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27/11/2012
Revolução pela inércia?

Apesar de ostentar o sexto maior Produto Interno Bruto, o Brasil não pode ser considerado país desenvolvido: seus resultados francamente insatisfatórios em educação barram a entrada no clube. Em plena economia do conhecimento e no olho do furacão dos mercados globais, a educação é mais do que nunca componente crucial de qualquer estratégia de desenvolvimento. O envelhecimento populacional é fonte de pressão suplementar por exigir uma população cada vez mais produtiva para sustentar a parcela inativa.
A despeito de deficiências do sistema educacional, a atenção governamental mantém-se inabalável com gastos em educação como proporção do produto praticamente constantes desde 1990. Não há pressa, não há urgência. Aguardando a revolução pela inércia, nossa distância em relação aos desenvolvidos só abisma.
Recentemente, foi aprovado o texto do Plano Nacional de Educação (projeto de lei 8.035/10), no qual se destacam metas como: eliminação do analfabetismo, universalização da educação básica e extensão da cobertura de creches e ensino superior, além de estipular o patamar de 10% do PIB para a educação, até 2020.
Infelizmente, o Plano não ensejou um debate substantivo sobre estratégias alternativas: as reações se dirigiram à demonstração de sua impossibilidade. As teses resumem-se à afirmação de que o Brasil não gasta pouco em educação, mas gasta mal, e de que gasto e qualidade não estão relacionados. A conclusão é: alocação adequada em combinação com gestão apropriada resolveriam os problemas. Reagimos:
O país gasta muito em educação? Há dois critérios: a comparação com outros países e a estimativa de nossas necessidades. Em ambos, fica evidente que a educação aqui é subfinanciada.
Alguns desconsideram o volume de recursos, insistindo que nossa prioridade e nosso sacrifício pessoal são comparáveis: tanto como percentual do PIB, quanto como fração do PIB per capita, gastamos valores compatíveis com os níveis da OCDE. Porém, na comparação dos gastos reais, o Brasil não ocupa posição de destaque: cada aluno brasileiro recebe investimento anual de R$ 4 mil, equivalentes a pouco mais de US$ 2 mil com paridade de poder de compra, bem abaixo da média da OCDE (US$ 8.600).
Outra questão é o déficit em termos de capital: em média, o Brasil gasta relativamente pouco com capital, 5,4% do total de gastos, contra 7,5% na Finlândia, 14,6% na Coreia, e 8,7% em média na OCDE. Quantas creches precisamos? Como expandir a minúscula jornada escolar sem mais escolas? E universidades para receber os jovens que queremos incluir? Mesmo os que gastam mais, como Chile e México, não equacionaram esses problemas; e os desenvolvidos não possuem déficit de capital significativo.
A universalização da cobertura, mesmo que limitada à educação básica, requer mais recursos. O novo Plano vai além: quer-se garantir acesso, permanência e qualidade. Tanto o acesso, por meio da expansão de capacidade e dos gastos em custeio, quanto a permanência, pela elevação da atratividade da escola parecem igualmente requerer injeção de recursos.
Mas aumento de gasto significa aumento de qualidade? Afirmar que a relação não é automática não significa afirmar que seja inexistente. Quanto maior o gasto, menor o impacto de um gasto adicional. Importante trabalho conduzido pelo especialista em educação Eric Hanushek confirma que, para o Brasil, o aumento dos gastos em educação, com o Fundef, levou à melhora do aprendizado. Como gastamos pouco, o impacto de gastos adicionais ainda é grande.
Desviar recursos do ensino superior público salda a dívida? Os gastos brasileiros de US$ 11.700 por aluno no ensino superior se situam abaixo da média de US$ 13.700 na OCDE (em paridade de poder de compra, e desconsiderando a inclusão de gastos com hospitais universitários). Se por mágica se acabasse com a universidade pública, os recursos economizados não seriam suficientes para tapar os buracos da educação básica: ainda que se aplicasse todo o 1% do PIB gasto pelo setor público com ensino superior nos níveis inferiores, as deficiências e subcoberturas persistiriam.
Esperar o bônus demográfico reduzir a demanda? Segundo alguns, a redução relativa e absoluta de crianças e adolescentes se encarregaria de reduzir a demanda por educação básica, tornando desnecessário comprometer porção maior do PIB para elevar o gasto por aluno. Tal argumento ignora o atual déficit educacional. E mais: enquanto o bônus demográfico não chega, vamos condenar uma geração à indigência cognitiva? Em 2030, se os gastos forem excessivos, que se legisle novamente.
E a carga tributária? A literatura e o bom-senso associam o apoio à percepção de sua legitimidade. Se a educação melhora em consequência de seu aumento, a legitimidade e o apoio a uma carga mais alta tendem a ser maiores. Além do mais, a carga precisará aumentar apenas se os gastos financeiros do governo - que dependem de fatores macroeconômicos e têm efeitos perniciosos - se mantiverem rígidos.
Custo ou investimento? Gastos em educação são investimentos sociais com retorno econômico calculável e efeitos multiplicadores sobre renda e produto. Segundo o Ipea, para cada real gasto em educação, o PIB aumentaria em R$ 1,85 e a renda das famílias, em R$ 1,70.
Nos parece ingênuo acreditar que seja possível melhorar a ainda deficiente educação brasileira somente através do aprimoramento da gestão de escolas e secretarias de educação, ou de uma simplória proposta de realocação de recursos entre níveis de educação, ou ainda através de uma resignada "paciência demográfica". O PNE é um passo correto neste sentido.


Celia Kerstenetzky, Ariana Martins de Britto, Lívia Vilas-Bôas e Fábio Waltenberg - O GLOBO

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