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13/04/2016
Conversa com a àrvore

Sentei na varanda de minha casa onde há apenas uma escada fria para aconchegar meu corpo cansado e frágil pela caminhada desta trajetória chamada vida onde meus pensamentos são pesados, dúbios e inconstantes.

As árvores falavam com tom grave de suas aventuras de anos fincadas na terra, por vezes farta outras escassa de alimento para manter suas fortalezas de incomensurável grandiosidade.
As folhas debatiam-se entre os ventos fortes que sopravam impiedosamente provocando aqueles sonidos de profundidade remoçavel e libertadora.
“Quantos anos crescendo em silenciosos movimentos contínuos e quase imperceptíveis aos olhos cristalizados do mundo caótico de visões superficiais”? Divaguei.
Perguntei a elas como conquistavam seu esplendor de cores fortes e madurez renovável e elas agitaram-se ainda mais numa canção quase gritante de uníssonos acordes contando-me que nenhuma de suas folhas cresceram sem seu esforço mais gigantesco de determinação e inquietude em chegar ao topo de seu cume.
Contaram-me que a brisas davam a suavidade para que o leite materno de sua mãe raiz as alimenta-se em momentos sublimes e com paciência infinita e, então, entre estes ciclos de resignação buscavam na atmosfera de seu universo Terra a sapiência para serem muito mais que simples pedaços verdes de sombra. Disseram-me que nestes refúgios de paz deliciam-se com o canto dos pássaros que pousam suas pequenas pernas a descansar em seus galhos todos os dias, brincam com os pequenos insetos que sobem vagarosamente em seus ramos de sustentação, sorriem com os pequenos animais a recorrer alimento entre seus frutos e são gratos pelas visitas das borboletas incandescentes em suas cores entre seus vôos derradeiros a distrair suas tensões no caule da vida aparentemente pragmática que têem.
Sussuraram que os ventos noroestes secam todas suas reservas de água e retiram suas forças angariadas com tanto trabalho do fundo do solo. E que ao chegar a noite, após esta exaustão implacável olham para a mãe Lua e imploram por clemência das estrelas e assim, inundam-se novamente da esperança cósmica que num ato de amor acolhem suas súplicas e as adormecem para um despertar rejuvenescido, já sem dor em suas minúsculas veias antes secas pela labuta em sobreviver ao dia anterior. Assim, de novo esperam a brisa para sacar o pó deixado pela revanche do vento quente e ardente. E, novamente desfrutam de seu trabalho incessante em serem árvores e serem verdes, e serem coloridas, e serem o que vieram para ser!
Neste  momento pássaros voam aflitos pelo presságio do que estava por chegar. As folhas levantam-se preparadas para voar e todas batem palmas incessantemente numa verdadeira aclamação de benvenida, ao que aos olhos de meu corpo sentado e estático no frio de meus devaneios, seria o fim!
O espetáculo estava começando sem preâmbulos. Um vendável chegava na contramão do previsto. Era dia e vendavais não deveriam aparecer à luz do sol ou de seus raios escondidos numa manhã fechada para o sorriso maroto da luz dourada! Mesmo assim, elas seguiram aplaudindo ao que poderia ser seu fim. Busco um sentido para esta idiossincrasia e aperto meus braços contra meu peito refugiando-me do poderoso fenômeno aterrorizador.
As folhas são golpedas incansavelmente e muitas caem nos pés de seu próprio ventre, outras são arremessadas a distâncias inalcansáveis para minha íris. O tronco, tão enrijecido, balança discretamente, galhos se quebram e com eles levam as pequenas folhas nascentes.
Amedrontada pela cena de destruição, penso em abandonar o palco e nutrir meu desespero com a esperança de que novas árvores serão plantadas. Me detenho! Não fugirei.
O vento levanta-se e causa um redemoinho de folhas, galhos, terra levando tudo e todos silenciosos sem perguntar para onde.
Onde dormiriam os pássaros? E os pequenos insetos, onde brincariam? As borboletas não voarão em direção alguma sem o ponto de referência para suas aparições repentinas?
Escurece. O céu cinza e nenhum ponto brilhante a iluminar a escuridão do momento.
Uma tristeza congela meu coração pelo fim da exibição sem um final majestoso, num   conceito enebriado de superficilidade infantil.
Nada tenho a fazer senão dormir e esperar o dia seguinte para recolher as folhas mortas deste fim trágico de minhas sábias companheiras.
Amanheço com a mesma sensação de frustração que povoou meu sono.
Saiu à varanda e a calmaria é a atriz principal do dia. Perplexa, sento e espero  uma voz! Escuto os pássaros pequenos cantando como se nada tivesse passado, os insetos rodeiam inquietos o cenário e borboletas batem suas asas vagarosamente colorindo uma vez mais o ar suave.
Um eco me desperta do estágio catatônico e escuto a voz forte e determinada das folhas de minha amiga árvore.
“Você esta viva”! Quase grito!
“Por que não estaria”? Pergunta-me suavemente.
“O vendaval de ontem acabou com metade de sua construção de anos, suas folhas, seus galhos, as pequeninas folhas a nascer”! Respondo entristecida.

“Ontem foi um dia muito importante em minha vida, querida! Aplaudimos a chegada de nosso amigo vendaval, estávamos felizes e com nossos pulmões cheio de ar para encorajar este explosivo companheiro. Sabíamos que a qualquer momento chegaria e somos gratos por sua visita.
Não temos pernas para caminhar pelo mundo e levar nossa bagagem como forma de expressão do amor a vida, a dádiva de sermos seres habitantes deste lugar que escolhemos para estar. A nossa voz não ecoa sozinha pelos cantos da Terra e, assim, nossa mensagem só é possível porque um grande vendaval vem nos visitar a cada tempo. Desta maneira, espalhamo-nos pelos cantos do espaço que você vive renovando-nos, alastrando nossas pequenas sementes para que muitos outros como nós possam nascer!
Não há morte ou devastação na nossa verdade, e sim uma chance de sermos peças da continuação de nossa espécie. Sem este escândalo não poderíamos florescer novamente, não teríamos nossas forças resgatadas do ventre mãe terra para sermos mais poderosos e respirarmos os ares distintos deste planeta gigantesco.
Sem caírem nossas folhas e galhos não saberíamos o poder que temos em reconstruirmos-nos e tampouco lograríamos que nossa essencia esteja a flor de nossos orifícios a nos comunicar com nosso ser mais profundo, dando-nos a lição de que nada nos pára, porque ainda que estejamos aparentemente estáticos temos uma missão a cumprir nesta morada.
Não poderíamos soltar com tanta fúria consciente nosso oxigênio que além de manter-nos vivos, contribuem para sua sobrevivência.
Não há nenhum mal por excelência em ter que renascer ou continuar a buscar a vida nos momentos mais tempestuosos. Há, sim, uma reativação de nosso poder vital e um chamado à vida latente.
Não há o fortuito! Não há o claustro!
Nenhuma folha cai de seu ramo sem uma razão explicável aos desígnios do Universo. Não sabemos exatamente quando, como ou o por que seremos convidados a recompor-nos, refazer-nos mas a convicção de que a transmutação é parte de nossa evolução constante não nos permite lamuriarmos as mudanças de rumo de nossa suposta situação de árvores imóveis!
Assim, aceitamos os ciclos da vida e ora somos sombra, ora somos apenas troncos desnudados!
A copa verde e brilhante não é a beleza verdadeira que eu-árvore quero mostrar para você-humano. Olhe ao seu redor, tudo gira, muda, circula, circunda! Esta é a alquímia da vida! Solte sua folhas ao vento fraco ou forte, respire, inspire, expire!
Não há fim real se você pode sempre ser o recomeço.
Deixe seus pensamentos -galhos quebrarem, seu tronco tão móvel pular, brincar e sorrir! Aceite os vendavais, as brisas, os furacões e VIVA!”

Daniele de Cássia Rotundo