» Colunas » Saúde Conteudo Patrocinado por Poliem Industrial

03/09/2026
ENDOMETRIOSE

Novo consenso muda o fluxo do tratamento da endometriose

Novo consenso muda o fluxo do tratamento da endometriose

Daniela Barros

28 de agosto de 2026

A fisioterapia pélvica deve ser indicada desde o início do acompanhamento ginecológico de mulheres com dor pélvica por endometriose, diz uma das principais recomendações do mais novo consenso brasileiro para tratamento de endometriose. A Associação Brasileira de Endometriose e Ginecologia Minimamente Invasiva (SBE) e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) lançaram os dois primeiros capítulos do documento com recomendações para o tratamento farmacológico e para o tratamento complementar não farmacológico da dor pélvica associada à endometriose.

"A doença passou a ser compreendida sob uma perspectiva ampla, que reconhece sua natureza multifatorial e a necessidade de uma abordagem multidisciplinar, integrando tratamento hormonal, tratamentos complementares, cirurgia, controle da dor, preservação da fertilidade, saúde mental, reabilitação funcional e promoção da qualidade de vida", escreve o Dr. Sérgio Podgaec, presidente da SBE e professor livre-docente da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), na apresentação do documento que formaliza a endometriose como doença inflamatória crônica, sistêmica e dependente de estrogênio. A elaboração das recomendações do consenso deve ser dinâmica, e o documento será expandido com novos capítulos à medida que a literatura da área avançar.

Do tecido ao cérebro

Em mulheres com endometriose de longa data, a inflamação crônica pode reorganizar os circuitos do sistema nervoso central, tornando a dor parcialmente independente das lesões pélvicas. "Se o médico concentrar a atenção apenas em eliminar a lesão visível e ignorar a sensibilização central, a paciente continuará sofrendo", afirma em entrevista ao Medscape o Dr. Omero Benedicto Poli-Neto, coordenador do Centro de Dor Pélvica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP). "[Nesses casos], o cérebro aprendeu a sentir dor."

 

Para mapear esse componente na prática clínica, o consenso recomenda o uso de instrumentos validados. A Douleur Neuropathique 4 (DN4) e o Leeds Assessment of Neuropathic Symptoms and Signs (LANSS) ajudam no rastreamento de características neuropáticas da dor, enquanto o Central Sensitisation Inventory (CSI) auxilia na identificação de quadros de dor nociplástica.

A musculatura como refém

A sensibilização central e a inflamação peritoneal contínua têm impacto direto na musculatura pélvica. Como resposta protetora a anos de cólicas e dispareunia, o assoalho pélvico entra em contração sustentada, evoluindo para hipertonia, e pontos-gatilho miofasciais se tornam fonte independente de dor.

Fisioterapia pélvica e acupuntura são as intervenções não farmacológicas com maior respaldo científico para redução da dor e melhora da qualidade de vida. Entre as modalidades fisioterapêuticas, a eletroterapia apresentou os resultados mais expressivos no controle da dor nas revisões analisadas, com destaque para a estimulação elétrica nervosa transcutânea. A terapia manual e o biofeedback são indicados para desativar pontos-gatilho, tratar contraturas e restaurar a coordenação muscular. O exercício físico é recomendado como adjuvante pelo impacto sistêmico na inflamação, no humor e na percepção da dor.

"A endometriose não é uma doença muscular, mas a dor crônica produz adaptações funcionais e neurológicas secundárias no corpo", afirma em entrevista ao Medscape a fisioterapeuta Renata Cruz, especializada em saúde da mulher pela FMUSP e pela Santa Casa de São Paulo. "A fisioterapia pélvica não trata a lesão endometrial em si, mas as repercussões que a dor causou na função do corpo."

As técnicas devem ser individualizadas, e a fisioterapia precisa ser integrada desde o início ao acompanhamento ginecológico, segundo o consenso.

A dor crônica associada à endometriose eleva o risco de transtornos depressivo e de ansiedade em comparação à população geral. Terapia cognitivo-comportamental e prática de atenção plena apresentaram efeitos positivos moderados a fortes nesses desfechos e na qualidade de vida nas revisões analisadas. A ioga, que trabalha componentes físicos e psicológicos, teve resultados favoráveis no controle da dor nos estudos incluídos na análise.

Dieta e suplementação: o que mostram as evidências

As intervenções nutricionais mais estudadas para o manejo da dor na endometriose são a dieta mediterrânea e a dieta pobre em FODMAP, em que há restrição do consumo de carboidratos de cadeia curta de difícil absorção e alta fermentação. As evidências disponíveis são limitadas e heterogêneas, com potencial de melhora de sintomas gastrointestinais associados, mas sem respaldo suficiente para qualquer dieta como tratamento da doença.

A dieta de redução de FODMAP pode beneficiar mulheres com endometriose que apresentem hipersensibilidade visceral e sintomas compatíveis com síndrome do intestino irritável. No entanto, por ser extremamente restritiva, deve ser adotada com orientação profissional e por tempo determinado. A exclusão de glúten e laticínios sem diagnóstico de intolerância — prática comum entre essas pacientes — não tem respaldo científico e gera risco nutricional.

"Ao atender essa paciente, o médico deve investigar se a tentativa de 'fazer dieta para controlar a doença' não virou uma restrição excessiva", afirma em entrevista ao Medscape a nutricionista Dra. Simone Getz, coordenadora da Comissão Multidisciplinar da SBE e docente da pós-graduação em dor do Hospital Israelita Albert Einstein.

Curcumina, resveratrol e ômega-3 não demonstraram superioridade sobre placebo no controle da dor e não devem ser prescritos com essa finalidade. A combinação de vitaminas C e E e a melatonina apresentam suporte moderado na literatura para alívio do estresse oxidativo e da dismenorreia e podem ser consideradas adjuvantes em casos selecionados. A vitamina D apresenta grau de evidência levemente superior ao dos demais imunomoduladores estudados.

CBD e gestrinona: ausência de evidências e riscos reais

Para o canabidiol (CBD), a ausência de evidências robustas de benefício levou o consenso a não recomendar seu uso de rotina no manejo da dor por endometriose. A gestrinona em implantes manipulados é rejeitada pelo risco de efeitos adversos androgênicos, alguns irreversíveis.

O ensaio clínico DREAMLAND, conduzido pela equipe do Dr. Omero na FMRP-USP, avaliou 102 mulheres com endometriose confirmada cirurgicamente e dor recorrente após tratamento, todas elas randomizadas para receber óleo enriquecido com CBD ou placebo por 10 semanas. O estudo foi encerrado na análise interina planejada pela ausência de benefício clinicamente relevante do CBD em relação ao placebo e pela maior frequência de eventos adversos no grupo do CBD, principalmente sintomas gastrointestinais e percepção de ganho de peso. O grupo placebo obteve melhores escores em domínios físicos de qualidade de vida. Aproximadamente 40% das participantes em ambos os grupos atingiram redução ≥ 50% na intensidade da dor.

"O acolhimento médico estruturado, a escuta atenta e a construção de uma boa expectativa terapêutica geram alívio da dor independentemente do uso de CBD", afirma o Dr. Omero em entrevista ao Medscape. O risco socioeconômico da divulgação precoce de resultados também preocupa o pesquisador. "O CBD de grau farmacêutico é muito caro no Brasil. Se houver a falsa expectativa de que ele é indispensável, pacientes vulneráveis que não têm como pagar por ele podem acabar recorrendo ao mercado ilegal ou ao uso de maconha de origem desconhecida."

A gestrinona em comprimidos foi abandonada pela indústria farmacêutica pelos frequentes efeitos adversos androgênicos, como alopecia, acne, voz grave e clitoromegalia irreversível. "O ressurgimento atual [da gestrinona] em implantes manipulados é impulsionado por uma promessa sem respaldo em evidências de ganhos estéticos e de performance, sem qualquer controle de liberação plasmática e com riscos metabólicos e cardiovasculares conhecidos", adverte o Dr. Omero.

Hormônio e fertilidade: quando manter, quando suspender

Contraceptivos hormonais combinados e progestagênios são a primeira linha farmacológica para o manejo da dor, com preferência pelo uso contínuo. O sistema intrauterino de levonorgestrel apresentou eficácia equiparável à dos agonistas do hormônio liberador de gonadotrofina (GnRH) no controle da dor e melhor perfil de segurança para uso prolongado, segundo o consenso.

Quando a primeira linha é insuficiente, agonistas de GnRH são indicados em segunda linha, sempre associados à terapia add-back para reduzir os efeitos do hipoestrogenismo na massa óssea. Paracetamol e anti-inflamatórios não esteroidais compõem a primeira opção analgésica, conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS), com opioides restritos a dor extrema e refratária. Neuromoduladores, como gabapentinoides, antidepressivos tricíclicos e inibidores da recaptação de serotonina e norepinefrina, são indicados apenas quando há componente neuropático documentado e as causas viscerais já foram tratadas.

"Tratamento hormonal não aumenta as chances de gravidez e não deve ser prescrito para mulheres inférteis com esse objetivo", afirma o Dr. Sérgio em entrevista ao Medscape. Para essas pacientes, o fármaco deve ser suspenso e o foco, direcionado à tentativa espontânea ou à reprodução assistida.

Para mulheres que passaram por cirurgia e não desejam engravidar imediatamente, o consenso indica manter o tratamento hormonal para controle da dor e prevenção de recidivas. "Ele atua no controle dos sintomas e pode conter a evolução da doença em alguns casos, mas não elimina a lesão nem garante que ela não vá crescer. Tratar a dor não significa que a doença sumiu, e o acompanhamento por exames de imagem precisa ser mantido", conclui o presidente da SBE.

Daniela Barros é jornalista, com pós-graduação lato sensu em jornalismo social pela PUC-SP e aluna especial no Departamento de Medicina Social da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP). Escreve sobre medicina há 23 anos, colaborando com diversas publicações direcionadas ao tema.


MEDSCAPE.COM

Leia outras matérias desta seção
 » CAFÉ NOVO ESTUDO
 » ENDOMETRIOSE
 » GLP-1. DOSES MAIS ALTAS OPÇÕES
 » MIELOMA - NOVO TRATAMENTO
 » AMEBA COMEDORA DE CÉREBRO
 » Papel higiênico para cima ou para baixo?
 » ADITIVOS EM ALIMENTOS = INFLAMAÇÃO
 » OSSOS X FORTALECIMENTO
 » TESTOSTERONA VAI USAR? CONSULTE UM MÉDICO
 » HIPERTENSÃO
 » ANABOLIZANTES O PERIGO
 » ayahuasca
 » Alzheimer x demência x exames de sangue
 » Novas pesquisas, Inteligência Artificial e medicamentos inovadores avançam contra o câncer
 » AMEBA COMEDORA DE CÉREBRO
 » MAGNÉSIO X SONO
 » BIOTÔNICO FONTOURA
 » IMUNIDADE X GRUPOS DE RISCO
 » TIRAR OU NÃO OS SAPATOS ?
 » CÃNCER DE COLO DE ÚTERO = ZERO


Voltar