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09/05/2012
Quando floresce o flamboyant


Todos nós temos diferentes paixões na vida. Paixões por carros, motos, viagens, amores, músicas etc. Com sete anos de idade, ouvi falar pela primeira vez, o nome de uma daquelas que viria a ser minha paixão - Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” – em Piracicaba – SP, mais conhecida entre nós por “Escola Luiz de Queiroz”.
Foi através do Engenheiro Agrônomo, da Casa da Lavoura em S.Carlos, que havia lá se formado. Este senhor falava de sua faculdade com carinho e respeito. Seu depoimento influenciou-me na decisão de tornar-me um dia, Agrônomo formado pela ESALQ.
  Meus amigos sabiam desse meu sonho, pois nunca consegui enxergar outra profissão e nem mesmo me ver formando em outra escola. Tinha que ser lá e ponto final. O tempo passou e dia após dia eu alimentava a esperança de ver este desejo realizado. 
  Foi indescritível ver pela primeira vez, a imensidão de seus jardins entremeados com prédios centenários edificados com idealismo e harmoniosa arquitetura, pelos nossos antecessores - mais conhecidos entre nós por doutores – trata-se de uma deferência respeitosa dos mais novos para com os mais velhos. Destaco com louvor o visionário e desprendido fundador - Luiz de Queiroz – quando num gesto altruísta e de rara nobreza, doou há mais de cem anos, sua fértil fazenda para este fim. Criou-se a partir deste momento, uma orgulhosa corrente de união entre nós.
  Chegávamos desconfiados, de início, para fazermos o cursinho, cada qual ao seu estilo. Éramos “jovens guardas” vindos de lugares diferentes do Brasil e esta miscigenação de raças e costumes, faz da escola um lugar especial. Faltavam mordomias mesmo para os mais abastados, mas sobravam calças “boca de sino” e longas cabeleiras. Durante quatro ou cinco anos de convivência, nós nos conhecemos, trocamos experiências e solidificamos amizades duradouras que foram além da faculdade. Na verdade, creio ser cumplicidade, a palavra mais apropriada para definir esta relação de carinho e afeto cultivada entre nós, afinal ser assim é nossa marca registrada, um verdadeiro legado.
Cantávamos com emoção nosso hino em forma de paródia. “Nós somos da Agronomia, fiéis paus d’águas, que porcaria, andamos sempre de bonde, com o juízo não sei  a onde, porém quando a coisa aperta  e nós pensamos no amanhã, a turma toda padece quando floresce  um Flamboyant”. Estávamos na Primavera!
Esta linda e exuberante árvore – Flamboyant - ocupa lugares privilegiados no campus da faculdade e floresce no mês de novembro, quando coincidentemente tínhamos as provas finais. E o sofrimento era inevitável! No meu caso em especial, este advinha das provas de matemática e topografia - que estresse!
Ser Esalqueano é antes de tudo um estado de espírito - nossos laços seguem pela eternidade. Tanto isso é verdade, que cultuamos os finados colegas todas as vezes que nos reunimos. Jamais serão esquecidos por nós. Eles ocupam com galhardia e carinho um lugar de honra em nossos corações. Emocionamos-nos ao ver um de seus descendentes entre nós, principalmente se estudam ou estudaram na gloriosa - Luiz de Queiroz.
  “Como é sublime, beber a Brahma e depois puxar uma palha, numa bela duma cama, amor febril pelo barril, não há quem possa, com a turma nossa”. 
É impressionante! Quarenta anos se passaram e ainda me emociono ao visitá-la. Viro adolescente! É uma mistura de orgulho, felicidade, emoção e nostalgia. Somente o tempo consegue explicar! Ao adentrar em seus bosques e jardins, tenho a impressão que só no paraíso encontrarei algo semelhante.  Sinto-me um pouco dono desse patrimônio cultural, por isso zelo-o com patriotismo e profunda gratidão.
Não seria justo deixar de homenagear a bucólica Piracicaba, escolhida para aninhar em seu ventre esta respeitável jóia da agricultura brasileira, cidade hospitaleira que a todos recebe de braços abertos. “Piracicaba que eu adoro tanto, cheia de flores, cheia de encantos, ninguém conhece a grande dor que sente, um filho ausente a suspirar por ti”.
A todos Esalqueanos da turma de 1973, ou não, orgulhosos como eu de pertencer a esta grande família cercada por imorredouras lembranças, principalmente daquelas advindas da saudosa “Rua do Porto” e das frenéticas repúblicas - onde estiverem por este mundo afora - recebam meu amigável e caloroso abraço.  Aos que nos deixaram, para continuarem suas missões semeando luz e embelezando com seus espíritos, os jardins e bosques da eternidade - nossa saudade e carinho. Podem acabar todas as paixões de nossas vidas, mas esta que sentimos por ti Luiz de Queiroz - será eterna.
E VIVA A ETERNA  LUIZ DE QUEIROZ!
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Osvaldo Piccinin