha assumir seria surrealista, uma vez que ele próprio é investigado na Lava Jato.

E mesmo que ele chame novas eleições, é provável que o PT lance Lula como candidato, o que iria reforçar o consenso de crise continuada. Não dou como certa a vitória da oposição, seja quem for, numa nova eleição.

Se isso é verdade, o dólar pode testar os patamares de R$ 4,00 rapidamente, uma desvalorização de 27%. Com mais esse choque cambial, duas coisas devem acontecer.

A primeira é que o Banco Central terá que elevar ainda mais a Selic para combater os choques secundários na inflação, uma vez que o dólar estará acima do valor de referência e será preciso "comprar" credibilidade num país que perdeu a cabeça.

Moeda é o Estado - e se o Estado está fraco, a moeda sofre.

Juros, swaps e grau de investimento

O segundo impacto será nefasto. O Banco Central criou um programa substancial de hedge para os empresários através de swaps cambais. Toda vez que o dólar sobe, o BC perde dinheiro na operação.

Só em maio o BC teve que desembolsar uma bobagem de R$ 22 bilhões quando o real perdeu 6% contra o dólar. Desde o início do ano, o prejuízo é de R$ 41 bilhões.

Com a elevação da Selic, o volume dos juros nominais irá subir sensivelmente. Somado com os swaps, pode esquecer de atingir qualquer meta fiscal esse ano, e seria bem provável termos mais um déficit primário este ano.

Bem, não preciso nem dizer que juros maiores implicam em menor atividade econômica e, ato contínuo, menor arrecadação.

Com o ajuste fiscal fazendo água e sem apoio político para colocar em prática este choque ortodoxo (que, na minha opinião, foi um equívoco), não sobrará alternativa para Joaquim Levy a não ser abandonar o cargo. No meio tempo, as agências de classificação de risco irão rebaixar o Brasil e assim a porca torce o rabo de vez.

Com a deterioração do real, o BC talvez acabe com o programa dos swaps para não sangrar demais o caixa e deixe o mercado se equilibrar sozinho. Se não se equilibrar por conta de uma crise política grave – lembremos que o ajuste é nos salários reais e todos os movimentos sociais vão fazer a grita sem o PT para mediar – no limite o BC pode queimar parte das reservas com dólar a vista e aí podemos dizer adeus para o grau de investimento por algum tempo.

Simultaneamente a elevação da Selic, os capitais irão correr para debaixo da asa do Tesouro Nacional através de títulos públicos pós-fixados, asfixiando de vez o mercado de crédito privado e interrompendo importantes cadeias de investimento e de rolagem.

O prazo médio dos títulos públicos irá sair dos atuais 40 meses para 30 meses sem o grau de investimento e haverá uma piora significativa nos indexadores da dívida pública.

O cenário que descrevi parece catastrófico, e é, mas é somente o retorno ao velho ponto de equilíbrio da economia brasileira. No entanto, isso não será possível acontecer. Explico-me.

Em primeiro lugar a elevação dos juros e todos os desdobramentos que delineei seriam um ajuste grande não só nos salários, mas também nos lucros empresariais. A não ser que todos os empresários do país sejam também rentistas, o que vamos ver é muitos negócios quebrando - e estou me referindo a empresas muito grandes mesmo.

Isso seria insuportável. Tanto os trabalhadores quanto os empresários estariam no mesmo barco furado. Hoje no Brasil não tem como mais voltar ao paraíso de taxas de juros reais de 12%. Isso ficou para trás e não vai voltar, sob pena de uma convulsão social realmente grave. Não interessa a ninguém.

O problema do Brasil não é econômico, é político. E mais que político, é um problema de mentalidades.

O brasileiro se acostumou a não ir para o risco, afinal a incerteza é alta e a torre dos juros elevada. Ficamos na barra da saia da mãe Estado por tempo demais. Isso já acabou, mas as pessoas ainda não perceberam.

Da mesma forma que precisa aparecer o novo na política e não mais a reencarnação de defuntos políticos enraizados ao solo (elites vegetais, diria Oswald de Andrade), precisamos de novos empresários, de uma nova elite que entenda e aceite o risco.

Vejo essa elite já entre nós. A minha geração já mostrou sinais reiterados de que quer ir para o risco. Só precisamos que o velho saia sem quebrar tudo ao bater a porta.

André Perfeito é economista-chefe da corretora Gradual Investimentos e ganhou o prêmio de Economista-Chefe do Ano pela Ordem dos Economistas do Brasil


site da revista Exame

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