11/02/2021
Pensando como pensar

Não sei se houve um momento na história da Humanidade em que a sensibilidade aos sentimentos coletivos de vários ângulos estiveram tão aguçados quanto deste que vivemos.

E rapidamente respondo a mim mesma que a guerra, a fome, a miséria sempre existiram, e isto, por si, isolados, são suficientes para arruinar a psique, a objetividade e por derrocada a suposta estabilidade de qualquer forma de vida. 

Qualquer forma de vida entendida como "reunião daquilo que diferencia um corpo vivo do morto”, porque não há pedra que fique sobre pedra, verde natureza que siga intocável ou vida animal (stricto sensu) que não seja perturbado pela escassez ( da fonte de alimentação), pelos excessos, pelo leque de possibilidades incontáveis e hostis que somos facilmente alvos.

Sendo assim, de uma maneira genérica: sim, talvez em vários momentos da história o ser humano tenha sentido sua potência máxima como insuficiente.

Antes mesmo do homem ser uma ínfima contingência para compartilhar com ( e do) Planeta Terra, a ação e reação física de um átomo,  estavam fazendo história para dali há bilhões de anos, justo mais ou menos, onde estamos no tempo - agora.

E como resultado, as modificações de cunho geográfico foram definindo o Planeta como tal mais ou menos se encontra. 

Continentes foram partidos, arrastaram-se aglomerados de erosão para debaixo d'água, identificou-se o que está mais aqui ou acolá, próximo ou distante do trópico de capricórnio, longe do Meridiano de Greenwich etc.

Isto afetou e segue afetando, desde a cor da pele, o modo de vida primário e por consequência atual, as atividades mercantis, o sucesso ou o fiasco de dominar mais pedaços de terra sob uma mesma bandeira, até a distância espaço-lua! 

Ja pensaram nisto? 

Cada minúsculo detalhe da formação do nosso universo terráqueo, desencadeou um modo de ação - reação em toda a Humanidade.

Assim, não haverá modus operandi 100% análogo em toda extensão vertical,  horizontal, circunferencial  da “pelota azul”.

Portanto, antes mesmo da formação da Terra, fora da inquietação dos sentimentos do homem, só a delegação de territórios a espaços no globo, pelos “deuses da criação" (seja o Big Bang, Deus, Alá, etc), o oscilar do que povoaria a carga sentimental do corpo físico humano, já estava fadado há uma tormenta de imprevisões.

Aqui há um indício que nós, em teoria, seríamos seres com talento para sentir, todo tipo de “Reação moral, psíquica ou física, geralmente causada por uma confusão de sentimentos que, diante de algum fato, situação, notícia etc., faz com que o corpo se comporte tendo em conta essa reação, expressando alterações respiratórias, circulatórias; comoção.” 

O sintoma constante da sensibilidade humana exacerbada pelo individualismo, as circunstâncias desolantes, e a natureza da constância da descontinuação de padrões de comportamento e, Voilá!

Começa a sussurrar um pedido de controle social, primeiro sob a égide de “liberdades individuais limitadas pela coletiva necessária" até o novíssimo cancelamento.

Fica mais compreensível que o radicalismo ditado por vozes agudíssimas  ou gravíssimas, deu um novo rumo à propensão à capacidade de pensar: menos, ou nada filosófico.

Filosófico aqui entendido como o exercício do pensar desgarrado da matriz, “Célula Mãe”. 

No tocante ao ato de conceber ideias, a “Célula Mãe” representa a alienação causal - aquela que acontece por fatores que independem de ação consciente individual, e se cristalizam pela falta de conhecimento oriundos de situações socioeconômicas, culturais, emocionais etc 

Explicando:

Imaginem um grande globo, que chamarei de “Célula Mãe”. 

Esta forma rotunda de natureza expansiva contém a reunião de preceitos, sistematicamente relacionados, codificados tacitamente ou expressamente, desde a pro-escrita, do período Neolítico, até o ingresso na primeira forma reconhecida de escrita, como forma de linguagem, os mesoamericanos, até  o nosso atual “Gloriosa...rainha do funk”.

Este globo possui vários fios de sustentação que o mantém conectado às paredes, teto e solo num espaço quadrado, certo? 

O espaço quadrado é a sociedade : pobre, rica, faminta, bem nutrida, bela, horrorosa, angelical, ordinária, capixaba, mineira, irlandesa, e os adjetivos que cada um queira atribuí-la.

Os fios de sustentação nutrem e são nutridos pela Célula Mãe “viva”, encaixada, ajustada perfeitamente ao quadrilátero.

Cada fio é minuciosamente parafusado e vedado nesta perfeita bola de gás inflamável.

Sem esta “Célula Mãe”, o caos tornaria a vida em sociedade extremamente penosa.

Dentro da célula mãe se encontra, então, o necessário para uma harmonia construída entre todos os povos do planeta Terra.

E qual a relação disto com o pensar?

A função da “Célula Mãe” é apenas propiciar as bases, o ponto de equilíbrio entre diversas perspectivas da exploração da autonomia do ser.

Mas não é o que acontece.

Os fios de sustentação enrijecem a sociedade e solidificam padrões comportamentais não compatíveis com a pluralidade em seus variados modos de exposição.

O ditado do que podemos chamar regras de conduta é profanado por um conselho deliberativo minoritário.

E não de somentes sábios.

Mas quase que majoritariamente por uma minoria indubitável de estóicos manipuladores.

Sendo assim, os fios de sustentação que conduzem através de estreitos canais (mas muito bem elaborados) o resultado do manejo dos elementos constitutivos do que PODE ser conhecido, não são nada mais que o que hoje chamamos de mídia forjada e azeda.

Este resultado distribuído, não corresponde a um pensar livre.

Há interesse pela revelação do pensar alheio. Mas como sujeito passivo.

Então, sob uma proteção corrompida, repousa um bando (que somos nós, a própria humanidade), confiando e abdicando do desenvolvimento, estimulação da nossa capacidade e força , não só de pensar livre como de ser.

Somos crentes de um sistema parental inexistente como tal.

Mas o que está fora desta “Célula Mãe”, embora dentro do quadrado, já não compactua desta mácula de massa.

É neste espaço aparentemente olvidado, que reside e brilha, entre os ganchos e fios de sustentáculo o citado como pensar filosófico stricto sensu , simplório.

Consequentemente, o filosofico é apenas referência à liberdade de elaboração de novas sinapses, desvinculadas de qualquer mácula de massa ou para massa. 

Estes fios de sustentação são apenas amarras, limitadores, colírios provocando dores de cegueira social.

Quando quebrados, sucateados, desparafusados, o avidar da matriz da instituição permite a flexibilização dos protótipos engessados.  

Neste momento surge o heterogêneo que é tudo que não compactua com um modus operandi imoto em burocracias.

A dessemelhança pouco a pouco atinge robustez, rompendo condutas obsoletas de ações , racionais e emocionais.

A rijeza dos fios de sustentação não serão, então, suficientes para a perpetuação de normas obsoletas.

A sociedade segue nutrida pela Célula Mãe ou ela deixa de existir?

Sim, a sociedade continua nutrindo e nutrindo-se da fonte principal.

Mas o feitio novo, desgarrado na sua origem da disposição oriunda de uma maneira pré existente e legitimidade de ação, transborda seu conteúdo para o quadrilátero - a sociedade passível de novos olhares e condutas de atuar.

É um modelo desconhecido do cristalizado que inicia um percurso até então incógnito, à medida que aumenta a frequência de seu discurso, produzindo um efeito que vibra na pele da comunidade.

Essa vibração faz balançar uma proposta fora do padrão-ouro .

A engrenagem que alavanca a continuidade do pré-concebido como paradigma sente vagarosamente a rebeldia de sua estrutura.

Esta resistência ao processo de renovação opera como bóia, deixando à tona e visível o jovem pensamento.

O que tiver algum nível de similitude ao estrutural, seja imposto como regra de conduta ou fruto de processo aleatório, será absorvido por um percurso sucessivo pela  parte marginal (a margem) do entorno, ou por movimentações heterogêneas do próprio núcleo, como resposta a deslocação  incômoda que a estrutura social começa sentir.

Trata-se do novo dissimil introduzido num modelo de grandezas aritméticas.

Este novato será por um tempo combatido por facetas do arquétipo pernóstico, agora com rachaduras em sua base.

E nesta conjuntura, três palavras cercaram os próximos avanços (ou não) no oceano globalizado moderno.

São elas: adequação, tempo, maleabilidade.

Em outra oportunidade usarei esta crônica como base para entender movimentos sociais e políticos no mundo.

 

Daniele de Cassia Rotundo Lima

 



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