21/09/2016
Quebrar-se


     “Quebrar-se”


Está disposto a quebrar-se?
Que tipo de indagação ou indução é esta?
Quem ou por que estaria disposto a quebrar-se?
Que significa quebrar-se? Romper as estruturas ósseas de nosso envoltório carnal?

Pergunta daquelas que nos aventam longe de todos os paradigmas sociais, comportamentais, filosóficos, emocionais que alimentamos anos a fio num corrente movimento contínuo, cego e inquestionável!

O cotidiano nos aliena de maneira consentida não verbal mas indisfarçadamente acional num globo de atitudes, suposições automáticas como reações protetivas de nossos medos secretos e, que muitas vezes, brincam de esconde- esconde, lembrando eventualmente que existimos abaixo desta insinuante torre de obrigações pré assumidas!

Levantamos bandeiras não costuradas, nem pintadas por nós!
Aceitamos opiniões não pensadas por nós!
Brigamos por idéias das quais sequer temos convicção relativa de que são nossas causas também!

E assim, construímos-nos  e fingimos que existimos:
1- em base ao que dizem que devemos;
2-fixados como lastros em passados recalcados ou simplesmente já não mais usados pela pura lucidez;
3-inflexíveis, endurecidos quase petrificados numa muralha de “modos de portar-se”, compilados e cimentados, imaginariamente atados a um final supostamente e parcialmente certo; não feliz, mas se tudo seguir nos trilhos – calculável!

E ai, vem a vida na sua real essência a gritar que este pergaminho não será suficiente para você sequer sobreviver! Por que?
Enrijecido!
Duro!
Entorpecido!
Cristalizado!
Simples assim! Estamos neste estágio de letargia mental e existencial beirando a sensação de ignorância em sua magnitude de calmante conveniente.
Hora de dizer adeus a placidez covarde e aceitar romper! Quebrar-se de você, de tudo.
Quebrar-se dos seus “eus”! Falso eus , ilusionados eus!
Tempo de violar esta placenta mole e esponjosa em que se esconde!
Hora de debilitar-se no íntimo dos íntimos e reestruturar o que já foi, não é mais e só você não percebe.
Passamos adormecidos eternidades em anos contados no calendário ortodoxo, vivendo, revivendo, remoendo-nos, contorcendo-nos, moldando-nos, infiltrando o que não é mais cabível na pessoa que habita este corpo que acreditamos ser nossos.

A inquietude vai ganhando espaço, a ansiedade incontrolável, a depressão  - doença química , a insatisfação sussurra timidamente. A enfermidade! O cansaço! Já não suportamos.
Remédios : para dor, para inflamação, para infecção, antibióticos, quimios, remédios, remédios! A tireóide não funciona, o coração palpita, a perna treme, o estômago queima. Florais, terapia existencial,  humanista, freudiana, comportamental.
Um grito : Sucumbindo!
Pare!
Quebre-se!
Agora!
Rompa com todo este emaranhado que carrega em formato de pedras não polidas e de dimensões incalculáveis em seu débil, e já quase, escarnioso corpo!
A quebrada já amanheceu arruinando sua massa corpórea, o decline é palpável.
Quebra-se!
Agora!
Isto tudo que acreditava controlar, não tem controle. Então, deixe falir esta podre mania de torturar-se num perambeiro  caminho que não muda a paisagem porque esta infectado.
Quebre-se de suas modeladas autoridades ultrapassadas.
Quebre-se desta gaiola de loucuras que nem são suas.
Quebre-se e ressurja.
Quebra-gelo.
Quebra-luz.
Quebra-mar.
Quebra-galho.
Quebra-nozes.
Quebra-você.
E, enfim, reconstrua-se!
Reorganize-se!
Dê o verdadeiro significado para ser!

Quem está disposto a quebrar-se, está disposto a renovar-se, está disposto a abrir a mente, o coração, a sanar o corpo, está disposto e disponível ao mundo enorme e grandioso do novo e fiel.
Quebre-se, se quer viver pleno!
Entendido: por que, o que é quebrar-se?


   Daniele de Cássia Rotundo

 



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