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24/10/2011
Produtividade estagnada! É a índole do Brasileiro?

Fernando Dantas - O Estado de São Paulo

RIO - O trabalho no Brasil não se tornou mais produtivo ao longo dos últimos 30
anos. A produtividade do trabalho, fator fundamental do crescimento econômico
sustentado, caiu entre 1980 e 2008. De lá para cá, o indicador recuou na crise
global, depois se recuperou rapidamente, mas parou de crescer a partir do
segundo semestre de 2010.

"O Brasil é um país no qual, não importa como se meça a produtividade, nada
parece acontecer", diz José Alexandre Scheinkman, economista brasileiro da
Universidade Princeton.

Em 1980, um trabalhador brasileiro produzia em média o equivalente a US$ 21 mil
por ano. Em 2008, esse número havia caído para US$ 17,8 mil. Houve, portanto,
queda de 15% no período. Esses dados fazem parte da Penn World Table, banco de
dados do Centro para Comparações Internacionais de Produção, Renda e Preços da
Universidade da Pensilvânia, com indicadores econômicos de 189 países e territórios.

Os números vão até 2008 para a maioria dos países, inclusive para o Brasil. Os
valores da Penn World Table sobre a produtividade do trabalho são todos
convertidos para dólares de 2005, com paridade de poder de compra (PPP). Isso
significa que a diferença de custo de vida entre os diferentes países é eliminada.

Entre os 150 países da Penn World Table com dados completos de produtividade do
trabalho entre 1980 e 2008, o Brasil está em 130.º em termos de desempenho neste
período.

O Brasil só ganha de 21 países, sendo 11 da África, incluindo Costa do Marfim,
Malawi, Somália, Camarões, Togo e Zimbábue. Todos os outros países africanos
tiveram desempenho melhor do que o Brasil.

Na América Latina, a evolução da produtividade do trabalho brasileira nas
últimas três décadas só não é pior do que a apresentada por Paraguai, Venezuela,
Nicarágua e Haiti.

Comparado a outras grandes economias emergentes, ou a países sul-americanos como
Argentina e Chile, o Brasil tem o pior desempenho na produtividade do trabalho
entre 1980 e 2008.

A Argentina saiu de US$ 21,2 mil para US$ 24,8 mil (alta de 17%). O Chile, de
US$ 15,1 mil para US$ 27,5 mil (82%). A China, de US$ 1,2 mil para US$ 10,9 mil
(778%). A Índia, de US$ 2,8 mil para US$ 7,8 mil (181%). E a Coreia, finalmente,
de US$ 14 mil para US$ 50 mil (256%).

Scheinkman nota ainda que, como proporção da produtividade do trabalho dos
Estados Unidos, o desempenho brasileiro nas últimas décadas também é muito ruim.
"Os Estados Unidos são a fronteira, e o Brasil não está se aproximando", ele diz.

Na verdade, o Brasil convergiu na direção dos Estados Unidos entre 1950 e 1980,
e depois recuou de novo até 1988. Assim, a produtividade do trabalho no Brasil
era 18% da americana em 1950, avançou até 40% em 1980 e voltou para 21% em 2008.

Em comparação, a Coreia saiu de 14% da produtividade do trabalho americana em
1953 (primeiro ano com dados na Penn World Table) para 27% em 1980 e 60% em
2008. É interessante notar que, entre 1950 e 1980, o Brasil avançou mais rápido
do que a Coreia.

Tanto os dados do Brasil quanto da Coreia do Sul são da Penn World Table, em
PPP, e diferem dos valores do gráfico ao lado, do Conference Board, embora a
tendência seja a mesma.

Para Scheinkman, a má performance brasileira deve-se a deficiências de educação
e infraestrutura, à integração ainda baixa com a economia global, à baixa
absorção de tecnologia, à falta de inovação em muitos setores e às dificuldades
burocráticas para formalizar ou aumentar o tamanho das empresas.

Ele nota que programas como o Simples, que aliviam a tributação para as pequenas
empresas, ajudam na formalização mas se tornam um desincentivo ao crescimento.
"As empresas não ganham a escala necessária para se tornarem mais produtivas,
trocando-se um problema pelo outro."

Scheinkman ressalva, porém, que a agricultura é um setor em que a produtividade
teve grandes avanços no Brasil. "As pessoas reclamam da agricultura, mas não
percebem que ela vai muito melhor que os outros setores em termos de
produtividade", ele diz.

O economista Samuel Pessôa, da consultoria Tendências, acha que uma série de
fatores interrompeu o bom desempenho da produtividade do trabalho no Brasil a
partir do início da década de 80.

Um dos mais básicos foi a evolução da tecnologia a partir de meados dos anos 70,
que começou a exigir trabalhadores com melhor qualidade educacional.

"Aquele milagre brasileiro no pós-guerra, em um país de baixíssima escolaridade,
sem nenhum investimento em educação, se dissipou, porque a tecnologia mudou na
direção de requerer capital humano, que era exatamente o que não tínhamos e
ainda não temos", diz Pessôa.

Fonte: O Estado de São Paulo


Mariana Aleixo Boani - Economista

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