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10/08/2026
O dia depois do dia dos pais.

O dia depois do dia dos pais.

Peço desculpas por não ter escrito a tempo de desejar um “Feliz dia dos Pais!” aos papais de plantão.

Mas estava ocupadíssima com “Le Perse”, meu pai.

Fazia tempo que não tínhamos tempo para nós.

Nosso contato andou reduzido a bom dia, boa noite por uma foto nossa pregada na porta da geladeira.

Então, decidi estar somente eu e ele nestes dias.

Vimos fotos e rimos até chorar dos modelos de cabelo e roupas que usávamos. Ele lembrou das vezes que fomos na costureira que fazia suas camisas adornadas a critério de seu “gosto”, um tanto diferente.

“Dani, mandei fazer um terno em jeans!”

“Hum, interessante!”

Confessei, por fim, que a camisa amarela ovo não era nada “elegante” e ele respondeu que sempre preferiu autenticidade.

Ele chorou ao acompanhar o crescimento das crianças pelas fotos que mostrei e disse que este era um tema delicado para ele.

“Eu amo ser avô, e embora não tenha tido tempo para conhecer todos meus netos, sempre que me permitem, eu olho e zelo por eles!”

Como não podia trazer fotografias, ele contou detalhadamente sobre alguns lugares de onde vive.

Fiz algumas confidências como a que eu e minha irmã fuçávamos no seu guarda roupas procurando por “segredos”, que não entendiamos por que ele comprava carros antigos que frequentemente paravam, e que rezávamos fervorosamente cada vez que entrávamos no carro com ele.

Como no meu aniversário deste ano ele me deu uma linda flor, convidei-o para plantarmos no quintal de casa.

“Le Perse” escutou atentamente a história das minhas “bebês verdes”, de quando e como chegaram até mim e ainda teve paciência com minha vasta imaginação sobre a vida das árvores.

Também me deu várias dicas de jardinagem.

“Não sabia que tinha esta habilidade”.

“Eu não tinha mesmo, Dani. Aprendi recentemente”, respondeu.

Até tentamos cozinhar mas a preferência dele por massas e a minha por doces resultou num desastre culinário.

Escutamos samba e gargalhamos com as lembranças dos carnavais que ele tanto amava. Um folião nato!

Conversamos sobre as brigas que tínhamos por pontos de vista diferentes e pedi desculpas por ser tão atrevida nas minhas colocações.

“Dani, você passava dos limites mas eu me via em você. Tenho orgulho de saber que você pode defender-se!”

Por fim tive coragem de perguntar.

“Pai, outro dia, enquanto passeava pelas rua dos sonhos, eu o vi sentado sozinho num restaurante comendo hamburguer. Isto me apertou o coração. Você é feliz?”

“Como você frequentemente fala, felicidade é uma palavra efêmera para relatar um sentimento sublime como este. Mas eu sou pleno em todas as tarefas que são confiadas a mim. Entendi muitas coisas depois que parti, como perdoar-me, amar-me e, principalmente, que a vida e nós somos imortais.

Mas agora preciso ir e você acordar”

Ele me deu um beijo na testa, segurou minhas mãos, pediu que eu seguisse firme em meu ideais e tomasse vários cafés por ele.

Despertei.

 

“Le Perse” se foi há 20 anos.

Eu e meus irmãos tivemos que engolir “a fórceps” está partida prematura.

Embora ele nos tivesse avisado uma grande quantidade de vezes, fosse por seus atos ou pelas constantes lágrimas em seus olhos verdes, a verdade é que em nenhuma hipótese poderíamos supor que isto realmente aconteceria repentinamente.

Afinal ele sempre esteve por perto, ainda que algumas vezes morássemos em cidades ou até países diferentes.

Como predizer que não nos veríamos por tanto tempo ?

Como aceitar o último encontro ? O último abraço? A última vez tocando sua careca?

Como não se afligir diante o ato arrebatador da despedida?

E talvez seja por isto que ele tenha saído “à francesa”.

Numa tarde bateram na porta de casa sem tocar o interfone, e entre fraldas, mamadeiras e brinquedos, eu a abri de mau-humor, imaginando que fosse algum vizinho inconveniente. Mas era “Le Perse” e meu irmão (cópia dele naquela época). Demorei poucos segundos para entender a cena. Ele passou em casa para dar um beijo em mim e no Hector, ainda bebê.

Infelizmente aquele encontro era nosso “até logo”.

Alguns dias depois ele deixou uma mensagem de voz (o que não era seu costume) no telefone.

“Oi Dani, liguei para saber como vocês estão e dizer que te amo.”

Antes que eu pudesse ligar de volta, minha irmã me telefonou com a triste notícia que me impediria de escutar novamente a voz de meu pai.

“Papai teve um AVC hemorrágico”.

Em poucas horas, ele parou de falar e seu corpo progressivamente começou a falhar.

Após 10 dias ele faleceu aos 55 anos.

Ah “Le Perse”! Você é sempre um artista na arte de surpreender!

Não houve como não nos desesperamos com a realidade que estava ali : a morte de nosso herói.

Foi dificílimo acostumar-nos sem o pastel de doce de leite que ele fazia , sem suas aparições surpresas, os cafés pelas padarias de São Paulo, o papai noel das crianças, as lindas frases nos cartões de aniversário, sem seus conselhos, as broncas por tocar na sua coleção de carrinhos, o seu “bufar” quando encontrava uma toalha molhada encima da cama!

E a nossa única opção era: arregaçarmos as mangas e tomarmos as rédeas da amarga situação, sem exitar, como ele nos ensinou.

Gratidão “ad eternum” “Le Perse”.

Mas a madrasta vida não desampara por completo.

Vez ou outra encontramos “pais de aluguel” por aí, aqueles que embora não sejam pais de fato, são em momentos que precisamos “dele” e ele não está. Pais por eleição, por carinho, necessidade ou por um amor diferente.


 

Como minha história, muitas outras são lembradas nesta data. Todas especiais e únicas, parte do livro da vida de cada um.

E é totalmente legítimo chorarmos a ausência, contarmos as mesmas anedotas sobre eles, questionarmos “por que” se foram, e querermos um minuto mais para dizermos o que não foi dito.

Sem embargo a maior prova de amor sempre será nossa fidelidade ao que nos ensinaram sobre a vida, o bem e o mal, o certo e o errado.

 

“Le Perse" é um apelido carinhoso que usamos para falar de meu pai, desde que ele faleceu.

 

“In memoriam” a meu pai Pérsio, meu sogro Alberico (o pai silencioso mas sempre presente em tantos atos de carinho), meu amigo Carlos Eduardo (que nunca me permitiu esquecer minhas raízes ancestrais), a meu primo Rodrigo Mathias que era a lembrança viva das histórias de meu pai, e seu filho de coração.

 

Em homenagem a meu padrasto “vovô Smurf” Hélio, meu padrinho Américo Mathias (que seguiu acreditando que “eu posso conquistar o mundo”), meu irmão Matheus Marcos que cuida de todos nós, como nosso Patriarca e a meu chefe que há 10 anos cuida de meus sonhos e os transforma em realidade cada vez que publico um texto.

E claro, ao pai de meus filhos, Denis.


 

Daniele de Cassia Rotundo