02/04/2018
A bolsa misteriosa de Anabella

Anabella sempre amou bolsas!

Uma observadora minuciosa destas peças, sem pretensão alguma de coleciona-las.

Para Anabella bolsas não são artigos de compilação. Devem ser conquistadas.

Coloridas, em tons escuros ou claros, grandes, médias ou pequenas, brilhantes ou opacas, com ou sem fechos, alças longas ou curtas, todas diferentes e singulares e nada escapa ao olhar espectador de Anabella.

Imagina seus compartimentos, que mãos as coseram as telas que revestem as estruturas que as sustentam.

Ah! Os detalhes das bolsas! Tao distintos, tão ímpares, fascina-a, apaixonando-se perdidamente.

Mas bolsas não são sacolas, ainda que, estas façam parte das sem bolsas, pré bolsas, talvez nunca passem de sacolas mas enlouqueciam a mente criativa de Anabella.

Ela sabia que as bolsas têm vida própria, e, assim como quase tudo que vive (aqui em amplo sensu), conversam, choram, machucam–se, cantam, dançam, encantam, maravilham e envenenavam ardilosamente.

Sempre considerou constantemente, que algumas ela perderia rapidamente, outras cairiam em algum lugar sem chance de salva-las, desapareceriam misteriosamente, suas alças arrebentariam, e, quiçá não pudessem mais ser parte de sua vida por motivos próprios ou alheio a seus anseios.

Para a agrura de Anabella, sua vida gitana, digo cigana (já eram tantos lugares que os idiomas se confundem) a impedia ter tantas bolsas quanto gostaria.

Estas grandes joias não seriam abarrotadas em malas e, vez ou outra, necessitava dizer adeus a uma, varias ou quase todas.

Nunca esqueceu nenhuma, ainda que despedir-se de tantas bolsas que passaram por suas mãos fosse um ato recorrente, não obstante invariavelmente aterrorizante!

Anabella ganhou poucas bolsas na vida.

No entanto, estas regaladas, eram as mais duradouras, as mais vigoradas, as que resistiam as sacolejadas dos aviões, que transladavam partes de Anabella pelo mundo afora.

E ela estava certa, elas eram as fortes, não sucumbiam aos tracolejo, nem desapareciam como amor de verão.

Anabella anelava abraçar suas bolsas, admirar suas belezas, respirar o cheiro peculiar.

Não existem bolsas com defeitos para ela.

Os “erros de fabricação” são a singularidade, o charme que as transformam em tão excepcionais.

Anabella raramente comprava bolsas, e quando acontecia, eram as mais simples.

Aquelas que poderiam ser dobradas, e, ainda que perdessem sua alma, por velhice ou por um até logo não premeditado, continuaria como companheiras, por um sopro de tempo, e trariam a sua mente à memoria daquelas que ficaram pelo caminho.

De tempo em tempo, reapareciam com recordações inolvidáveis, e assim, descomplicavam a saudade, contando velhas histórias, abrindo seus compartimentos secretos, escancarando seus desejos que sabiam somente Anabella seria capaz de compreender, já que ela se destacava por sua capacidade indiscutível em audiente nada!

Anabella ouvia atentamente suas bolsas.

O que ouvia, em sua mente perdia-se, assim, conquistou muita admiração por sua gentileza em entender afirmações, indagações ou desabafos.

As bolsas que gostavam de falar dificilmente aquietavam-se por escutar, mas bolsas são bolsas, em todos as ocasiões e jamais Anabella deixou uma bolsa sentir-se solitária por sua vida atribulada.

Ao revés, despia-se de suas aflições, acabrunhamento, angustias, mágoas para dar alento sem julgar.

Estes momentos eram raros, ligeiros, um pestanejar, pois, pela distancia, logo regressavam a outros armários, como não poderia deixar de ser, restando apenas o perfume do passado no ar e as imagens dos tempos que Anabella esteve com elas.

Ela aprendeu que suas bolsas seguiriam rumos cada vez mais paralelos a sua jornada e sentiu que era tempo, mais que adequado, em aceitar a companhia de sua bolsa sombra.

Em verdade, Anabella relutou demasiado em aceitar conviver com ela! Talvez porque o chão por onde andariam, reluziriam a veracidade de sua alma.

Por que?

Porque ela expressava com exatidão a realidade, a indivisibilidade notória com Anabella como numa simbiose inegável.

Por fim e para seu próprio bem, acercou-se da bolsa sombra.

Sua bolsa-sombra. Cada individuo possui uma, queiram ou não!

Sua bolsa-sombra era colorida e expressão exata da essência do corpo de Anabella.

Combinava com tudo, de maneira simples.

Sem compartimentos extras carregava apenas o essencial, evitando peso desnecessário em seus ombros.

E, de fato, a bolsa-sombra tinha nesta cândida companhia a paz da solidão de seus pensamentos e o conforto de sua alma.

O adeus.

Um dia: um adeus mais longo e doloroso revolucionou as sensações de Anabella a um ponto inimaginável por ela.

Anabella mudou-se para longínquo espaço, e deparou-se com uma triste constatação: em sua bagagem pouquíssimas resistiriam a viagem, a distancia, aos trancos e barrancos da vida de Anabella.

Este adeus não tinha escolha.

Inevitável, cruel, despencou mente e coração de Anabella.

Adeus. Sem olhar para trás, ela partiu sem as bolsas com as quais conviveu desde um ventre.

Sozinha neste novo mundo, Anabella conversava com as mais íntimas: uma dupla.

Este lugar seria o mais difícil para Anabella ter uma nova bolsa. Assim, pensava ela, já um tanto conformada que bolsas novas resultariam em prováveis perdas.

Anabella sabia que as escassas bolsas que ainda podia carregar, não deveriam ser usadas constantemente, pois como artefatos raros e valiosos seria imprudência arriscar perde-los.

Caminhando sem destino certo, numa meia tarde de sol quente, metade de seu corpo nu ante o ardor da temperatura, visualizou uma simpática e discreta lojinha particularmente diferenciada das convencionais.

Despretensiosamente entrou e logo viu que se tratava de um brechó.

Curiosa permaneceu ali por alguns minutos.

Seu corpo moveu-se instintivamente em direção a uma mediana bolsa.

Aparentemente jovem seria classificada como recatada, não fosse sua adventícia a mão, em tons de azul, verde, amarelo e vermelho traçada como uma listra atravessando todo o cinza de seu corpo virtuosamente delineado. Carregava em uma das alças um pingente acobreado.

Uma voz grave acercou-se: “Fique com ela, é um presente”!

Ela arregalou os olhos sem crer muito na afirmação.

“Sim, fique com ela, creio que seu olhar foi o mais apaixonado que já vi ao mira-la”.

Agradecida e surpresa, Anabella saiu do brechó com sua nova bolsa, embora um sentimento de mistério atormentasse seus pensamentos.

Que teria dentro desta bolsa?

Quem a teria usado?

Como haveria chegado até lá?

E por que ela ganhou a bolsa misteriosa?

Chegando em casa, apressurou-se em abrir o fecho artesanal delicadamente desenhado com material semelhante a ferro.

Surpresa radiante aos olhos de Anabella, a bolsa possuía vários compartimentos confeccionados com o tamanho ideal para os mais diferentes objetos, e seus respectivos nomes bordados a mão.

“Lenço”, “Lenço de pano”.

“Meio de comunicação”. “Interessante. Seria celular? Enfim, encontro algo que caiba aqui e tenha esta função”, pensou Anabella.

“Libro predileto”! “Nossa, quem desenhou esta bolsa estava inspirado nos enigmas. Mas neste caso, penso que deveria escrever um. Meu. Minha história. Sem dúvidas seria minha favorita”.

“Lápis ou caneta”? “Hum! Bom, agora tenho um problema! Uso lápis para o que eventualmente queira apagar mas a caneta para o que tenho absoluta certeza! Dou um jeito”, sussurrou consigo mesma.

“Borracha”. “Borracha? Talvez porque tenha a opção de lápis”.

“Anotações”. “Isto com certeza é para alguns papéis”.

Um compartimento de coração e nada escrito. Anabella deteve-se por vários segundos. “Que guardarei ali”?

Um zíper no fundo da bolsa “Um compartimento secreto? Ual”!

“É uma bolsa bem atípica, exótica e dicotomicamente discreta e exuberante, sua superfície aparentemente mediana ganhava título de grande, pela variedade de minucias”.

Anabella afeiçoou-se por ela, decidiu que estaria entre suas prediletas.

Entretanto, deveria ter cuidado, seu interior parecia firme mas ela não estava muito certa que ali caberiam todos os pertences que costumava carregar.

Uma relação interessante inaugurou-se.

Anabella jamais deixaria suas demais bolsas a intempérie mas aquela tornou-se especial.

Em dias que precisava chorar, coincidentemente a bolsa caia de sua prateleira e abria-se imediatamente.

“Ah, aqui esta o lenço”!

Enxugava suas lágrimas enquanto segurava a bolsa fortemente. Acalmada por alguma desventura, agradecia e colocava-a em sua enchança.

Ela não levava a bolsa a quase nenhum lugar. Temia perde-la.

Na calada da noite, muitas vezes Anabella carregou gentilmente a bolsa misteriosa e olhando a lua escreveu poemas.

Poemas de amor, poemas de segredos, poemas de lua e sol, de mar e flores, poemas de amantes, poemas que seriam ou não, lidos mas poemas dela e de sua bolsa, refletindo aquela conexão tão sublime que preenchia o peito, por vezes em carne-viva, por outras sedento de amor e carinho.

E então, no compartimento secreto recolhia aquelas riquezas caladas. E era justamente e somente isto que Anabella precisava para sobreviver naquele momento. O refugio do ultra mundo.

E assim, o tempo passou.

Guardada, lembrada, olhada e até esquecida: ali estava ela, carregando suas lágrimas, admirando o belo, guardando seus segredos, lendo seus poemas.

Um mundinho encantador.

Anabella e a bolsa misteriosa.

O que queria Anabella com a bolsa misteriosa?

Tudo e nada.

A bolsa misteriosa era sua aliada na empreitada de um mundo novo a ser desvendado por Anabella.

Um mundo que teria que aceitar e aprender a conviver.

E sim, A bolsa misteriosa de Anabella foi seu oxigênio, seu sol nos dias nublados, a luz na noite escura, o acalento, os sorrisos despretensiosos, as fugas e as descobertas, seu bálsamo, as flores em dias nebulosos, a água em dias quentes, o abraço na necessidade de ternura latente, a voz silente nos gritos histéricos que os ventos sopravam, carregava seu choro trancafiado das angústias do dia a dia.

No compartimento do coração deixava seu amor extravasar em forma de bondade, compreensão, carinho.

Abria-se sem medo: seu ser, sua entranha, suas vontades, entregava seus pensamentos, sua garganta escancarada, seu corpo lotado de marcas da vida.

Com seu lápis, escrevia as histórias que não poderia contar ou ler a nenhuma outra e depois de compartilhada, apagava deixando apenas as migalhas da borracha e a lembrança retirada.

Onde ela esta?

Noite fria, Anabella sentiu sua espinha gelar.

O céu escureceu na sua obscuridade profunda e impiedosa.

Ventos sopravam ganhando força incomensurável.

As árvores debatiam suas folhas castigadas.

Pássaros fugiam de suas tocas.

Nuvens aterrissaram em seu céu.

A lua gritou e sua voz desapareceu sufocada por algo poderoso.

Ela chegou. A tempestade.

Anabella correu. Tinha em seus braços a bolsa.

Não queria perde-la. Não podia perde-la.

Quanto mais Anabella fugia, mais seus magros braços encolhiam-se e segura-la tornou-se um ato heróico fadado ao fracasso.

“Não, não, não”! Anabella berrava e clamava por clemência aos deuses da tempestade, aos quatro cantos da Terra.

“Esta não”!

Anabella escorregou no chão molhado pela chuva impiedosa e a bolsa voou.

Entorpecida pela queda e anestesiada pelo desfecho suntuoso, vociferou uma vez mais para que não levassem sua bolsa.

Foi então que viu asas enormes em suas alças.

Ela voava e partia.

Voejava porque assim queria, despedaçando seu coração.

Anabella soluçava inconsolável e repousou seu rosto na poça de agua querendo afogar sua consternação. Foi quando seu rosto foi tocado suavemente por papéis molhados.

Era ela, a bolsa misteriosa.

Ganhou altitude e desintegrou-se em mil pedaços.

“Não! Você não”!

Jaz bolsa misteriosa?

Jaz Anabella?

A bolsa misteriosa nunca existiu? Segredos?

Quantas bolsas você tem guardadas?

Quantas delas realmente são bolsas?

Por qual delas você daria sua vida?

Por qual você contaria seus segredos?

Você realmente ama uma ao menos?

Corra, compartilhe sua importância, conte o que sente sem meias palavras, entregue a cada uma o que mais gostaria que elas entregassem a você.

Bolsas são presentes, bálsamos!

Bolsas são a o amor inocente.

Bolsas são?

Conte-me quem são as bolsas.

Anabella, todavia chora pela bolsa perdida de sua mente em algum lugar talvez inexistente.

Daniele de Cássia Rotundo

 

 

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