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12/04/2013
Custo Brasil - sátira


Digno de ser lido pelo Rolando Boldrin.


*SÓ RINDO MESMO!!!*


*Leiam até o final. É interessante e verdadeiro.*
*A carta a seguir - tão somente adaptada por Barbosa Melo -,
foi escrita por Luciano Pizzatto que é engenheiro florestal,
especialista em direito sócio ambiental e empresário,
diretor de Parque Nacionais e Reservas do IBDF-IBAMA 88-89,
detentor do primeiro Prêmio Nacional de Ecologia.*
*
*
*Prezado Luis, quanto tempo. *

*Eu sou o Zé, teu colega de ginásio noturno, que chegava atrasado, porque o
transporte escolar do sítio sempre atrasava, lembra né? O Zé do sapato sujo?
Tinha professor e colega que nunca entenderam que eu tinha de andar a pé mais de
meia légua para pegar o caminhão e que por isso o sapato sujava. *
*Se não lembrou ainda, eu te ajudo. Lembra do Zé Cochilo... hehehe, era eu.
Quando eu descia do caminhão de volta pra casa, já era onze e meia da noite, e
com a caminhada até em casa, quando eu ia dormi já era mais de meia-noite. De
madrugada o pai precisava de ajuda pra tirar leite das vacas. Por isso eu só
vivia com sono. Do Zé Cochilo você lembra, né Luis? *

*Pois é. Estou pensando em mudar para viver aí na cidade que nem vocês. Não que
seja ruím o sítio, aqui é bom. Muito mato, passarinho, ar puro... Só que acho
que estou estragando muito a tua vida e a de teus amigos aí da cidade. To vendo
todo mundo falar que nós da agricultura familiar estamos destruindo o meio
ambiente. *

*Veja só. O sítio de pai, que agora é meu (não te contei, ele morreu e tive que
parar de estudar) fica só a uma hora de distância da cidade. Todos os matutos
daqui já têm luz em casa, mas eu continuo sem ter porque não se pode fincar os
postes por dentro de uma tal de APPA que criaram aqui na vizinhança. *
*Minha água é de um poço que meu avô cavou há muitos anos, uma maravilha, mas um
homem do governo veio aqui e falou que tenho que fazer uma outorga da água e
pagar uma taxa de uso, porque a água vai se acabar. Se ele falou, deve ser
verdade, né Luís? *

*Pra ajudar com as vacas de leite (o pai se foi, né), contratei Juca, filho de
um vizinho muito pobre aqui do lado. Carteira assinada, salário mínimo, tudo
direitinho como o contador mandou. *
*Ele morava aqui com nós num quarto dos fundos de casa. Comia com a gente, que
nem da família. Mas vieram umas pessoas aqui, do sindicato e da Delegacia do
Trabalho, elas falaram que se o Juca fosse tirar leite das vacas às 5 horas
tinha que receber hora extra noturna, e que não podia trabalhar nem sábado nem
domingo, mas as vacas daqui não sabem os dias da semana, aí não param de fazer
leite. Ô, os bichos aí da cidade sabem se guiar pelo calendário? *

*  Essas pessoas ainda foram ver o quarto de Juca e disseram que o beliche tava
2 cm menor do que     devia. Nossa! Eu não sei como encompridar uma cama, só
comprando outra, né Luis? O candeeiro eles disseram que não podia acender no
quarto, que tem que ser luz elétrica, que eu tenho que ter um gerador pra ter
luz boa no quarto do Juca. *

*  Disseram ainda que a comida que a gente fazia e comia juntos tinha que fazer
parte do salário dele. Bom Luís, tive que pedir ao Juca pra voltar pra casa,
desempregado, mas muito bem protegido pelos sindicatos, pelos fiscais e pelas
leis. Mas eu acho que não deu muito certo. Semana passada me disseram que ele
foi preso na cidade porque botou um chocolate no bolso no supermercado. Levaram
ele pra delegacia, bateram nele e não apareceu nem sindicato nem fiscal do
trabalho para acudi-lo. *

*Depois que o Juca saiu, eu e Marina (lembra dela, né? Casei) tiramos o leite às
5 e meia, aí eu    levo o leite de carroça até a beira da estrada, onde o carro
da cooperativa pega todo dia, isso se não chover. Se chover, perco o leite e dou
aos porcos, ou melhor, eu dava, hoje eu jogo fora. *

*Os porcos eu não tenho mais, pois veio outro homem e disse que a distância do
chiqueiro para o riacho não podia ser só 20 metros. Disse que eu tinha que
derrubar tudo e só fazer chiqueiro depois dos 30 metros de distância do rio, e
ainda tinha que fazer umas coisas pra proteger o rio, um tal de digestor. Achei
que ele tava certo e disse que ia fazer, mas só que eu sozinho ia demorar uns
trinta dia pra fazer, mesmo assim ele ainda me multou, e pra poder pagar eu tive
que vender os porcos, as madeiras e as telhas do chiqueiro, fiquei só com as
vacas. O promotor disse que desta vez, por esse crime, ele não vai mandar me
prender, mas me obrigou a dar 6 cestas básicas pro orfanato da cidade. Ô Luís,
aí quando vocês sujam o rio também pagam multa grande, né? *

*  Agora pela água do meu poço eu até posso pagar, mas tô preocupado com a água
do rio. Aqui agora o rio todo deve ser como o rio da capital, todo protegido,
com mata ciliar dos dois lados. As vacas agora não podem chegar no rio pra não
sujar, nem fazer erosão. Tudo vai ficar limpinho como os rios aí né?*
*Mas não é o povo da cidade que suja o rio, né Luís? Quem será? Aqui no mato
agora quem sujar tem multa grande, e dá até prisão. Cortar árvore então, Nossa
Senhora! Tinha uma árvore grande ao lado de casa que murchou e tava morrendo,
então resolvi derrubá-la para aproveitar a madeira antes dela cair por cima da
casa. *

*Fui no escritório daqui pedir autorização, como não tinha ninguém, fui no Ibama
da capital, preenchi uns papéis e voltei para esperar o fiscal vir fazer um
laudo, para ver se depois podia autorizar. Passaram 8 meses e ninguém apareceu
pra fazer o tal laudo, aí eu vi que o pau ia cair em cima da casa e derrubei.
Pronto! No outro dia chegou o fiscal e me multou. Já recebi uma intimação do
Promotor porque virei criminoso reincidente. Primeiro foram os porcos, e agora
foi o pau. Acho que desta vez vou ficar preso. *

*  Tô preocupado, Luís, pois no rádio deu que a nova lei vai dá multa de 500 a
20 mil reais por hectare e por dia. Calculei que se eu for multado eu perco o
sítio numa semana. Então é melhor vender e ir morar onde todo mundo cuida da
ecologia. Vou para a cidade, aí tem luz, carro, comida, rio limpo. Olha, não
quero fazer nada errado, só falei dessas coisas porque tenho certeza que a lei é
pra todos. *

*  Eu vou morar aí com vocês, Luís. Mas fique tranquilo, vou usar o dinheiro da
venda do sítio primeiro pra comprar essa tal de geladeira. Aqui no sitio eu
tenho que pegar tudo na roça. Primeiro a gente planta, cultiva, limpa e só
depois colhe pra levar pra casa. Aí é bom que vocês é só abrir a geladeira que
tem tudo. Nem dá trabalho, nem plantar, nem cuidar de galinha, nem porco, nem
vaca, é só abrir a geladeira que a comida tá lá, prontinha, fresquinha, sem
precisá de nós, os criminosos aqui da roça. *
*Até mais Luis. *

*Ah, desculpe, Luís, não pude mandar a carta com papel reciclado, pois não
existe por aqui, mas me aguarde até eu vender o sítio. *
*/(Todos os fatos e situações de multas e exigências são baseados em dados
verdadeiros. A sátira não visa atenuar responsabilidades, mas alertar o quanto o
tratamento ambiental é desigual e discricionário entre o meio rural e o meio
urbano.)/**


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