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11/06/05
Começa pesquisa que vai salvar vidas

Rio, São Paulo e Salvador deram início ontem à fase clínica da maior pesquisa do mundo com células-tronco adultas

Anestesia local, dez minutos de duração e apenas um cirurgião. Simples e rápido, o procedimento, realizado ontem no Instituto Nacional de Cardiologia de Laranjeiras (INCL), no Rio, pode salvar a vida de 200 mil brasileiros nos próximos três anos caso o maior estudo do mundo com células-tronco adultas para o tratamento de doenças do coração se mostre eficaz. A estimativa é dos coordenadores da pesquisa, financiada pelo governo federal, que ontem, por meio do ministro da Saúde, Humberto Costa, deixou clara a intenção de investir na área, incluindo testes com células-tronco de embriões humanos, inconstitucionais na visão do procurador geral da República, Cláudio Fonteles. A fase clínica do estudo começou ontem, simultaneamente, em 3 das 33 instituições envolvidas: Instituto do Coração (Incor), em São Paulo, Hospital Santa Izabel, em Salvador, e INCL. No Rio, a intervenção foi transmitida, em tempo real, para um auditório da Instituição, onde estavam Costa e o ministro da ciência e tecnologia, Eduardo Campos. Eles acompanharam, por meio de um telão, cada movimento feito no paciente, Luzimar Souza Quintanilha, de 44 anos, portador de cardiomiopatia dilatada. Este por sua vez, também não perdeu um detalhe. Acordado, aparentava tranqüilidade enquanto o médico Paulo Sérgio de Oliveira injetava uma substância dentro de um microcatéter que ninguém, só o hematologista, sabe se continha, realmente células-tronco. O estudo é randomizado, ou seja, metade dos 1.200 voluntários vai receber placebo. "O coração dele está dilatado e o nosso apertado, pois não sabemos se existe ou não células-tronco na substância injetada. Mas é uma maneira de termos resultados mais seguros", disse Helena Martino, chefe do Departamento de Miocardiopatia do instituto. Embora 5 dos 14 pacientes em tratamento em estudo piloto do iniciado ontem tenham relatado melhoria na qualidade de vida, a cardiologista falou, com cautela, sobre a eficiência da terapia celular. "Já sabemos que o procedimento é exeqüível e seguro. Precisamos investigar mais". Coordenador nacional da pesquisa, Antonio Carlos Campos de Carvalho disse ser preciso pelo menos mais um ano e meio para chegar aos resultados da pesquisa. Caso sejam satisfatórios, Humberto Costa anunciou que, em três anos, o tratamento será oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Chagas Em Salvador, durou menos de três horas a cirurgia no cozinheiro Agnaldo Bispo, de 53 anos, vítima de mal de Chagas, realizada pala equipe do médico Ricardo Ribeiro, da Fundação Osvaldo Cruz, no Hospital Santa Izabel. A técnica, testada nos últimos três anos em 30 chagásicos baianos, consiste, basicamente, em retirar células-tronco da medula óssea do próprio paciente e injetá-la diretamente no coração dele. As células-tronco demonstraram a capacidade de regenerar o músculo cardíaco em pouco tempo. Os médicos retiraram cerca de 60 mililitros de líquido da medula óssea e injetaram de 300 mil a 3 milhões de células-tronco no seu coração. Se tudo der certo, em um mês já deve começar a apresentar melhoras.

O Estado de São Paulo