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09/04/05
Esclerose

Médico de Curitiba descobre por acaso que aplicação maciça de remédio interrompe a progressão da doença degenerativa.

Um erro transformou-se em uma boa notícia para a medicina. Pelo menos assim tem sido para a curitibana Y.E.S., de 51 anos, que teve diagnóstico de esclerose múltipla em 1994. Três anos depois, por acidente, recebeu uma dose de ciclofosfamida – um dos remédios usados no tratamento – altamente superior à prescrita pelo médico. O temor inicial deu lugar a uma reação quase milagrosa. “A doença não voltou mais”, atesta o neurologista Paulo Rogério de Bittencurt. A experiência está na edição de março da Acta Neurológica Scandinavica e repercute internacionalmente. Na época a paciente estava sendo submetida a pulsoterapia, com aplicação de imunossupressores diretamente na veia, terapia que Bittencort trouxe ao Brasil no início da década de 80, ao voltar de seu doutorado na Inglaterra. Antes, o tratamento da esclerose múltipla, doença progressiva que provoca dificuldades motoras e sensitivas, era feito à base de corticóides. Na Páscoa de 1.997 ele receitou quatro ampolas de 200 mg de ciclofosfamida para ser aplicada pela farmácia do hospital onde Y.E.S. se submetia à terapia. “É um tratamento rotineiro. Tem pacientes que o fazem há 20 anos”, diz o médico. Segundo ele, a própria paciente sentiu algo estranho quando era administrado o medicamento. Coincidentemente, o médico chegou à sala e interrompeu a aplicação. Tinham sido colocadas quatro ampolas de 1.000 mg e a paciente já tinha recebido 3.800 mg. Imediatamente foi aplicado um medicamento para socorro da medula óssea. “Achamos que ela ia ter complicações horríveis”, lembra Bittencourt. “Mas, além de ter perdido os cabelos, não houve nenhuma complicação”. Os cabelos voltaram a crescer seis meses depois. O médico disse que uma das possibilidades de intercorrência é a antecipação da menopausa. A paciente voltou à rotina dois meses depois. Na Escala de Kurtske, que classifica o grau de desabilidade numa variação de 0 a 10, Y.E.S., antes desse engano, estava no nível 4. “Era quase paraplégica”, conta Bittencourt. E tinha duas ou três crises ao ano, que duravam mais de um mês. Nessas crises, entre outros transtornos, a pessoa fica totalmente paralisada, perde a visão e tem problemas de equilíbrio. Segundo o médico, hoje ela pode ser classificada no grau 0, de normalidade. “Está neurologicamente normal, não sente nada e não toma nenhum medicamento”. Agora, vai ao consultório uma vez por ano. Por quanto tempo a doença ficará paralisada Bittencourt ainda não sabe. Mas por pelo menos oito anos já ficou. Com essa garantia, ele iniciou o tratamento com a dose alta do medicamento em outra paciente, há três meses, período em que a esclerose está parada. ”O desconforto é mínimo”, assegura, embora a pessoa precise ficar cerca de 20 dias em isolamento hospitalar. “Acho que isso vai se tornar rotina”. Bittencourt registra que, paralelamente ao trabalho que vinha fazendo, se desenvolveu no mundo a técnica de transplante autólogo de células-tronco. Nos últimos quatro ou cinco anos, passou-se a usá-la em pacientes com esclerose múltipla. “A primeira fase do transplante é o que ela (Y.E.S.) recebeu por engano naquela dose”, constata. “Agora se sabe que não é fatal, a taxa de complicações é baixíssima e produz a células-tronco”. No transplante completo, com quimioterapia maciça a partir da segunda fase, a taxa de mortalidade tem sido significativa – cerca de 10% dos casos. Por isso, ele afirma que o tratamento casualmente descoberto, que não exige muito tempo de hospital nem é tão caro quanto o transplante, é uma espécie de “milagre da natureza”. “Induz a circulação de milhões de células-tronco da própria pessoa, ajudando na recuperação imunológica”.

O Estado de São Paulo

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