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04/12/2009
Foram dádivas

A claridade da manhã, cacarejar das galinhas e canto de pássaros eram o despertar da inocência infantil antes entregue ao silêncio do escuro da noite tão aconchegante. O cheiro de café se alastrava pelos recintos da casa e a mãe já tinha fritado ovo que, com “pão de ontem” seria o lanche para a hora do recreio na escola. O caminhar até ela sob o brilho do sol envolvido com a fragrância da vegetação se desvestindo do frescor do orvalho e sob a amplidão celeste eram dádivas da natureza. Dando vez a outras sensações, no páteo defronte a escola, meninos e meninas pertencentes à mesma sala de aula, dois a dois e em fila aguardavam a ordem para adentrarem. Dada a ordem ou pelo soar da campainha, uma a uma, conduzidas por suas respectivas professoras, as filas penetravam naquele ambiente de real aprendizado. Professoras, que notoriedade elas eram! Seus semblantes permanecem inalteráveis. Em criança no ainda prematuro pensar em comparações, considerava-as serem especiais contrapondo-se com a local feminina simplicidade mental. Não sendo do lugar, elas vinham de outros e, nada se sabia de suas vidas particulares, a não ser o fato de serem “normalistas”. Nome este já esquecido hoje de quem freqüentava ou tinha o curso de escola normal. Dedicação era o dogma daquelas designadas para a instrução formal infantil daqueles tempos idos. Dona Maria Inês foi professora do primeiro ano. Dona Elisabeth do segundo, a que mais me bateu e não era pra menos (risos). No terceiro ano tivemos um professor e seu nome não vem à memória, talvez porque, o mesmo sempre interrompia as aulas para os alunos despertarem seus dons artísticos e com isso tivemos um aprendizado “fraco”. Éramos escalados para, ao lado dele, ficarmos de frente aos demais alunos e lá tínhamos que representar algo artístico ou, mais comum, era cantar. Ficou na memória o então aluno Vivaldi Nane cantando “Coração Materno”, música esta, um sucesso da época do cantor Vicente Celestino. Bem, o terceiro ano escolar mais foi diversão. No quarto ano escolar a Dona Silvia Brondy tinha um “não sei o que” de especial e quando ao “voltar ao passado”, ela é a mais lembrada com sua voz, seus trejeitos e sua postura física diante dos alunos. Inesquecível, no último dia de aula ela proferiu um discurso quando, mesclado com despedida estava uma antecipada saudade e um carinho até então parecido estar escondido. O discurso foi sobre sempre mantermos o cérebro em atividade para não esquecermos o que aprendemos. Isto, mais para aqueles que, pressentia ela, não iria dar continuidade aos estudos posteriores. Assim, a partir dos onze anos de idade nunca mais vi a Dona Maria Inês, a Dona Elisabeth e a Dona Silvia. Muito tempo passou e as três queridas “normalistas” ainda estão em mim mesmo não mais estando por aqui neste mundo onde quem desaparece deixa sua imagem que permanece.



Altino Olimpio