17/05/2016
O cortiço da vida

No casebre de nossa vida penduramos!

Nas paredes do casebre de palafitas de nossas vidas, penduramos!
No prego enferrujado da parede do casebre de palafitas de nossas vidas, penduramos!
Penduramos a falta de tempo.
Penduramos a felicidade pela falta de tempo.
Penduramos o amor pela falta da felicidade que a falta de tempo desencadeia e encafita.
Penduramos o sorriso pelo amor contido na felicidade sem tempo.
Penduramos os medos porque o sorriso embrasea-se sem amor.
Penduramos as angústias causadas pelos medos porque não temos tempo de resolver o conflito da falta de felicidade descompassada à necessidade de amor com tempo.
Penduramos as lágrimas engulidas para que escorram pelo prego enferrujado, molhando: a parede de palafitas, a falta de tempo, a felicidade, o amor, o sorriso, o medo, a angústia, no cortiço do casebre de nossas vidas.
Tudo inundado e descomposto pelo molhado, e penduramos!
Penduramos os trapos limpadores dos móveis mal feitos de nosso casebre de palafitas!
E os trapos coloridos e sujos pendurados na parede de palafitas, brilham seu pó no reflexo da luz pela fresta quebrada por onde entra o sol miúdo no casebre de palafitas!
O pó da sujeira brilha como ouro, e, assim, discretamente contentes, penduramos as ilusões para: “um dia”, “talvez”!
A roupa costurada, de trabalho e empoeirada, penduramos na parede do casebre.
Abre-se a porta do casebre de palafitas, e penduramos!
Penduramos na porta do casebre de palafitas a toalha úmida do banho prolongado em uma banheira trincada pelo tempo rápido porque vivemos em um casebre, um casebre de palafitas!
E com a toalha penduramos o piso entroncado e encharcado pela água vazante da banheira velha que nos carrega, no casebre de paredes, paredes de palafitas!
Com pentes de plástico colorido na mão, e já tanto pendurados, acariciamos os cabelos ressecados com o pente colorido, procurando um gancho onde pendurar. E ao lado da porta onde está pendurada a pasta de dente, penduramos o pente!
A música do rádio encima da mesa de pés mancos e vermelhos, ensaia um samba da velha-guarda.
As unhas maltratadas nas mãos fatigadas buscam a faca, o garfo na gaveta azul escura para girar o botão de volume do rádio, encima da mesa de tampa riscada e, quase pendurada nos pés mancos, vermelhos, sem salto!
E falta espaço para o corpo gingar, então, entusiasmados, penduramos!
Na batida do tamborim entre a voz chorosa e a bateria frenética, penduramos com pressa de quem quer viver: a dor nos calcanhares, a coluna corcunda, o dinheiro escasso, o filho problemático, a sogra acomodada, o amigo pedinte, o inimigo enlouquecido, a velha da esquina que chuta cachorro, o bêbado que canta desafinado, o amante mulherengo, o marido ausente, o sócio incongruente, o vizinho rabugento, a madrasta prepotente, o padrasto insolente, o namorado adjacente!
Eita! Pendurado tudo! O samba no casebre pendurado pelo morro pendente!
A fumaça do charuto faz sinal ao único momento:o presente. Este, não penduramos! Só tem ele que não se faz ausente.
Soltem a música no cortiço de nossa mente!


   Daniele de Cássia Rotundo



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