19/06/2012
O campinho da Vila Leão .

As crianças da Vila Leão se divertiam além da conta. Eu pelo menos, brinquei demais.Brincava em casa,no quintal, no portão, na escola,na Rua da Bomba e no campinho. Ah! Quanto brinquei no campinho que só no nome era pequeno.O espaço era enorme .O quintal da minha madrinha ( dona Cida Sant’Anna) fazia fundos com ele.Havia  até um portão de acesso  que facilitava bem o encontro com a criançada. Ali as meninas brincavam  de amarelinha.Riscando o chão com um galho de árvore, esboçávamos os espaços a serem pulados na divertida brincadeira. Campeonatos eram realizados e antes de mais nada saíamos à procura de boas pedras para serem jogadas nos quadrados.Em seguida, feito sacis, numa perna, pulávamos  até chegarmos  “no céu” , o espaço redondo e grande onde fazíamos uma breve pausa .Voltar do céu e recomeçar o pula-pula era  mais difícil, pois nesta volta tínhamos que  recolher a pedra, sem pisar no risco, sem cair e sempre apoiando-se numa única perna.Mas todas sempre conseguiam vencer esta etapa.Complicadas eram as etapas seguintes: pular com a pedrinha na mão, pedrinha na cabeça,pedrinha no pé, de olhos fechados, pedrinha  jogada de costas e assim por diante, numa sucessão de dificuldades que só a prática e muita sorte elegiam uma campeã.O  segredo estava em  escolher uma boa pedra, que não rolasse,que não tombasse e que fosse discretamente anatômica para as diferentes modalidades do jogo.Cheguei a ter umas seis pedras num único campeonato.Cada uma foi útil numa situação e felizmente,  pedras  na Vila Leão, não faltavam.Não me lembro mais das vencedoras,lembro  apenas da brincadeira que, sempre acontecia à tarde e depois da escola.Lembro do campinho cheio de crianças.Lembro dos meninos jogando bolinha de gude, malha, rodando pião ou girando arco.Brincávamos tanto no campinho que, a poeira dele marcava em nossos pés e roupas, a intensidade da diversão .E a volta pra casa trazia sempre   a certeza de que um grande banho de bucha nos esperava.O campinho foi  assim,  muito importante a nós.Foi   mais um daqueles lugares mágicos e encantados da Vila Leão.Acolheu a criançada,guardou  fantasias e risos de felizes e descontraídos momentos. Mas foi também  mais que isso. Foi local de festas e encontros dos moradores.Ali  registrou-se quermesses, fogueiras, pau de sebo e tantas outras atrações que também divertiram  a comunidade . Fecho meu olhos e consigo ver  as bandeirinhas enfeitando o local.Vejo as barracas de madeira cobertas com  lonas. Vejo a barraca da roleta com seus prêmios cobiçados.Vejo a barraca  do coelhinho,na qual inúmeras  vezes arrisquei minha  sorte.Vejo a banca dos  quitutes deliciosos feito pelas mulheres da vila  e sinto até o gosto do canudinho recheado com doce de abóbora, meu preferido na época.Vejo a penumbra do campinho  naquelas noites frias e festivas, com suas lâmpadas fracas  que tornavam o evento   ainda mais  acolhedor. Consigo ouvir os rojões,as bombinhas explodindo sob latas de condimentos, alegrando docemente e malvadamente os olhos dos meninos mais peraltas da Vila.Vejo gente rindo, brincando,conversando,se cumprimentando e se relacionando familiarmente  num encontro social simples, sem  as suntuosidades de hoje , mas carregadas acima de tudo, do  calor humano de seus habitantes.Relembro gente  que era feliz com tão pouco e me dá  até uma certa tristeza saber que,  hoje   com tantos  espaços sofisticados e modernos , nem assim ,em nenhum deles, se realizarão  festas e acontecimentos como aqueles inesquecíveis,  do campinho da Vila Leão.Quantas saudades!!!


Fátima Chiati

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