10/07/2019
Férias no paraíso, pero no mucho.

Road to paradise

De Houston à Califórnia. De Califórnia ao Jornal Eletrônico Caieiras

Boa tarde querido chefe ai no Brasil! Aqui ainda é bom dia, e estou na sofrência do “péssimo clima da Califórnia”

Após 5 dias largos de viagem cheguei com a prole de 3 e meu marido querido em Los Angeles.

Há uma semana atrás (segunda-feira) meu marido avisou (24 horas de antecedência), que faríamos nossa road trip do ano.

Motivo: profissional (dele).

Minha alegria veio misturada com a discreta revelação de minha consciência que trabalharia “como um burro” nos próximos dias.

Parece (e até pode ser) um tanto quanto ingrato este pensamento fútil, afinal uma viagem com família completa pelos Eua, nao é fato corriqueiro.

Qualquer “senhoura”, mãe de família, que vive num lugar onde não há muchachas para ajudar em absolutamente nada, entenderá minha agonia em arrumar 5 malas de roupas (mochilas com peças dobradas em formato de origami encaixadas num diminuto espaço ), valise de primeiros socorros ( organizei uma macro bolsa - kit de remedinhos básicos para o caso dos top 10 desconfortos fisicos possíveis numa viagem, mais as 10 enfermidades listadas pela Organização Mundial de Saúde, como fatais).

E, assim, se alguem tivesse dor de garganta e não encontrarmos farmácia, supermercado, lojinhas capenguentas, médico, hospital, emergência ou um paje fumando um cigarro de Tabaco na varanda a beira da Estrada, eu terei salvo minha família com no mínimo 3 opções de medicinas prontinhas para uso na minha super bolsa.

Uma observação, melhor um desafabo: meu marido costuma comentar injustamente, em voz de piada sem graça, aos nossos conhecidos, amigos e familiares que acaso uma catástrofe aconteca próxima a mim, acudirei a vida de uma significatica parcela de pessoas, pela quantidade de suprimentos de todos os tipos que carrego nas minhas discretas bolsas.

Não encontro nenhum motivo condenável ser uma pessoa prevenida e andar com uma “privadinha móvel também”.

Os homens podem realmente ser cruéis!

Voltando a viagem: (minha capacidade de concentração parece afetada com as mudanças de fuso horário — estou caindo aos pedaços com o avançar da idade e confesso meu despreparo físico e mental para estas aventuras), após alinhados os planetas, eu ter finalizado um rápido curso de logística pela internet para calcular exatamente quantas peças de roupa, comida, material de higiene usaríamos por milhas percorridas, eu ter gritado mil vezes com meus filhos sobre os itens de entretenimento que ainda estavam fora da fila de mochilas aguardando serem meticulosamente inseridas no carro, quase começamos nossa road trip.

Pois é, eu lembrei que precisava dedetizar a casa (eu mesma faço isto), cobrir a piscina, jogar cloro para o caso de mosquitos ao redor de possíveis poças d’água no quintal, cobrir os móveis e a churrasqueira do jardim.

Denis, meu marido já fingia demência para não ceder a enésima vontade de pedir o divórcio pela via-sacra do que precede nossas viagens em família. O que não levo a sério, porque em um par de milhas ele sempre precisa dos meus “detalhes-extra” (desta vez ele careceu de um cortador de pelos nasais que prontamente eu tinha na minha bolsa mestra!)

Eu já estava cogitando sairmos no dia seguinte, pela manhã bem cedinho (o que não aconteceria no mundo real porque eu não levantaria antes de 12 horas de sono após ter organizado tudo isto).

Mas categoricamente ouvi: “NÃO”.

Todos no carro e inferi que não poderia esticar minhas pernas nas próximas horas (e dias): não sei se o carro diminuiu ou exagerei na quantidade de apetrechos primordiais.

Saímos de casa em Houston terça feira por volta das 21:00 e a primeira parada foi em Dallas.

Primeira parada para dormir!

Na manhã seguinte Denis estaria em reunião.

Descemos tudo do carro, inclusive as consolas dos jogos do meu filho Hector porque mesmo vivendo num pais relativamente seguro, o hotel possuindo estacionamento e câmeras, vai que alguém decide apropriar-se justo dos jogos dele, não é?

Melhor prevenir que remediar.

Foi rápido, em duas viagens naqueles carrinhos de hotel, descarregamos tudo!

Impressionante como a vida pode ser prática!

Depois da discussão de quem dormiria onde, quem seria o primeiro do banho, quantos minutos no chuveiro e um acordo (impositivo e leonino) de que o “número 2” só deveria ser executado no banheiro fora do quarto, dormimos, melhor seria, desfalecemos entorpecidos!

Quarta-feira: enquanto Denis foi a seu compromisso, eu travei uma batalha com meus filhos para tomarem café da manhã no restaurante.

Desta vez, decidi que não carregaria café, pão, leite, suco em pratinhos descartáveis pelos corredores para cada um deles.

Minha vontade foi desistir de seguir viagem pelo stress do breakfast (bem americano e minguado).

Ah! Mais uma observação. Nós viajamos com orçamento bem curto, então não há luxo em nada. Dormimos os 5 no mesmo quarto, comemos em lugares bem acessíveis e nossos passeios são simples e sem custos.

De Dallas viajamos 1 hora e meia a Forth Worth, uma cidadezinha de 800.000 habitantes no norte central do Texas, onde cowboys,

cowgirls, touros, cavalos são a atração principal para os milhões de pessoas que visitam esta imersão ao mundo do faroeste.

Embora não seja a primeira vez que passamos por lá, decidimos fazer esta rota para “agradar” Hector, que adora os touros mecânicos. E claro, Victor precisava conhecer o visual do típico texano. Passamos umas horas nas comprinhas com ele também.

E interessante como nos envolvemos pela vibe das cidades-rancho distribuídas pelas rotas do antigo faroeste americano.

Dá vontade de usar aquelas botas de bico fino, couro (nada ecológico) pintadas artesanalmente com canos largos, aderir às fivelas-macrocinto com a insígnia do cowboy mais famoso do Texas, um chapéu a moda antiga e sair cavalgando pelo campo apanhando o gado ( e quiçá do gado!).

O desejo esvai rapidamente quando o passeio a cavalo requer filtro solar proteção 100 e não dá para levar um ar condicionado portátil no rabo de “cavalin”!

Cansados do sol quente, entramos no carro que começou a ganhar mais peso e eu histeria para distribuir ao infeliz que olhasse em minha direção. Minhas pernas encolhiam-se gradativamente a cada “bolsinha” que socava para o buraco negro de meu assento.

Ah! Meus filhos tiveram uma crise alérgica ao entrarmos em um

espaço para alimentar llamas, carneiros etcs. Bem cara de turista!

O calor derretendo pedra e eles coçando os braços e o rosto.

Abri minha super bolsa e resgatei-os com um antialérgico.

Mãe prevenida vale por várias.

Quarta-feira fim de tarde rumo à Amarillo, cidade com ainda mais ou menos 200.000 habitantes, ainda no Texas.

Também conhecida como a capital mundial do Helium, e distrito histórico da famosa rota USA 66, seu nome significa amarelo, do espanhol amarillo.

Quinta-feira: café da manha, 1 hora e meia na academia do hotel para aliviar a culpa pelo tecido adiposo extra adquirido pelas estradas da vida, banho e adeus.

Decidimos não visitar Amarillo porque precisávamos chegar ao nosso destino até domingo.

Mesmo assim, fomos presenteados com a oportunidade de pichar uma obra de arte, esculpida no meio de um campo, mais especificamente: 10 cadillac enterrados pela parte da frente que são constantemente pintados, pichados pelos visitantes.

O “Rancho do Cadillac”, criado em 1974 por Chip Lord, Hudson Marquez e Doug Michaels é referência musical e cinematográfica.

Quando avistamos aqueles carros coloridos de longe, vários grupos caminhando pela estrada de terra que antecede a obra, ficamos paralisados imaginando como conseguiram transformar o espaço em um evento turístico interativo.

Um casal que vinha em nossa direção, entregou um spray para podermos pichar também.

Achei engraçado este senso de companheirismo, ou sei lá qual a palavra.

Nós, obviamente usamos e também entregamos para outras pessoas. E foi assim que pichamos uma obra de arte.

No caminho à próxima cidade paramos na tradicional loja em Moriaty, com muitos souvenirs e um boneco esotérico que “lê o future” por um dólar!

Mais um pequeno ritual dos meus filhos que acham o máximo aquele estranho mago.

Ah! também fizemos nossas moedinhas com 51 centavos. São máquinas que a “vítima” coloca 2 moedas de 25 centavos e 1 de um centavo. Então, você escolhe a figura, gira a manivela, e coleciona as moedas amassadas com emblemas dos lugares.

Fiz questão de tirar a foto com as estátuas de índios e meu filho Victor que não esteve ano passado na viagem.

Quinta-feira fim de tarde: chegamos a Santa Fé, Estado Novo México.

Nesta pitoresca cidade planejamos parar e conhecer um pouco mais.

Não conhecia um lugar tão diferente quanto este, em tantas viagens que já fiz.

Santa fé parece uma cidade guardada em dimensão paralela, onde a mente e corpo são livres de quaisquer padrões terráqueos.

A cidade é reduto de artistas de todas partes do mundo. 325 dias de sol por ano.

Claro que choveu durante nossa estadia.

A primeira fase da arquitetura é uma mescla da influência indígena e espanhola, e as casas construídas com material barroso, deixando o semblante da cidade com cor de sol brilhante todo o dia.

Mas prefiro contar em separado as aventuras em Santa Fé, que merecem mesmo um capítulo a parte.

Só para amenizar a curiosidade, lá vive o autor dos livros Ice and Fire que deram origem a série Games of Thrones — George R. R. Martin.

Santa Fé proporcionou muita informação, conhecimento e cultura, no entanto, senti uma pitada de frustração: quando encontrei a “feirinha de artesanato” - o cansaço de todos transformou-se em fúria e não ousaria pedir umas horinhas a mais para compras.

Aprendi uma lição em Santa Fé: compre suas bugigangas antes que seus acompanhantes cansem, o que significa, compre assim que a primeira loja apontar na esquina do centro comercial.

Sempre busco as feirinhas dos moradores locais que além de venderem mais barato (o que garante comprar mais quinquilharias), são os artesãos dos produtos, vendidos 10 vezes mais caros nas lojas dos centros comerciais.

Estas feirinhas são milagrosas, saio com várias bolsas, e minha auto-estima reconstruída. Geralmente os vendedores latinos, gritam “moça loira bonita”. Eu sou ruiva, mas confesso que não me importo com o erro da cor das madeixas.

Sexta-feira a tarde: check out., carregamos o carro, voltamos para a cidade e percorremos alguns quilômetros a pé, tirando fotos e viajando na maionese, no meu caso.

Tudo riponga, como eu gosto.

Antes da despedida comuniquei ter encontrado meu lugar no paraíso.

Isto não durou muito quando lembrei que não há praias por perto, que médicos provavelmente estariam na aldeia mais próxima e que meus filhos precisam estudar antes da mãe deles perder-se numa dimensão paralela de peace and love (e ervas legalizadas).

O entardecer deste dia foi sensacional. Um verdadeiro espetáculo. O céu em tons de azul, brincava com as nuvens formando uma colcha de algodão que percorria o horizonte em tons de cores indescritíveis. O sol parecia esconder seu rosto enquanto esticava suas mãos refazendo a atmosfera com novos formatos.

Mil fotos da janela do carro que não ficaram boas porque o vidro estava muito sujo com os pequenos insetos que se suicidam pelas rodovias.

Próxima destino? Ops! Esta foi a pior parte da viagem para mim, entretanto, uma experiência para entender onde mora a diferença do “u e i” entre o luxo e o lixo.

Meu amado Denis, que quase transformou-se em meu inimigo fiel depois desta noite, sempre reserva os hotéis das cidades-dormitório no mesmo dia ou um dia antes de chegarmos. Precisávamos de uma parada entre Santa Fé e Las Vegas, o que terrivelmente só existia em uma cidade, meio do caminho ao Grand Canion, e — hotéis lotados.

Quando ele começou balbuciar que dormiríamos num motel beira de estrada, entrei em colapso cardíaco psicológico, vulgo, chilique.

Não por mim, eu repousei nestes lugares quando não tinha as crianças, embora minha última estadia numa destas pocilgas tenha sido traumática: levamos um choque com direito a raios de eletricidade debaixo dos lençóis.

Como uma louca comecei a buscar cidades, hotéis e o resultado era o mesmo: nada disponível.

Resolvi então optar por um “hotelzinho” com pontuação 8.1 e chegamos tarde da noite ao ninho fétido.

O primeiro choque foi a quantidade de carros no estacionamento. O segundo constatar que se tratava daqueles prédios formados por chechelentos quartos que vemos em filmes (de horror).

Eu ainda tinha esperança de conseguir uma cama limpa, com um banheiro decente.

O tempo de demora para o check-in me fez pensar que dormiríamos no carro revezando hora em hora uma esticada das costas numa caminha no canteiro de obras.

Mas ele conseguiu a chave do reino dos dragões, abriu a porta antes que eu descesse do carro, e eu rezei para não surtar e estragar o resto da viagem.

O coitado nem respirava e parecia uma folha de sulfite branco gélido.

“Inspira e entra”, pensei.

No primeiro quarto uma cama queen size e uma hidro da década de 60 com um espelho enorme e uma televisão gigante concorriam

ao prêmio de breguice dos hotéis meia-boca.

A TV não funcionava, o que não foi problema já que tocar no controle resultaria em flambar as mãos de meus filhos.

A hidro parecia adorno de estúdio de quinta categoria de filme pornográfico.

O segundo quarto cheirava a especiarias fervilhando em caldeirão com água, e tinha 2 camas, uma televisão fantasma e o que seria uma mini cozinha.

Revisei várias vezes a cama das crianças.

Encima, embaixo, lençóis, cobertores, travesseiros, fronhas.

Aprendi um ritual super prático neste dia de como buscar germes microscópicos a olho nu.

Dormi com eles munida de minha havaiana para o caso de algum ruminante invadir nosso quarto.

Sexta-feira. Café da manhã no motel porno.

O “restaurante”? Melhor esquecer esta parte da história.

Estrada. Destino Las Vegas.

Terceira ou quarta viagem para Las Vegas, todavia, a primeira que Victor poderia curtir a noite.

Pensei que nunca mais chegaríamos a lugar algum.

Estávamos cansados. A cada meia hora minha filha encenava o personagem do Burro do filme Shrek, perguntado se já havíamos chegado.

O nível alto de adrenalina borbulhava em chamas com a ansiedade de Victor.

Foi horas escutando sobre “Pool Party”, “Electronic Party” e eu matutando como abortar Las Vegas.

Módulo: odiando Las Vegas. Quase uma hora para fazer o

check-in, mais uma para chegarem as malas, enquanto meu Victor se desesperava que a “festa acabaria”.

Passamos o fim de semana em Las Vegas e esta historia e só para maiores de idade.

Domingo. Destino final: Torrance, Los Angeles, Califórnia.

Teoria: 3 horas de viagem pelo deserto.

Realidade: 8 horas de viagem derretendo com ar condicionado ligado no máximo.

Eu só queria minha casa e qualquer oferta indecente que eu pudesse entrar num jatinho e regressar a Houston, valeria.

A esta altura, o carro estava decorado com balacubacos de todos estes lugares que passamos.

Meus filhos revezavam as discussões e, assim, não gritei o mesmo nome mais que 5 vezes a cada hora, enquanto eles disputavam “como transformar minha mãe em uma louca de Houston a Los Angeles”.

A estrada estava lotada e parada.

Motivo? Nenhuma idéia embora vários carros tenham sido abordados e seus pertences estivessem revirados no chão.

Analisei se tenho ainda idade para estas viagens.

Lembrei o quanto devo ser grata por ter possibilidade de atravessar o país de carro e viver momentos tao ímpares com minha família.

Enfim, chegamos a casa de minha querida cunhada, nossa família aqui nos Eua.

Valeu cada segundo de empurra-empurra, cansaço, histeria, mau-humor.

Agora, enquanto olho o céu azul e o sol aquece gentilmente este dia de verão na tao querida Califórnia, resumo minha última semana e espero que sinta a brisa de viver a vida sob as ondas!

Daniele de Cassia Rotundo Lima

[email protected]


 


 


 


 


 


 



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