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06/08/2026
UM MINUTO COM A MULHER DO ESPELHO

Para todas as mulheres que em algum momento precisaram esconder-se ou alienar-se para sobreviver.

Para todas as mulheres que foram enlouquecidas, desacreditadas ou queimadas por uma sociedade enferma.

`A todas mulheres que choram trancafiadas em masmorras de preconceitos.

`A todas nós que não desistimos de renascer quantas vezes forem necessárias para garantir o legado da vida:

“Um minuto com a mulher do espelho”

- Daniele, como você permitiu que alguém a ferisse a este ponto?

Como você pode acreditar que seu valor era tão diminuto ?

-Simples.

O espelho que eu me olhava diariamente, estava dentro do meu guarda roupas, no mesmo lugar que me escondia quando o mundo me parecia hostil.

-O que aconteceu com aquela menina que um dia carregou um pedaço da mesma essência que a sua?

-Ela morreu.

Eu a sufoquei enquanto a via agonizar pelo tiro da madrasta vida.

-Por que você fez isto?

-Não queria que ela pagasse pelo pecado de arrancar seu coração a sangue frio.

Assim ela descansou no paraíso e não ficou perdida no inferno que a esperava, caso ela fracassasse mais uma vez, não resistindo ao sofrimento.

-Mas você seguiu seu caminho sem remorso?

-Segui destroçada, dilacerada, em carne viva. Mas segui.

Não foi difícil ja que o que vi ela enfrentar me deu forças para enterrá-la com pás de cal.

Ela era frágil mas não temia a morte.

Era delicada mas não sucumbia ao trabalho pesado.

Era alagada pela vergonha mas mantinha a cabeça erguida enquanto seu rosto corava delatando sua falsa falta de solidez.

-Mas eu a escutei conversando com ela há pouco.

Ou você enlouqueceu?

-Eu a ressuscitei porque a escutei chorando.

Eu devia isso a ela.

-Ela lembra do que aconteceu?

-Quase nada. Mas disse que outro dia acordou de um pesadelo chamando por seu amor.

-Então algo ela ainda sabe.

-Talvez sua alma já não sinta aquela dor mas entende que ele se foi.

-Que tragédia !

-Não foi tragédia!

Eu o matei também!

-De onde você tirou essa frieza implacável?

-Do mesmo lugar que me fez permitir que alguém me ferisse “naquele ponto”. Do mesmo lugar que me fez acreditar que meu valor era diminuto.

Daniele de Cassia Rotundo