23/10/2006
Só Contra a Ignorância – Parte 1

Na madrugada de sete de junho de dois mil e três, durante o antigo programa de rádio “Reflexões e Devaneios”, levamos “ao ar” este assunto a seguir:

Pelos meados do século dezessete, um inflamado jovem de nome Uriel Acosta escreveu um tratado atacando vigorosamente a crença na imortalidade. Essa atitude negativa não era necessariamente contrária à doutrina judaica mais antiga, mas a sinagoga obrigou-o a retratar-se publicamente, receando incorrer no desagrado de uma comunidade que, generosamente recebeu o perseguido povo judeu. Tal comunidade era a Holanda, país protestante que poderia tornar-se hostil a tal e qualquer heresia ofendendo tão profundamente o que era considerado a própria essência do cristianismo. A norma de retratação e penitência exigia que o autor da considerada heresia se deitasse, atravessado, no umbral da sinagoga enquanto os membros da congregação passavam por cima do seu corpo. Humilhado além do que podia suportar, Uriel Acosta foi para casa, escreveu uma feroz acusação contra seus algozes e matou-se com um tiro. Isso aconteceu no ano mil seiscentos e quarenta e sete. Naquele ano Baruch Espinosa, “o maior judeu e o maior filósofo moderno”, era um rapaz de quinze anos, o estudante favorito da sinagoga.

Apesar do pai de Espinosa ser um comerciante bem sucedido, o jovem não possuía inclinação para o mesmo trabalho e preferia passar o tempo na sinagoga absorvendo a religião e a história do seu povo. Muito brilhante, os mais velhos achavam que ele seria a futura luz de sua raça e sua fé. Como sabemos, ele não foi nada disso. Quanto mais ele lia e meditava, mais suas singelas certezas se dissolviam em suspeitas e dúvidas. Espinosa dedicou-se ao estudo do Latim com o professor holandês Van Den Ende. O professor, ele próprio era um tanto herético, um crítico de credos e governos, que, deixou seus livros para tomar parte numa conspiração contra o rei da França e “enfeitou” um cadafalso em mil seiscentos e setenta e quatro, tendo assim, morrido na forca. Ele tinha uma bonita filha que dividia com o estudo do Latim as afeições de Espinosa. Porém, ela desinteressou-se dele quando surgiu outro pretendente carregado de presentes valiosos. Talvez tenha sido nessa ocasião que o nosso herói tenha se tornado filósofo.

Parece que Espinosa estudou Sócrates, Platão e Aristóteles, mas, preferia os grandes atomistas, Demócrito, Epicuro, Lucrécio e os estóicos deixaram nele marca indelével. Estudou Giordano Bruno, o nascido em mil quinhentos e quarenta e oito e falecido em mil e seiscentos, aquele magnífico rebelde “cuja chama nem todas as neves do Cáucaso poderia apagar” e que foi afinal condenado pela Inquisição a ser morto na fogueira. Giordano foi aquele que, contradizendo sua igreja, difundiu a teoria heliocêntrica, tendo o sol como o centro de nosso Universo ao contrário da teoria geocêntrica que tinha como centro a Terra, conforme acreditava e ensinava a Igreja Católica. Com tantos antecedentes mentais, Espinosa também contrariou os princípios da sinagoga dos rabinos. Em mil seiscentos e cinqüenta e seis, com a idade de vinte e quatro anos de idade, acusado de heresia, ele foi intimado a comparecer diante dos “maiores” da sua sinagoga.

Altino Olímpio

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