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Médico brasileiro ganha prêmio internacional

Método que permitiu salvar a vida de pacientes em coma grave rendeu ao neurocirurgião Julio Cruz o status de um dos 200 maiores intelectuais do mundo

O médico brasileiro Julio Cruz, neurocirurgião e neurocientista, de 53 anos, recebeu a Order of Excellence do século 21, do Internacional Biographical Centre de Cambridge, na Inglaterra, o que lhe dá o status de um dos 200 maiores intelectuais do planeta de todas as áreas. A menção é para "aqueles, não só médicos, com publicações que mais contribuíram para a vida na Terra". Tudo isso porque Cruz comanda pesquisas que resultam em métodos para salvar pessoas que há até pouco tempo seriam consideradas casos de morte irreversível - e ainda lhes garantindo qualidade de vida. Entre 1988 e 2004, foram 55 publicações, em uma média de duas a três por ano, 45 delas à frente das pesquisas: é o maior currículo de neurocirurgia e terapia intensiva nas principais revistas internacionais da área, segundo a Medline, que reúne as puplicações médicas existentes. O resultado de tantos anos de trabalho é a possibilidade de, atualmente, salvar pacientes próximos da morte cerebral iminente - aqueles com sinais clínicos como dilatação das pupilas, ausência de movimentos a estímulos dolorosos, características do estado de coma mais profundo, resultantes de ausência de circulação no cérebro. Antes dos métodos adotados pelo médico brasileiro, esse tipo de paciente fazia parte do registro de 100% de mortalidade na literatura médica. A trajetória profissional de Cruz começou em 1975, depois de fazer residência na Escola Paulista de Medicina e viajar em 1980 para estudar na Universidade da Pensilvânia e em Houston, nos Estados Unidos, os centros mais importantes de pesquisas de pacientes em estado de coma agudo. Suas principais pesquisas agora são com os italianos Giulio Minoja, de Varese, e Enrico Facco, de Pádua, e o japonês Kazuo Okuchi, de Nara. Em São Paulo, coordena o Centro Internacional de Neuroemergências, além ser professor de pós-graduação na Universidade Federal de São Paulo, a antiga Escola Paulista de Medicina. O "melhor profissional de saúde em 2004", segundo o IBC de Cambridge, é médico credenciado do Hospital Albert Einstein e do Hospital Samaritano, além de atender a chamados da rede particular.

Pesquisas

A ordem hoje nas neuroemergências, principalmente traumas e derrames, é intervir o mais cedo possível. "São casos de problemas que levam a alterações graves", explica Cruz. "Em 1951, os franceses Guillaume e Janny começaram a medir a pressão intracraniana. Em 1985, propus medidas de oxigenação cerebral. São ajustes de número de movimentos de respiração por minuto, além do uso do diurético Manitol e também de medicações barbitúricas, todas otimizadas a partir do nosso método. Agora, esses dois são procedimentos de rotina nas UTIs dos melhores hospitais." Nesse trabalho, foram dez anos com pacientes selecionados em estado de coma e com aumento de pressão intracraniana. "Eram 353 adultos na UTI. Um grupo, sem oxigenação; o outro, sob os dois procedimentos. No caso dos que passaram pelos dois procedimentos, de 178 pacientes, apenas 9% morreram, e 74% tiveram boa recuperação. Daqueles que só tiveram medida a pressão, 30% morreram." O segundo trabalho nessa linha foi atuar no pronto-socorro, antes da entrada na UTI, e mostrou a importância dessa rapidez dos médicos na aplicação do método, antes de quaisquer exames. Foi publicado em 2002, com a colaboração de Giulio Minoja e Kazuo Okuchi, que foram alunos de pós-graduação de Julio Cruz nos Estados Unidos. O procedimento é simples e usa um medicamento chamado Manitol, comum na UTI. Para um paciente de 70 quilos, por exemplo, com pupila dilatada, a ação é imediata com o Manitol, para evitar que se encaminhe para a morte cerebral: 500 mililitros na veia, em cerca de dez minutos. Depois, só com a volta das pupilas ao normal é que se passa aos exames. Antes desse tipo de procedimento ser adotado, só 20% dos pacientes se salvaram. Com a aplicação do método do médico brasileiro, 81% se salvaram. Pela pesquisa publicada em 2002, exatos 76% dos pacientes tiveram sua situação revertida com o método. E desse total nada menos que 61% recuperaram as atividade de vida normal.

Quanto mais rápida a intervenção numa neuroemergência, melhores resultados

No caso de uma pupila dilatada (menos pior que as duas), essa descoberta resultou, portanto, em uma diferença de mais de 56% de chances de vida a pacientes que davam entrada no PS em estado gravíssimo - os 76% de hoje, ante os 20% de antes. Desse trabalho ficou constatado que exames, como tomografia, só devem ser feitos depois da aplicação do Manitol, ainda no PS. E não como era feito antigamente, quando se perdia muito tempo (e vidas) com pacientes graves. De outro trabalho também de 2002, se vê que em crianças a resposta é ainda melhor. Em 45 delas, todas com pressão intracraniana aumentada, a mortalidade caiu de 50% para 4%, com 82% de boa recuperação, utilizando-se o procedimento de oxigenação. O terceiro trabalho - publicado neste ano no Jornal of Neurosurgery e com mais um colaborador italiano, Enrico Facco - continua com pacientes que dão entrada no pronto-socorro, mas foi feito só com aqueles com duas pupilas dilatadas e ausência de movimentos em estímulos dolorosos. São pacientes muito próximos da morte cerebral iminente. É o coma mais grave. O procedimento adotado foi o mesmo, com Manitol na mesma dose e velocidade, procurando conseguir mais fluxo cerebral. "O médico do PS deve agir muito rápido, só olhando as pupilas", diz Cruz. Dos 100% que morriam, o procedimento que resultou do trabalho de pesquisa desses médicos foi capaz de salvar 61% - e 43,5% ainda com boa recuperação, o que segundo Cruz significa "vida independente". Dos 100% de mortalidade dos pacientes com as duas pupilas dilatadas, com o método de Julio Cruz a taxa caiu para 39%. Para o médico brasileiro, o próximo passo será aplicar essas medidas já na cena do acidente, antes da própria chegada ao pronto-socorro, "para que não se perca uma hora, uma hora e meia de percurso."

O Estado de São Paulo

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