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09/10/05
Medo de pandemia faz brasileiros começarem estoque de antiviral

Venda do principal remédio contra gripe cresceu quase 20%; em alguns locais já não é possível encontrá-lo, apesar do preço alto

Notícias de que o mundo em breve enfrentará uma epidemia causa por um vírus mutante de gripe começa a provoca efeitos no comportamento dos brasileiros de classe média e alta. Sem querer esperar uma decisão do governo sobre o assunto, muitos já estão montando estoques caseiros do tamivir, o medicamento considerado o mais eficiente para controlar a infecção. Apesar do alo custo da droga - uma caixa não sai por menos de R$ 100, 00, com dez comprimidos e, no exterior há um kit familiar, com 90 que chega a US$ 500,00 -, o remédio passou a ser procurado nas farmácias de vários pontos do País. De janeiro a setembro, as vendas foram superiores ao mesmo período de 2.004, segundo a fabricante Roche. João Carlos Ferreira, diretor do laboratório, não hesita em atribuir o aumento de vendas ao interesse crescente da população em fazer seu próprio plano de contingência. O movimento maior, conta, é registrado em centros como São Paulo. Mas em outras cidades a procura também vem crescendo. Em muitos locais, os consumidores já não encontram o remédio na farmácia. Alguns fazem encomendas para amigos que moram em cidades maiores. O médico da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) João Tognolo Neto vem a algum tempo recomendando a seus pacientes que façam seus estoques. Ele mesmo providenciou seis caixas do remédio para suas duas filhas, sua namorada, seus pais e, claro, para uso próprio. "Se acabar a validade, compro outra. É uma tranqüilidade que não tem preço", diz. Antonio Carlos Alves Garcia, outro médico, comprou duas caixas por R$ 240. "Espero não precisar", diz. Garcia acredita que em caso de epidemia, o antiviral sumirá das prateleiras, especialmente se o governo não garantir o suprimento. "Esta ameaça não está sendo levada a sério". "A cada dia, o risco de enfrentarmos uma epidemia com um vírus letal de gripe aumenta. Mesmo que o governo providencie o remédio, não haverá droga para todos", diz Tognolo. É esse, também, o pensamento de algumas empresas. Ferreira conta que a Roche já faz uma série de contratos para fornecer o Tamivir numa eventual epidemia de gripe. No Brasil, o laboratório já fechou contratos para fornecer a droga para 9.600 pessoas, entre funcionários e seus familiares. Outras três companhias - com 20 mil funcionários - negociam. As primeiras a fazer contratos - que não entram na contabilidade da Roche no Brasil - foram as multinacionais. "Boa parte delas já fez um plano de contingência, uma matéria de como substituir viagens reuniões, no caso de uma epidemia", relata Ferreira. Nessa estratégia, montada também pela própria Roche, há previsão de fornecimento de medicamentos para familiares próximos dos funcionários. O secretario de Vigilância do Ministério da Saúde, Jarbas Barbosa, considera que as corridas as farmácias trará apenas um efeito certeiro: menos dinheiro no bolso dos consumidores. "Não há nada que comprove que o remédio será eficaz numa eventual epidemia. O novo item na farmácia caseira terá apenas uma falsa sensação de segurança". Barbosa admite ser crescente o risco de ma epidemia provocada por um super vírus de gripe. "Mas não podemos considerar que o antiviral será uma arma infalível para o inimigo que ainda não surgiu".O remédio da Roche tem sua eficácia par aos casos comuns de gripe. Mas isso não significa que o mesmo ocorrerá com o vírus mutante. Especialistas avaliam que o maior risco de pandemia vem do vírus que causa a gripe aviaria e já matou 60 pessoas nos últimos anos. Provocada pelo H5N1, a gripe, que surgiu na Ásia, atingiu criações de aves de 11 paises. Mais de 100 pessoas contraíram a doença das aves, mas até agora, o vírus não foi transmitido de humano para humano. "Nenhum estudo foi feito mostrando que o tamivir é eficiente para H5N1", diz Barbosa. Mesmo dizendo que o remédio não é nenhuma panacéia, o governo brasileiro estuda a possibilidade de fazer um estoque. Detentora da patente, a Roche cobra há tempos que o País defina logo seu pedido de compra. "Há uma fila de países interessados e, por mais que tenhamos aumentado a produção, há um tempo de espera para recebimento. Quanto mais o Brasil demorar para fazer pedido, mais tempo levará para ser atendido". Até agora, 40 países já fizeram seus pedidos. Entre eles, Canadá, Reino Unido e Estados Unidos. Este último reviu sua política de emergência e decidiu ampliar a encomenda. Agora, seu estoque está planejado para 50% da população. A ameaça da longa espera não abala os nervos de Barbosa. "A cada hora a empresa diz uma coisa. Fala que é preciso fazer o pedido, que tem capacidade limitada. Mas se falamos que ela não terá condições de suprir o mercado, ela desconversa".Para ele, o motivo é claro. "Não há duvida de que a empresa quer manter o mercado. Mas ninguém é ingênuo o suficiente para imaginar que ela terá condições de suprir a necessidade mundial num caso de epidemia". Os números são espetaculares. A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que a próxima pandemia deve matar, num cenário otimista 7 milhões de pessoas. Num pessimista, 60 milhões. Serão 2 bilhões de pessoas afetadas pela doença. Justamente por isso, Barbosa afirma que é preciso criar um plano B, mais ágil e eficiente. Nos próximos dias, na reunião que terá com a indústria, o Brasil deve negociar uma eventual licença voluntária da patente do tamivir. "Seria uma carta na manga, que nos comprometeríamos a usar somente em caso de pandemia". A própria ONU avisa que poderá recorrer à licença compulsória. O recurso seria extremamente útil para garantir a droga para países pobres. Ontem, a Romênia confirmou mais um caso de gripe em aves. Na sexta, o País já havia anunciado outros três casos. A Turquia também divulgou que duas mil aves morreram na madrugada de ontem, vitimas da gripe, mas as autoridades sanitárias afirmam que já controlaram o foco da doença.

O Estado de São Paulo

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