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29/08/2008
Célula comum é transformada em produtora de insulina

Técnica da reprogramação direta dispensa o uso de células-tronco adultas ou embrionárias

AP E REUTERS

Parece simples - e é. Pesquisadores americanos transformaram células comuns do pâncreas de camundongos nas importantíssimas células beta - aquelas que produzem insulina e que sucumbem no caso de pessoas com diabete - com a simples injeção de três genes.

“Foi mais fácil do que qualquer pessoa poderia imaginar”, diz Douglas Melton, da Faculdade de Medicina da Universidade Harvard e líder da pesquisa. A facilidade a que ele se refere, na verdade, é relativa, comparada a outros caminhos experimentados até agora, que envolvem células-tronco embrionárias ou induzidas. “(A experiência) mostra que é possível ir diretamente de um tipo de célula adulta para outra, sem que seja necessário voltar ao começo (da diferenciação)”, explica o cientista.

O foco foram as células exócrinas, que compõem 95% do pâncreas. A técnica, chamada de reprogramação direta, dispensa o uso de células-tronco, estreladas e até agora consideradas essenciais nesse tipo de pesquisa por sua capacidade potencial de formar qualquer outro tipo de célula.

No ano passado, pesquisadores reprogramaram células epiteliais adultas e reverteram-nas ao estado embrionário, para então transformá-las novamente. A equipe de Harvard queimou essa etapa.

O novo método leva uma célula adulta a agir como outro tipo de célula adulta. Segundo Melton, é como um cientista se converter em advogado sem voltar ao jardim de infância e crescer novamente.

Relativo também é o esforço que o experimento tomou. Foram três anos de trabalho até a publicação de um artigo científico hoje na prestigiada revista científica britânica Nature (www.nature.com).

TRANSFORMAÇÃO


O grupo primeiro foi atrás dos genes que fazem células funcionarem como beta, produtoras de insulina. De mil, selecionaram três que controlam a função dos outros genes.

Esses três genes foram inseridos em camundongos diabéticos com a ajuda de um vírus inofensivo, que infectou células exógenas. Apenas três dias depois, novas beta apareceram. Após uma semana, mais de um quinto das células infectadas secretavam insulina e assim o fazem por meses.

A confirmação veio pela análise de sua aparência e comportamento. As novas células não repuseram completamente a insulina deficiente. A equipe especula que talvez haja poucas delas ou elas não formaram agrupamentos, como normalmente as beta fazem.

Ainda assim, os pesquisadores defendem que, em teoria, o mesmo processo pode ser aplicado em outras células abundantes no corpo, como hepáticas, epiteliais e adiposas. Melton (pai de dois filhos com diabete tipo 1) afirma que o método poderia funcionar em pessoas com diabete tipo 2. “Em quem tem diabete tipo 1 ainda encaramos o problema do ataque auto-imune”, que leva à destruição das beta, diz o cientista.

Para Mark Kay, da Universidade Stanford, o trabalho traz “mais força à idéia do uso da reprogramação celular como forma de tratar a diabete”. Christopher Newgard, que estuda células beta na Universidade Duke, acha que o trabalho é convincente, mas afirma que ainda há dúvidas a serem respondidas antes de sua aplicação em pacientes, como questões sobre a eficiência do método.

Melton confia no método e espera que drogas possam substituir o uso de um vírus para infectar as células exógenas. Segundo ele, seu uso em humanos provoca receios sobre sua segurança.

O Estado (Revista Nature)

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