23/11/2023
Doces Lembranças

Foi numa conversa entre mulheres num salão de beleza que o assunto surgiu. Tudo por conta de uma mosca que, meio zureta, estava mergulhando na água do lavatório onde a cabeleireira lavava meu cabelo. Ela começou a brincadeira falando: “mosca sai daí ou vou arrancar suas asas e você irá a pé pra casa”. A risada foi geral e ela então contou que quando era criança, fazia essa maldade com as moscas.

Pronto, foi o gatilho pra que todas as distintas senhoras que ali estavam, começassem a se lembrar do que faziam de peraltices quando criança… claro que eram as mais velhas, como eu no caso. Na falta de brinquedos, naquela época lançávamos mão do que tínhamos à disposição, e com muita imaginação, fazíamos coisas que hoje seriam consideradas “absurdas”!

Eu lembrei que adorava fazer uma poça d’água bem perto de algum formigueiro, depois pegava as formigas e jogava na água, só pra ver elas se debatendo tentando sair…depois de um tempinho, jogava um gravetinho pra elas se salvarem. Passava um bom tempo me divertindo com essa maldade e quando cansava, simplesmente enchia o formigueiro de água… muitas vezes saía da brincadeira com os pés cheios de picadas de formigas, que acuadas, se vingavam assim… coitada de minha tia, que nessa hora tinha de correr para me acudir, e aos gritos eu falava que tinha sido atacada injustamente rsrs. Criança terrível!

As vezes, quando ficava brava com minha tia que, com razão, me colocava de castigo, eu ia até o “guarda comida“ (alguém se lembra disso?) e simplesmente misturava arroz com feijão e o que mais estivesse guardado ali. Pobre de minha tia, hoje penso que ela sofreu na minha mão.

Costumava também levar manga verde pra escola juntamente com uma faca que pegava escondido e durante a aula ia cortando os pedaços e passando pra turma. A professora as vezes sentia o cheiro de manga e nós riamos com a maior cara de pau.

No quintal da casa haviam árvores frutíferas onde eu costumava subir no galho mais alto que pudesse para estudar e assim eu “dava minha aula“ para todos os bichinhos que voavam por ali. Certa vez fazendo isso com uma prima, pedi pra ela subir primeiro na árvore e assim que ela sentou no galho, eu, a pestinha, liguei a mangueira de água e mirei na bunda da dela, que com o susto despencou lá de cima. Os galhos amorteceram a queda e eu levei uma baita surra de minha tia.

Costumava brincar de “trapézio” nessas árvores e era muito comum eu ficar presa de cabeça pra baixo e gritar por socorro. Lembro-me de ver meu tio “rir escondido”, e quando ia me acudir levava uma escada pra me tirar do meu “trapézio”.

Certa vez, levei uma ferroada de abelha e, com raiva, peguei um martelo do meu tio, fui até a colmeia pra matar as pobres coitadas a marteladas, que óbvio se enfezaram e juntas vieram pra cima de mim dando-me dezenas de ferroadas… fiquei parecendo um balão de tão inchada, passei alguns dias de molho dentro de casa. Acho que minha tia mereceu o céu por minha causa…

As brincadeiras de bandido e mocinho, esconde - esconde, tomar banho de rio e pescar com uma peneira… como eu amava.

Numa dessas aventuras, “pesquei” uma cobra e a levei, dentro de uma lata com água, pra casa… minha tia quase morre de susto e me fez ir devolver a cobra pro rio!

Outra coisa que eu adorava aprontar, era atravessar os pastos onde haviam bois e vacas pastando. Eu os provocava e saía correndo, tinha agilidade em pular a cerca, mas certa vez ao fazer isso, o arame farpado engatou na minha calça comprida vermelha novinha, rasgando o pano e minha perna também… consegui me livrar do boi, mas não de minha tia que me deu outra surra e passou “salmoura” no corte da minha perna.

Eu vivia pintada de “mercúrio cromo”, pois os machucados eram constantes. Imagino que se já existisse aquele mertiolate que ardia, minha tia iria adorar! rsrs.

Eu ouvia a todo instante os gritos dela : “bionda, figlia di cane, di puttana, capra, ti ammazzo”, a italiana era brava, mas eu era pior.

Mas não era só de peraltices que eu vivia, sabia muito bem seguir alguma galinha do quintal que estava escondendo seus ovos…minha tia mandava eu descobrir o esconderijo e eu passava horas observando qual galinha saía de mansinho do pomar para ir botar ovo. Eu ia atrás dela, muito silenciosa e conseguia pegar a bicha no pulo. Acho que elas me odiavam rsrs. Era comum eu tomar bicadas delas quando alguma estava com pintinhos e eu queria pegar um pra mim. Ja os gansos eu respeitava, esses bicavam muito forte e cortavam a perna se me pegassem.

Éramos crianças felizes, livres e soltas, pois naqueles tempos não havia essa maldade que impera hoje… tenho muita pena de nossas crianças que não podem ter a liberdade que tivemos.

E foi assim que passamos horas contando nossas “loucas aventuras de criança” no salão de beleza um dia desses.

Por hora divirto meus filhos e netos contando meus “aprontos” de infância.

E creio que muitos de vocês vão mergulhar nas doces lembranças de suas infâncias também.

Recordar é viver!

elma.

 



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