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24/11/2021
Corticoide x escorpião amarelo

Pesquisa realizada com animais mostrou que o uso de corticoide pode bloquear a inflamação causada pela picada do escorpião-amarelo (Tityus serrulatus), minimizando, assim, o risco de morte. O veneno causa reações sistêmicas no organismo que culminam em edema pulmonar (acúmulo de líquido no pulmão) e choque cardiogênico (falência do coração). A espécie é típica das regiões Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste do Brasil e é a que mais causa acidentes graves no País, com registros de óbitos principalmente em idosos e crianças.

A tese Investigação sobre alterações cardíaca que ocorrem no envenenamento pela peçonha do escorpião Tityus serrulatus contou com orientação da professora Lúcia Helena Faccioli, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da USP, e recebeu o Prêmio Capes de Teses 2021. A pesquisa rendeu artigo na revista Nature Communications.

Mouzarllem Barros dos Reis, autor do trabalho e mestre e doutor em imunologia básica e aplicada 

O autor do trabalho, Mouzarllem Barros dos Reis, mestre e doutor em imunologia básica e aplicada,  ressalta ao Jornal da USP que os testes foram feitos em laboratório com camundongos inoculados com as toxinas do animal e, embora as reações sejam semelhantes em  humanos, o pesquisador reforça a necessidade da realização de pesquisas clínicas randomizadas para confirmar os resultados.

Ele explica que o objetivo do trabalho foi estudar como o veneno do escorpião induz o choque cardiogênico, que faz o coração não bombear o sangue de maneira adequada no corpo, o que irá ter repercussões clínicas graves, podendo evoluir para a morte.

Segundo o pesquisador, o estudo é altamente relevante porque têm aumentado muito os casos de envenenamento por escorpião. O número de pessoas picadas pelo Tityus serrulatus é maior que a quantidade de todos os acidentes por animais peçonhentos juntos, relata o trabalho.

Testes em animais

Após a inoculação do veneno, os animais receberam doses de corticóide (dexametasona) – medicamento supressor da resposta imune, que foi capaz de reverter o quadro de morte e o problema cardiogênico, além dos outros sintomas associados ao escorpianismo (dor forte no local, sudorese, agitação, febre e taquicardia e óbito). “Embora os resultados tenham sido obtidos em laboratório e em situação controlada, propomos o uso da dexametasona logo após o envenenamento para inibir a produção de mediadores inflamatórios e a liberação de acetilcolina (neurotransmissor), reduzindo as manifestações graves e morte no envenenamento”, diz o pesquisador.

O pesquisador ressalta que o protocolo proposto no artigo foi aplicado somente em animais. Por isso, é preciso realizar estudos clínicos para o uso em humanos. “Por hora, o soro antiescorpiônico continua sendo a principal arma para tratar o envenenamento”, diz.

Como agem as toxinas do escorpião no organismo?

Mouzarllem explica que, após a picada pelo escorpião, as toxinas (TsV) do animal se espalham rapidamente até atingir a circulação sanguínea, induzindo, a partir daí, um complexo processo inflamatório no organismo, no qual as células do sistema imune iniciam uma reação de defesa induzida pelo veneno.

Nessa interação, entram em ação receptores celulares do sistema imune chamados TLR2 e TLR4 que reconhecem o veneno e começam a produzir mediadores inflamatórios, as interleucinas (células brancas) que, por sua vez, elevam a produção de prostaglandinas (PGE2) e induzem a liberação de um neurotransmissor chamado acetilcolina. Toda essa reação sistêmica no organismo (inflamação) provoca a disfunção cardíaca, fazendo com que o coração deixe de bombear adequadamente o sangue, o que pode culminar no edema agudo do pulmão e no choque cardiogênico e levar à morte.

Os camundongos tratados com dexametasona não tiveram queda na pressão arterial, nem nos batimentos cardíacos e demais parâmetros cardíacos analisados, além de terem sobrevivido ao envenenamento. A dexametasona conseguiu bloquear o processo que induziu a liberação do neurotransmissor acetilcolina inibindo os danos cardíacos e pulmonares.

Escorpião: praga rural e urbana

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O escorpião amarelo (Tityus serrulatus) é uma praga rural e urbana, não existindo nenhum pesticida que consiga combatê-lo, relata o estudo. Eles costumam se esconder em frestas de pedras, barrancos, paredes e muros mal rebocados, madeira empilhada, entulhos, ralos e forros e gostam muito de umidade e pouca luz. Em algumas regiões, há verdadeiras infestações desses animais. Mouzarllem conta que, recentemente, leu em um jornal diário de Ribeirão Preto o caso de uma senhora que vivia na zona urbana e tinha capturado 60 escorpiões em sua residência, em um período de onze meses. Segundo dados de 2019 do Ministério da Saúde, houve um aumento do número de casos no estado de São Paulo em torno de 1000%, entre os anos de 2000 a 2017.

Quem mora na cidade também não está livre de sofrer algum tipo de acidente, como consta no estudo. O animal está adaptado aos centros urbanos, onde há acúmulo de entulho e lixo. O escorpião amarelo pode ser encontrado até mesmo em apartamentos altos de prédios, nos quais sobe pelo encanamento. O motivo de sua rápida replicação, além de não haver pesticida eficiente para combatê-lo, é o fato de a fêmea, sozinha, conseguir se autofecundar, processo denominado partenogênese. Cada fêmea gera até trinta filhotes por ninhada, podendo ter até duas ninhadas por ano, de acordo com o estudo.

As medidas de controle e manejo dos escorpiões consistem na busca ativa com a captura de exemplares realizadas pelos técnicos da Vigilância Ambiental e Epidemiológica e evitar a formação de ambientes propícios à ocorrência e proliferação desses animais, como o acúmulo de lixo, de madeiras velhas e entulhos em geral.

Como proceder em caso de picadas?

Segundo o Ministério da Saúde, o verão é o período de maior risco para a proliferação de animais peçonhentos. Quando a pessoa é picada por escorpião, recomenda-se lavar o local com água e sabão, manter a região da picada voltada para cima, beber bastante água e levá-la ao pronto-socorro o mais rápido possível.

Mais informações: e-mail [email protected], com  Mouzarllem Barros dos Reis


jornal da usp

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