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03/08/2026
ADITIVOS EM ALIMENTOS = INFLAMAÇÃO

Medscape Notícias Médicas

 

O que os aditivos dos ultraprocessados fazem com a microbiota intestinal

Washington Castilhos

28 de julho de 2026

Emulsificantes que degradam a camada de muco, corantes metabolizados por bactérias comensais em metabólitos pró-inflamatórios, adoçantes artificiais que induzem disbiose e nanopartículas que comprometem a função das células caliciformes. Os aditivos presentes em alimentos ultraprocessados atuam por vias distintas, mas convergem para o mesmo desfecho: o desequilíbrio da microbiota intestinal e o comprometimento da barreira epitelial que protege o hospedeiro da inflamação crônica.

"Já está provado cientificamente que a alteração da função e da composição da microbiota aumenta o risco de doenças. O que estamos chamando atenção é que a ingestão excessiva de alimentos ultraprocessados pode favorecer uma microbiota pró-inflamatória", afirmou a Dra. Ligia Yukie Sassaki, gastroenterologista do departamento de clínica médica da Faculdade de Medicina da Unesp de Botucatu.

Ela é uma das autoras da revisão crítica publicada na revista Nutrients por pesquisadores da Unesp, da Unicamp e da Aalborg University, na Dinamarca, que mapeou os mecanismos pelos quais os aditivos presentes em ultraprocessados alteram a composição e a função da microbiota intestinal e de que forma esse desequilíbrio pode favorecer o desenvolvimento de doenças inflamatórias intestinais (DII), como a doença de Crohn e a colite ulcerativa.

 

O consumo habitual de ultraprocessados está associado a alterações consistentes na microbiota intestinal, com redução de bactérias produtoras de butirato, como a Faecalibacterium prausnitzii, aumento de patógenos oportunistas e queda na produção de ácidos graxos de cadeia curta, metabólitos essenciais para a integridade da barreira epitelial. Esse desequilíbrio facilita a translocação de lipopolissacarídeos bacterianos para a corrente sanguínea, ativando vias inflamatórias como o NF-κB e elevando citocinas pró-inflamatórias como TNF-α e IL-6, mecanismos centrais na fisiopatologia das DII.

Os emulsificantes estão entre os aditivos mais estudados. A carboximetilcelulose e o polissorbato 80, presentes em margarinas, pães industrializados e sobremesas, promovem aderência bacteriana ao epitélio intestinal, reduzem espécies protetoras como Faecalibacterium prausnitzii e Ruminococcus e aumentam Pseudomonadota pró-inflamatória. O polissorbato 80 pode ainda facilitar a translocação de Escherichia coli através das células M e das placas de Peyer, comprometendo a integridade da barreira intestinal.

 

 

Os corantes sintéticos do grupo azo, como o Red 40 e o Yellow 6, presentes em refrigerantes e produtos industrializados, são metabolizados por bactérias comensais, como Bacteroides ovatus e Enterococcus faecalis, em metabólitos que ativam linfócitos CD4+ via eixo IL-23, induzindo colite em modelos animais geneticamente suscetíveis.

 

Os adoçantes artificiais, como sacarina, sucralose e aspartame, alteram a tolerância à glicose por meio de disbiose e elevam marcadores inflamatórios como TNF-α e IL-6. A maltodextrina, por sua vez, reduz a expressão de mucina 2, proteína essencial na formação da camada de muco, aumentando a adesão de bactérias patogênicas ao epitélio. O dióxido de titânio, usado como agente branqueador, compromete a função das células caliciformes e induz espécies reativas de oxigênio, com potencial genotóxico em exposição prolongada.

Para orientar o paciente na prática, os pesquisadores utilizaram o sistema NOVA, que classifica os alimentos em quatro grupos, segundo o grau de processamento industrial.

In natura Minimamente processados Processados Ultraprocessados
Alimentos não modificados, que saem do campo e vão direto para a mesa. Ex.: frutas, legumes, ovos, carnes. Alimentos que passaram por um mínimo processo. Ex.: arroz, leite em caixinha e carnes submetidas a processo de corte, mas que mantêm sua estrutura original. Alimentos fabricados com adição de alguns condimentos, como açúcar, sal ou óleo. Ex.: conservas de legumes, frutas em caldas, geleias, queijos.

Alimentos industrializados nos quais são adicionados aditivos, como corantes e emulsificantes.

Ex.: refrigerantes e embutidos como peito de peru, mortadela, salsicha, linguiça, salame.

"Os ultraprocessados são os que trazem mais malefícios à microbiota intestinal, e seu consumo deve ser limitado. Os processados podem vir na dieta como coadjuvantes, como por exemplo, uma fatia de queijo no café da manhã. Mas não devem ser a base da nossa alimentação", recomendou a Dra. Amanda Spiller, nutricionista e doutoranda em fisiopatologia e clínica médica na Unesp de Botucatu e autora principal do artigo.

 

"Há um marketing grande que estabelece que, para um alimento ser saudável, precisa ter proteína. Mas o excesso de proteína não significa segurança. Por exemplo, as pessoas têm trocado frutas por barrinhas. Elas podem ser um suplemento, mas têm muitos aromatizantes como aditivos alimentares", complementou. "Consumimos muitos produtos sem saber o que são e para que servem. Os três primeiros ingredientes listados são os que estão mais presentes. Se o primeiro é açúcar ou gordura, temos de refletir se é um alimento realmente bom."

O papel da dieta

Dietas ricas em fibras e alimentos minimamente processados promovem o efeito oposto. O consumo regular de frutas, legumes, cereais e sementes estimula o crescimento de bactérias produtoras de butirato, principal fonte energética das células epiteliais intestinais, e aumenta a produção de imunoglobulina A secretória, que atua na defesa da mucosa. Esse padrão alimentar reduz espécies pró-inflamatórias como Escherichia coli e Ruminococcus gnavus, promove maior diversidade microbiana e melhora a integridade da barreira intestinal, reduzindo a permeabilidade epitelial e os níveis circulantes de citocinas inflamatórias como TNF-α e IL-6.

"Embora não seja o único, a dieta é um dos fatores centrais de prevenção, então é importante chamar a atenção para o papel da dieta saudável na diminuição dos riscos de adoecimento", acrescentou a Dra. Ligia.

O fator genético, porém, não pode ser ignorado. "Mesmo que não fume, pratique atividade física e tenha uma alimentação 100% saudável, se tiver risco familiar importante, ela vai desenvolver uma dessas doenças devido ao fator genético. Mas, entre os fatores que podem ser modificados durante a vida, a dieta é dos mais importantes", afirmou a gastroenterologista.

Limitações

A maior parte dos estudos que embasam essas associações foi conduzida em animais e modelos in vitro. "O resultado em animal não se transfere para humano, ainda mais na microbiota, que varia de pessoa para pessoa", avaliou a Dra. Márcia Terra, membro da diretoria da Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição (SBAN), que não participou do estudo.

A classificação NOVA, central no estudo, não é isenta de controvérsias. "A categoria 'alimento ultraprocessado' é ampla demais. Ela agrupa pão fortificado, refrigerante e iogurte sob o mesmo rótulo. Quando se junta tanta coisa distinta, alguma associação estatística sempre aparece, mas isso não aponta para nenhum mecanismo. É a dose que faz o efeito, não a categoria", questionou a Dra. Márcia.

Para ela, o conceito em si é discutível. "Existe alimento industrializado e não industrializado; comida é comida, seja feita em casa, em restaurante ou cantina. O que previne doenças é o padrão alimentar ao longo do tempo, não o grau de industrialização.”

A Dra. Amanda reconhece as limitações, mas defende a utilidade clínica da ferramenta. "Quando vamos orientar um paciente, precisamos utilizar o que está na literatura. Entendo que não se deve colocar tudo na mesma balança, mas há de fato uma diferença entre um pão fortificado de mercado, que tem aditivos para se manter mais tempo na prateleira, e um pão feito em casa."

Segundo a nutricionista, deve-se evitar, não proibir o consumo. "Esses alimentos podem estar presentes na dieta? Podem. Mas não podem ser a base da alimentação", reforça.

"No Brasil, onde [alimento] industrializado é estrutural por praticidade e custo, pedir para alguém abandonar tudo é um conselho que ignora a realidade. A resposta é o equilíbrio. Baixo consumo não é prejudicial", complementa a Dra. Márcia Terra.

Washington Castilhos é jornalista de ciência e saúde há mais de 20 anos. Possui mestrado em Divulgação da Ciência, Saúde e Tecnologia pela Fundação Oswaldo Cruz e doutorado em Educação e Divulgação em Biociências pela UFRJ, com estágio doutoral na Universidade Paris-8.


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