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09/05/2012
Mané cebola

Na verdade seu nome é Manoel Dantas. Mais um personagem da minha cidade, que marcou de forma positiva e exemplar a minha adolescência.
Já se passaram mais de quarenta anos. Eu, um adolescente cheio de sonhos, cursando o ginasial, com muita dificuldade, vivendo tempos difíceis e parcos recursos. Ele, cursando uma faculdade, numa situação de extrema dificuldade, mas com muita dignidade.
Na nossa cidade - Ibaté - não havia Ginasial e nem Científico, por esta razão estudávamos na cidade vizinha. Contávamos nas mãos, os privilegiados jovens, que tinham a mínima condição financeira de estudar noutra cidade. Não passava de uma dúzia.
Quase a maioria absoluta estudava durante o dia. Apenas um, entre nós, estudava a noite. Detalhe este, que sempre me chamou a atenção. Este jovem era exatamente o Mané Cebola - apelido pelo qual era conhecido.
Sua origem nordestina, sua  garra, determinação, seu caráter  marcante, assim como sua “munhequice” eram marcas registradas -  tirar um tostão dele era uma tarefa hercúlea!
Por muito tempo fiquei sem entender porque ele estudava à noite. Cursava Química Industrial -, me diziam que ele trabalhava na Usina Tamoio e tinha que fazer este sacrifício para se sustentar e pagar seus estudos, uma vez que o curso era particular. Eu imaginava ser ele um escriturário ou algo parecido lá na usina; afinal não gostava muito de falar sobre onde trabalhava, por motivos óbvios.
  Era um pouco mais velho que nós, não mais de vinte e dois anos, mas muito bem afeiçoado, apesar de sua tez queimada pelo sol escaldante da roça. Sempre prestativo e bom comunicador, fazia parte da “elite” estudantil da cidade, freqüentava com desenvoltura as festas e bailes dos melhores clubes da região.
Um dia, em viagem a trabalho, pela Usina Tamoio, fiquei impressionado ao ver meu amigo dando duro no cabo de um machado, cortando uma floresta de eucaliptos. Por ser muito forte, desferia golpes firmes e certeiros no tronco das árvores, pois naquele tempo não existia motosserras. Segundo fiquei sabendo tempos depois, ele era o campeão neste serviço.
Relatando  esta passagem ao meu amigo Conde, ele detalhou como era a vida do Mané. Sua rotina diária era acordar às quatro da manhã, ir para ponto (local onde passava a condução), tomar um caminhão de bóias - frias que o conduzia até ao árduo trabalho; cortar lenha o dia todo - até as dezessete horas - com apenas um pequeno intervalo para o almoço.  Tomava um banho de “gato”, bem depressa! Na maioria das vezes em riachos da roça para ganhar tempo e não perder a jardineira que o conduzia até a faculdade, ao entardecer.  Vestia o uniforme amassado, que levava numa mochila para roça e ficava sem jantar até às dez e meia da noite – quando retornava para sua casa.
Só então tinha umas poucas horas de merecido descanso e retornar ao trabalho, na manhã seguinte. Estudava e fazia as tarefas no intervalo do almoço, e em alguns finais de semana. Férias? Nem pensar! Pobre não tira férias me dizia ele.
Depois de tomar conhecimento de sua história, nunca mais reclamei da vida dura que também levava como estudante. Eu me perguntava, se o Mané agüenta a “marimba” porque  eu não agüento? Mal sabia ele, que para mim, ele  era um exemplo a ser seguido.
Formou-se químico industrial com muito sacrifício e honradez. Nunca soube que tivesse exercido esta profissão, mas isso é o que menos importa. O que ficou para sempre, na minha memória, foi seu exemplo de luta e a crença, de vencer sem nunca desistir.
  Sabe Mané: “Os tristes acham que o vento geme, os alegres acham que o vento canta”. E o vento continuou soprando e cantando pela sua vida a fora. Obrigado pelo seu exemplo de vida meu velho amigo!
E VIVA A PÁTRIA!
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Osvaldo Piccinin