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04/04/2006
Resquícios Malignos

Num sábado ensolarado, acompanhei uns parentes até a Vila Nova Perus, no Bairro de Perus, onde estavam interessados em alugar uma casa. Acercando-se do endereço, proveniente do Lixão lá instalado, um odor pútrido dificultava a permanência naquelas cercanias. Já desistentes do intento de alugar a casa do endereço, apenas por curiosidade adentramos nela para examinar seus espaçosos cômodos. Até onde me lembro, foi na sala de visitas onde fui surpreendido por sobressaltos e tiques, aqueles que antecedem uma incorporação por espírito.
Através de agitações, uma força poderosa apoderou-se do meu corpo tornando-o arcado, com os braços cruzados nas costas, mãos rígidas e retorcidas, expressões faciais distorcidas com o olhar paralisado sem piscar e grunhindo como suíno, minha voz vinha das profundezas inexploradas do meu mundo oculto até então.
Apavorados, os parentes pensando tratar-se de um ataque epilético, aproximaram-se e foram repelidos com muitos palavrões inenarráveis.
Atraídos pelo alvoroço e piorando a situação, alguns curiosos tentaram me acalmar e foram furiosamente arremessados à distância, conseqüentemente, estilhaçando os vidros da janela daquela sala. Fortemente agarrado por alguns homens, debatendo-me e vociferando impropérios, numa Kombi partimos rumo ao pronto-socorro.
Distanciando-me daquele local daquela incorporação e com isso enfraquecendo sua predominância possessiva, readquiri a consciência normal naquela situação embaraçosa.

Depois do ocorrido, já em casa, os fatos despercebidos enquanto inconsciente, foram-me narrados pelos parentes antes deles partirem, assustados ainda como estavam. Nos dias seguintes com o pensamento tentando elucidar aquele acontecimento desagradável, ocorreu-me a possibilidade de ter sido incorporado por um Exu. Preocupado com a anormalidade fisiológica acessível a intrusões indesejáveis e temendo por repetições, fui consultar-me com uma famosa vidente, também muito procurada por políticos em época de eleições. Ela pediu para me concentrar e mentalizar o local daquela minha possessão.
Seus surpreendentes esclarecimentos foram assim: “Não! Não foi um Exu. Naquela casa, seus antigos moradores mantinham ódio contra o Lixão. Diariamente através de palavrões praguejavam contra os responsáveis da instalação dele. Muito sensível, o senhor absorveu aquelas ainda existentes vibrações pesadas daquele lugar. Basta manter-se à distância das cercanias do Lixão para evitar uma possível reincidência sobrenatural, como o senhor a entendeu. Passe bem e que a paz o acompanhe no seu regresso”.

Nesta crônica, verdade mesmo só os parentes e a casa para alugar. Tudo o mais foi ficção. Escrita de “encomenda”, na época ela tinha um propósito que o tempo ao passar, fez com que deixasse de ser.


Altino Olímpio