22/02/2017
Mea culpa?

Conheci certa vez uma pessoa, que não chegou a dar continuidade na frequência em minha sala de estética, mas fez questão de mandar-me seu irmão que, segundo ela, precisava se cuidar.

Era visível o amor, mais que normal, dessa moça por esse irmão.

Foi assim que ele apareceu lá na minha sala e começamos um tratamento naquela pele que realmente precisava de cuidados.

Ele era um jovem senhor quarentão. Ocupava cargo elevado e importante numa rede de bancos no Brasil.

Solteiro por convicção, embora na época ainda tivesse um relacionamento, que segundo ele já era bem antigo, mas viver juntos estava fora de questão, já que esse senhor tinha a mãe bem idosa e essa tal irmã, que ele era ligado demais. Uma espécie de complexo de Édipo pela mãe e pela irmã, na minha opinião é claro.

Ele chegou até a mandar a sua namorada da época fazer tratamento comigo, e quando a conheci, entendi melhor a relação desse jovem senhor com sua família.

Mas, cada um com sua vida, eu apenas observava...

Ficamos eu e ele muitos anos juntos. Era visível que ele gostava de estar se tratando e para mim, também era reconfortante, pois conversar com pessoas inteligentes, que viajam muito como ele, sempre tendo histórias para contar, enriquecia cada vez mais minha imaginação, pois eu sempre gostei de conhecer o mundo através das pessoas que tem muito a dividir.

Ele era sistemático. Seu horário, aos sábados de manhã, pontualmente às 8h30 era sagrado.

Mea Culpa ?

Conheci certa vez uma pessoa, que não chegou a dar continuidade na frequência em minha sala de estética, mas fez questão de mandar-me seu irmão que, segundo ela, precisava se cuidar.

Era visível o amor, mais que normal, dessa moça por esse irmão.

Foi assim que ele apareceu lá na minha sala e começamos um tratamento naquela pele que realmente precisava de cuidados.

Ele era um jovem senhor quarentão. Ocupava cargo elevado e importante numa rede de bancos no Brasil.

Solteiro por convicção, embora na época ainda tivesse um relacionamento, que segundo ele já era bem antigo, mas viver juntos estava fora de questão, já que esse senhor tinha a mãe bem idosa e essa tal irmã, que ele era ligado demais. Uma espécie de complexo de Édipo pela mãe e pela irmã, na minha opinião é claro.

Ele chegou até a mandar a sua namorada da época fazer tratamento comigo, e quando a conheci, entendi melhor a relação desse jovem senhor com sua família.

Mas, cada um com sua vida, eu apenas observava...

Ficamos eu e ele muitos anos juntos. Era visível que ele gostava de estar se tratando e para mim, também era reconfortante, pois conversar com pessoas inteligentes, que viajam muito como ele, sempre tendo histórias para contar, enriquecia cada vez mais minha imaginação, pois eu sempre gostei de conhecer o mundo através das pessoas que tem muito a dividir.

Ele era sistemático. Seu horário, aos sábados de manhã, pontualmente às 8h30 era sagrado.

Sua pontualidade era britânica, nem um minuto adiantado, nem um minuto atrasado.

Eu sempre fui falante, até demais, e ele, apesar de caladão, conversava comigo e ria bastante...

Dizia que eu era hilária com minha espontaneidade, e assim fomos ficando cada vez mais amigos.

Ele me contou o fim de seu relacionamento de mais de 20 anos com a tal moça, o que compreendi muito bem, porque tem um dia que a gente cansa de esperar que nosso amor, venha de vez para nós...Ela esperou muito por ele, que sempre deu prioridade à mãe e irmã.

Foi a partir daí que ele começou a mudar...

Ele não era mais o mesmo. Não sei dizer se foi remorso ou tristeza mesmo pelo fim do relacionamento, mas ele mudou. Falava mais, se abria mais e até me ligava às vezes para contar alguma coisa que lhe tinha acontecido.

Acompanhei a tristeza dele com a morte de sua mãe, já bem idosa.

Conversávamos sobre tudo, especialmente sobre música.

Ele sempre me trazia um chocolate, (sou chocólatra)... Mas um dia apareceu com um presente diferente...E me disse : - “Esse não é para você comer. É para você ouvir”. Era um CD com uma coletânea que ele mesmo tinha feito para mim.

Gostei muito, mas quando mostrei a meu marido, ele me olhou com uma cara estranha e me disse : - “Olha, esse cara... não sei não!”

Como sempre detestei cena de ciúmes, ignorei o episódio.

Bom, o tempo foi passando e as coisas com meu cliente foram ficando cada vez mais tristes.

Ele se aposentou e daí despencou ladeira abaixo na depressão.

Eu ficava triste de vê-lo assim, conversávamos, eu conseguia fazê-lo rir, mas ele se recusava a procurar ajuda profissional, apesar de com muito tato eu dizer a ele que estava deprimido e precisa se cuidar.

Foi nessa época que a irmã dele me ligou, dizendo que eu precisava ajudar o irmão dela, pois ele me considerava muito e talvez me ouvisse. Ele estava se envolvendo demais com a bebida, segundo ela.

Expliquei a ela que tentaria fazer alguma coisa, mas não podia me intrometer demais na vida de nenhum cliente e só poderia ajudar se ele se abrisse. Percebi que ela não gostou muito da minha resposta, mas...

Eu até tentei, de fato logo de manhã, ele chegava para ser atendido, cheirando a bebida.

Mas era uma situação difícil, e ele não me deixou entrar no assunto, me cortou logo, eu o respeitei é claro.

Assim, de repente, ele sumiu de minha clínica.

Liguei várias vezes e quando eu fazia isso, ele aparecia, mas era uma outra pessoa.

E devagar foi se afastando, até que não veio mais.

Eu tinha que respeitar a vontade do cliente, ser insistente demais, fere a ética e irrita uma pessoa, que tem o direito de fazer suas escolhas.

A irmã dele me ligou várias vezes ainda, me pedindo para insistir que ele fosse se tratar comigo, mas eu não achei certo forçar uma pessoa a fazer o que não quer, e sinceramente, naquele caso, não era eu que tinha condições de ajudá-lo e sim uma terapia com profissionais da área da psicologia.

O tempo passou...

Um triste dia... recebo um telefonema da tal irmã de meu cliente...

Aos prantos e com muita raiva impregnada na voz ela me disse: - “Meu irmão morreu Selma”.

Fiquei muda pelo choque. Ela continuou dizendo: - “Quero que você saiba que você é muito culpada, pois ele se apaixonou por você, que não teve a sensibilidade de perceber. Morreu pensando e falando em você”.

Confesso: continuei muda.

Tristeza, amargura, pena e muita surpresa foram os sentimentos que tive naquela hora.

Não pude dizer nada, mesmo porque, ela não de deu chance, desligando o telefone na minha cara.

Fiquei muito mal, estava atendendo uma cliente que ao perceber meu estado, se levantou da maca e me deu um copo de agua.

Quando contei a ela o que tinha ocorrido no telefonema, ela me fez voltar à razão, me explicando que com certeza, essa irmã não tinha noção do que tinha feito, talvez agindo pelo impulso do momento de dor. E foi assim, que eu consegui entende-la e perdoar o mal que ela me causou.

Para falar a verdade, nunca me recuperei totalmente disso.

Sempre fica aquela sensação, a dúvida, será que eu poderia ter feito mais?

Como não percebi os sentimentos dele?

Onde foi errei?

Sempre tratei todos com muito carinho, fiz muita amizade na minha vida profissional, mas daí a alguém ter algum outro tipo de sentimento tem certeza que não houve incentivo de minha parte.

Por muito tempo, pensei nesse dia fatídico.

Mas, o tempo passa, a vida muda, a gente se esquece...graças a Deus.

Me aposentei, mudei de cidade, de estado, mas conservo meu apto em Santos e vou com bastante frequência para lá, pois tenho filhos , netos , médicos e muita gente querida.

Foi numa dessas minhas visitas à minha cidade querida, que um dia logo cedo, toca o interfone de minha casa, meu marido atende e fica respondendo a uma série de perguntas que e por fim , me passou o interfone...Para meu espanto, era a tal irmã do meu cliente falecido....

Ela me disse então: - “Ahhh! finalmente eu encontrei você. Já perguntei para todo mundo aqui do bairro se sabiam de você”.

Eu, entre espanto e ... confesso ... medo, expliquei a ela que estava aposentada, que não morava mais em Santos e só vinha para lá a passeio.

Essa mulher queria, de toda forma, que eu abrisse a porta de minha casa para ela entrar, coisa que um não fiz, confesso, por temor. Ela transpareceu uma pessoa muito estranha, um tanto transtornada mesmo. Ficou falando um monte de coisas nada a ver comigo e por fim se despediu...

Até hoje me pergunto:

Será que ela realmente acha que foi

MEA CULPA?


 

Sua pontualidade era britânica, nem um minuto adiantado, nem um minuto atrasado.

Eu sempre fui falante, até demais, e ele, apesar de caladão, conversava comigo e ria bastante...

Dizia que eu era hilária com minha espontaneidade, e assim fomos ficando cada vez mais amigos.

Ele me contou o fim de seu relacionamento de mais de 20 anos com a tal moça, o que compreendi muito bem, porque tem um dia que a gente cansa de esperar que nosso amor, venha de vez para nós...Ela esperou muito por ele, que sempre deu prioridade à mãe e irmã.

Foi a partir daí que ele começou a mudar...

Ele não era mais o mesmo. Não sei dizer se foi remorso ou tristeza mesmo pelo fim do relacionamento, mas ele mudou. Falava mais, se abria mais e até me ligava às vezes para contar alguma coisa que lhe tinha acontecido.

Acompanhei a tristeza dele com a morte de sua mãe, já bem idosa.

Conversávamos sobre tudo, especialmente sobre música.

Ele sempre me trazia um chocolate, (sou chocólatra)... Mas um dia apareceu com um presente diferente...E me disse : - “Esse não é para você comer. É para você ouvir”. Era um CD com uma coletânea que ele mesmo tinha feito para mim.

Gostei muito, mas quando mostrei a meu marido, ele me olhou com uma cara estranha e me disse : - “Olha, esse cara... não sei não!”

Como sempre detestei cena de ciúmes, ignorei o episódio.

Bom, o tempo foi passando e as coisas com meu cliente foram ficando cada vez mais tristes.

Ele se aposentou e daí despencou ladeira abaixo na depressão.

Eu ficava triste de vê-lo assim, conversávamos, eu conseguia fazê-lo rir, mas ele se recusava a procurar ajuda profissional, apesar de com muito tato eu dizer a ele que estava deprimido e precisa se cuidar.

Foi nessa época que a irmã dele me ligou, dizendo que eu precisava ajudar o irmão dela, pois ele me considerava muito e talvez me ouvisse. Ele estava se envolvendo demais com a bebida, segundo ela.

Expliquei a ela que tentaria fazer alguma coisa, mas não podia me intrometer demais na vida de nenhum cliente e só poderia ajudar se ele se abrisse. Percebi que ela não gostou muito da minha resposta, mas...

Eu até tentei, de fato logo de manhã, ele chegava para ser atendido, cheirando a bebida.

Mas era uma situação difícil, e ele não me deixou entrar no assunto, me cortou logo, eu o respeitei é claro.

Assim, de repente, ele sumiu de minha clínica.

Liguei várias vezes e quando eu fazia isso, ele aparecia, mas era uma outra pessoa.

E devagar foi se afastando, até que não veio mais.

Eu tinha que respeitar a vontade do cliente, ser insistente demais, fere a ética e irrita uma pessoa, que tem o direito de fazer suas escolhas.

A irmã dele me ligou várias vezes ainda, me pedindo para insistir que ele fosse se tratar comigo, mas eu não achei certo forçar uma pessoa a fazer o que não quer, e sinceramente, naquele caso, não era eu que tinha condições de ajudá-lo e sim uma terapia com profissionais da área da psicologia.

O tempo passou...

Um triste dia... recebo um telefonema da tal irmã de meu cliente...

Aos prantos e com muita raiva impregnada na voz ela me disse: - “Meu irmão morreu Selma”.

Fiquei muda pelo choque. Ela continuou dizendo: - “Quero que você saiba que você é muito culpada, pois ele se apaixonou por você, que não teve a sensibilidade de perceber. Morreu pensando e falando em você”.

Confesso: continuei muda.

Tristeza, amargura, pena e muita surpresa foram os sentimentos que tive naquela hora.

Não pude dizer nada, mesmo porque, ela não de deu chance, desligando o telefone na minha cara.

Fiquei muito mal, estava atendendo uma cliente que ao perceber meu estado, se levantou da maca e me deu um copo de agua.

Quando contei a ela o que tinha ocorrido no telefonema, ela me fez voltar à razão, me explicando que com certeza, essa irmã não tinha noção do que tinha feito, talvez agindo pelo impulso do momento de dor. E foi assim, que eu consegui entende-la e perdoar o mal que ela me causou.

Para falar a verdade, nunca me recuperei totalmente disso.

Sempre fica aquela sensação, a dúvida, será que eu poderia ter feito mais?

Como não percebi os sentimentos dele?

Onde foi errei?

Sempre tratei todos com muito carinho, fiz muita amizade na minha vida profissional, mas daí a alguém ter algum outro tipo de sentimento tem certeza que não houve incentivo de minha parte.

Por muito tempo, pensei nesse dia fatídico.

Mas, o tempo passa, a vida muda, a gente se esquece...graças a Deus.

Me aposentei, mudei de cidade, de estado, mas conservo meu apto em Santos e vou com bastante frequência para lá, pois tenho filhos , netos , médicos e muita gente querida.

Foi numa dessas minhas visitas à minha cidade querida, que um dia logo cedo, toca o interfone de minha casa, meu marido atende e fica respondendo a uma série de perguntas que e por fim , me passou o interfone...Para meu espanto, era a tal irmã do meu cliente falecido....

Ela me disse então: - “Ahhh! finalmente eu encontrei você. Já perguntei para todo mundo aqui do bairro se sabiam de você”.

Eu, entre espanto e ... confesso ... medo, expliquei a ela que estava aposentada, que não morava mais em Santos e só vinha para lá a passeio.

Essa mulher queria, de toda forma, que eu abrisse a porta de minha casa para ela entrar, coisa que um não fiz, confesso, por temor. Ela transpareceu uma pessoa muito estranha, um tanto transtornada mesmo. Ficou falando um monte de coisas nada a ver comigo e por fim se despediu...

Até hoje me pergunto:

Será que ela realmente acha que foi

MEA CULPA?

Selma Esteticista


 



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