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30/10/2026
MULHERES X TESTOTERONA

Até onde vão os benefícios da testosterona para mulheres na menopausa?

Evra Taylor

23 de outubro de 2026

O uso off-label (ou seja, não previsto em bula nem aprovado por autoridades regulatórias) da testosterona em doenças como câncer de mama e hipogonadismo não é novidade. No entanto, atualmente um número cada vez maior de mulheres na perimenopausa e menopausa vem recorrendo a esse hormônio para o alívio de sintomas.

Nos EUA, o número de prescrições de testosterona por 1.000 mulheres aumentou de 0,4 para 1,8 entre janeiro de 2018 e julho de 2026, segundo uma análise realizada pela Truveta, empresa americana especializada em pesquisas sobre saúde. Isso equivale a um aumento de 389,6%. No Canadá, não existem formulações de testosterona aprovadas pela Health Canada (órgão regulatório canadense) nem indicações para o uso em mulheres.

Estudos controlados randomizados, metanálises e diretrizes internacionais, entre elas as da Society of Obstetricians and Gynaecologists of Canada, respaldam o uso off-label da testosterona transdérmica como uma opção de tratamento para o transtorno do desejo sexual hipoativo (TDSH).

 

“O único sintoma para o qual os médicos devem considerar a testosterona em mulheres na perimenopausa e na menopausa é o TDSH”, disse ao Medscape a Dra. Nisha Nigil Haroon, endocrinologista e professora clínica associada da Toronto Metropolitan University, no Canadá. “É importante que as pacientes usem o estrogênio vaginal para reduzir os sintomas locais do TDSH. Implantes subcutâneos ou formulações orais de testosterona devem ser evitados, devido ao risco de inconsistência na dose liberada e de exposição excessiva ao hormônio”, acrescentou ela.

Estabelecendo expectativas realistas

Especialistas em terapia hormonal concordam que as mulheres devem ter expectativas realistas sobre o uso off-label da testosterona. “Nem toda mulher terá uma resposta à testosterona e, nas que responderem, o benefício pode ser discreto”, explicou o Dr. Russell Frank, ginecologista e obstetra com subespecialização em menopausa ligado ao Jewish General Hospital University Health Centre, no Canadá. “Existem indicações muito claras para o uso da testosterona em mulheres na menopausa e no manejo especializado da menopausa de uma forma mais ampla, mas também há muita desinformação sobre o seu papel. Em alguns casos, são atribuídos à testosterona benefícios que acabam não sendo respaldados por evidências científicas. O primeiro passo do médico deve ser avaliar as expectativas e os objetivos da paciente”, acrescentou ele.

 

 

O profissional deve começar a sua abordagem buscando compreender quais sintomas a paciente espera melhorar. “Existe um grande interesse pela testosterona, mas precisamos distinguir entre o que está sendo divulgado e o que a ciência realmente respalda”, disse ao Medscape a médica Dra. Marie Christakis, professora assistente de ginecologia e obstetrícia da University of Toronto e coordenadora clínica do Weston and O’Born Centre for Mature Women’s Health do Mount Sinai Hospital, todos no Canadá.

 

Os níveis de testosterona da mulher diminuem naturalmente com a idade, mas isso não significa necessariamente que eles precisem ser corrigidos. Sendo assim, a indicação de tratamento deve ser baseada nos sintomas, nas evidências científicas e em uma discussão sobre os possíveis riscos e benefícios, afirmou a Dra. Marie.

“Quando uma paciente solicita um tratamento com testosterona, os médicos devem conversar de forma transparente sobre alternativas mais seguras e sobre o fato de que o uso desse hormônio é restrito a determinadas doenças”, disse a Dra. Nisha. “Esse tipo de intervenção não melhora sintomas como alterações de humor, baixa disposição, 'névoa mental', distúrbios do sono, ondas de calor ou dores. Além disso, é importante descartar depressão ou outras possíveis causas para o TDSH, como estresse, uso excessivo de redes sociais, distúrbios do sono, anemia e ressecamento vaginal”, acrescentou ela.

Falta de opções terapêuticas

O uso crescente da testosterona em mulheres na perimenopausa e menopausa é uma consequência da falta de produtos formulados especificamente para esse grupo demográfico, disse a Dra. Nisha. “É vergonhoso que ainda estejamos usando um produto desenvolvido para a saúde masculina em mulheres. A situação é muito grave. Não temos nada a oferecer a essas pacientes. Os ginecologistas têm prescrito o gel de testosterona desenvolvido para homens, cuja aplicação é pouco prática e [muitas vezes] complexa. Nossa orientação é que as pacientes não usem a testosterona injetável. O sistema de saúde precisa acelerar a aprovação de produtos à base de testosterona para mulheres”, disse ela.

 

 

O diagnóstico clínico é o que determina se há necessidade de usar a testosterona como terapia hormonal durante a menopausa, com base em uma conversa com a paciente para avaliar os seus sintomas, explicou o Dr. Russell, que costuma dizer às pacientes que a diminuição da libido geralmente é multifatorial. A alteração pode estar relacionada à menopausa em si, mas também pode ser causada por alguns medicamentos. Por último, ele acrescentou que sintomas como ressecamento vaginal ou dispareunia também podem levar à falta de desejo sexual.

Em geral, a testosterona por via transdérmica em baixa dose costuma ser a opção preferencial. Quando não houver um produto específico para mulheres, uma alternativa é usar cerca de um décimo da dose transdérmica padrão para homens, a depender da formulação, disse a Dra. Marie.

“Nas doses que prescrevemos para mulheres na perimenopausa e menopausa, o risco de efeitos colaterais é bastante baixo. No entanto, os dois possíveis efeitos adversos sobre os quais as mulheres devem ser orientadas são a piora da acne ou da oleosidade da pele e um possível aumento, geralmente discreto, de pelos indesejados no rosto e no corpo”, disse o Dr. Russell.

Os níveis séricos de testosterona devem ser verificados aproximadamente seis semanas após o início do tratamento e posteriormente, de forma periódica. Além disso, os médicos também devem monitorar os sintomas e os efeitos colaterais. O acompanhamento laboratorial deve incluir a dosagem de testosterona total e da globulina ligadora de hormônios sexuais, para que a fração de testosterona livre seja recalculada e usada para confirmar se a exposição ao hormônio permanece dentro da faixa fisiológica desejada. Caso não haja uma melhora significativa após seis meses, o tratamento deve ser interrompido, concluiu a Dra. Marie.

 

A Dra. Nisha Nigil Haroon, o Dr. Russell Frank e a Dra. Marie Christakis informaram não ter conflitos de interesses relevantes. 

Evra Taylor é uma redatora médica e repórter freelancer com extensa produção publicada e 20 anos de experiência na cobertura de uma ampla gama de setores terapêuticos, como saúde da família, cardiologia, psiquiatria, oftalmologia e dermatologia. 

Este conteúdo foi traduzido do Medscape

 


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