15/02/2019
O universo mental de cada um 

Meu telefone celular quase sempre fica desligado. Por isso, poucas mensagens ou vídeos eu recebo dos amigos. Também, não sou muito dado a enviar vídeos e mensagens, porque, aposentado como sou e como sempre estou muito ocupado em não fazer nada, prefiro evitar receber “mensagens desnecessárias”. Mas, não sou tão antissocial como possam imaginar, pois, outro dia enviei para uma das minhas netas de dezoito anos de idade um vídeo contendo a música “Saudosa Maloca” cantada pelo grupo musical paulista “Demônio da Garoa”. Em resposta ela perguntou-me se tal música era do passado e era de minha época. Com tal pergunta deduzi que ela não conhecia aquele grupo musical e muito menos a música cantada por eles. Isso me fez lembrar outros fatos muito conhecidos, que eram desconhecidos por alguns (ou muitos) mal informados.

 

Certa vez, à noite, ao passar defronte ao hospital da Cidade de Caieiras vi um médico fumando (escondido?) na rua. Como eu também fumava brincando lhe falei: Cigarrinho gostoso, hein? E acrescentei: Cuidado, o Nat King Cole fumava muito e parece que morreu por causa disso. Estranhei o fato dele não saber quem foi o muito famoso cantor Nat King Cole. E o rapaz não era tão jovem para ainda não saber ou se lembrar daquele cantor.

 

Doutra vez, numa reunião com locutores de uma rádio comunitária ao me referir sobre as músicas do saudoso cantor Nelson Gonçalves, um deles me disse que não sabia quem era o Nelson Gonçalves. Estranhei que ele nunca tivesse ouvido falar do cantor aqui citado. Não lembro se ele já era ou ainda pretendia ser locutor de rádio. Talvez ele só fosse fã de músicas sertanejas e por isso desconhecia cantores de músicas de seresta, de músicas românticas como boleros, tangos e etc.

 

Numa noite, eu vindo com o “último trem” da Cidade de Jundiaí, fui obrigado a desembarcar na Estação de Caieiras, só ate onde o trem pode chegar, porque ouve um problema na rede elétrica, impedindo-o de prosseguir para as outras estações do seu itinerário. Ao passar um taxi pelo local, atendendo ao meu aceno, o motorista parou seu veículo e depois me conduziu até o próximo Bairro de Perus da Capital de São Paulo donde moro. Já era madrugada e na conversa com aquele motorista que tinha trinta e quatro anos de idade, muito me surpreendeu ele nunca ter sabido ou ouvido falar que ouve uma segunda guerra mundial e que em campos de concentração dos alemães milhões de pessoas foram mortas e até incineradas, principalmente os judeus.

 

De início não consegui acreditar que ele, não porque é evangélico, nunca soube de tais atrocidades humanas. Perguntei se ele estava brincando de não saber ou se de fato nunca soube mesmo dos horrores daquela guerra. E ele confirmou que nunca soube. Será que ele era um alienígena e eu não percebi? Nestes quatro casos que relatei sobre pessoas que “desconhecem conhecidos” (risos), isso me faz refletir sobre o que se diz e se escreve sobre aqueles que apreciam um regime de governo diferente do regime democrático e que querem desmemoriar o povo de sua história, de sua cultura, de sua moral, de suas tradições e etc. Mas, isto já é outro assunto.

 

“Tudo o que o homem ignora, não existe para ele. Por isso o universo de cada um se resume no tamanho de seu saber”. Albert Einstein

 

Quando alguém demonstrava que nada sabia sobre alguns fatos que deveria saber, como diziam, era porque tinha o seu “universo restrito”.  Isto era um “rótulo” para quem vivia mal informado. Mas, nesta era da comunicação imediata, nestes tempos de tantos atropelos nesse nosso viver agitado, será que atualmente ser “bem informado” vale à pena? Hoje, o exagero de divulgação de informações ou notícias parece um massacre mental contra o povo que, parece ficar “desnorteado”. Também pudera, a maioria das informações, no mais das vezes nada tem a ver com a vida de cada um de nós, porque, nos são desnecessárias. Só servem para a distração da curiosidade daqueles habituados com a receptividade de “qualquer coisa”.

 

A vida muito tem a ver com os momentos que vivemos dela. A minha neta por ser tão jovem não teve momentos com aquela música do passado. Aquele rapaz que estava fumando na rua não teve seus momentos de ouvir o cantor Nat King Cole, igual ao rapaz da rádio comunitária que disse não saber quem foi o cantor Nelson Gonçalves. Por fim, o rapaz do taxi que não soube da segunda guerra mundial (incrível), não teve momentos de sua vida em que pudesse se aborrecer ou refletir sobre ela. É óbvio que quando pensamos ou lembramo-nos das coisas do mundo nós lhes damos existência, e ao contrário, quando em nada pensamos ou em nada lembramos nada nos existe.

 

Altino Olimpio

 

Comentário:

Oswaldo Muhlmann Junior - Ordem Rosacruz - AMORC-GLP

15/02/2019

 

Saudações fraternais!

 

Caro Frater Altino, sua crônica está sensacional, pois retrata o que de fato acontece com a humanidade, ignorante de acontecimentos marcantes e históricos. A falta de interesse pela leitura, pela cultura de um modo geral é evidentemente um fator a ser relevado na questão.

 

Gostei muito desta sua crônica e inclusive, com a sua autorização, vou utilizá-la para maiores reflexões e exemplificações em trabalhos que eventualmente realizo, agradecendo também a citação muito sábia de Einstein acerca das restrições de nosso pensamento, que resume no tamanho do universo de cada um.

 

Gratíssimo e um bom final de semana!



Leia outras matérias desta seção
 » O universo mental de cada um 
 » O homem que lê vale mais?
 » Futuro interrompido
 » Um padre na escuridão
 » Madrugada sem solidão
 » A história de quem fez história
 » Jovens e velhos e suas diferenças
 » A santa ingenuidade
 » Saudades do raciocínio
 » Não existem coincidências?
 » O destino oculto das nossas vidas
 » Quando se sabe que nada se sabe
 » Desperdiçar o tempo
 » Os inconvenientes de sempre
 » Quando o paraíso existe
 » O aumento que diminui a moral
 » A vida no tempo e vice-versa
 » Por onde anda a decência dos políticos?
 » Trapistas, os monges do silêncio
 » Liberdade, Igualdade e Fraternidade

Voltar