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06/06/2013
Desvalorização deixa a situação crítica

 

O engenheiro e economista Luiz Carlos Mendonça de Barros vê na decisão do Banco Central em elevar a taxa de juros em 0,5 ponto porcentual uma reação da 'burocracia', dos funcionários de carreira, ao que seria um abuso político do governo Dilma Rousseff.

"Assim como ocorreu na Petrobrás, bateu no limite da burocracia", diz o ex-presidente do BNDES no governo Fernando Henrique Cardoso. "Ex-colegas do BC dizem que a instituição está sendo desmoralizada. Aí o Tombini (Alexandre Tombini, presidente do BC), que é um burocrata típico, um funcionário de carreira, reagiu de maneira diferente do que vinha fazendo. Mexeu com brios. Eles têm isso."

Mesmo estando fora do receituário original do Palácio do Planalto, a alta dos juros poderia controlar a inflação, devolver poder de compra para os trabalhadores, reanimar a economia e até dar fôlego a Dilma na campanha de reeleição.

"O controle da inflação poderia tirar o doce da boca da criança", diz o economista, referindo-se à eventual perda da bandeira de campanha do PSDB, as críticas a uma suposta leniência do governo com a alta dos preços.

Mas, com a forte desvalorização do real, que se acentuou na sexta-feira, o quadro mudou de figura. O impacto da desvalorização sobre o preço de importados é imediato, diz Mendonça de Barros, enquanto a alta de juros vai demorar a fazer efeito. "A situação ficou crítica", diz o economista, na seguinte entrevista:

Como o sr. avalia a decisão do Banco Central de elevar a taxa de juros em 0,5 ponto porcentual, acima do que previa o mercado após o resultado frustrante do PIB?

Tenho uma tese sobre certas burocracias do governo federal, com história longa, com respeito pela instituição. Fui presidente do BNDES por quatro anos e diretor do Banco Central e conheci essas burocracias. O burocrata é um cara que segue o governo. Mas tem limites. Quando bate nos limites, reage.

Depois de oito anos de Lula e três de Dilma, governos que usaram a burocracia para fazer política partidária, as burocracias estão batendo no limite. Um exemplo é a Petrobrás. Fizeram tanta coisa errada que bateu no limite. Quando a Petrobrás fica ameaçada financeiramente, prevalece o espírito de corpo dos funcionários.

Tenho certeza que é uma das coisas que aconteceu em relação ao BC. Ex-colegas dizem que a instituição está sendo desmoralizada. Aí entra o Tombini, que é um burocrata típico (não tenho nada contra isso, burocrata no sentido de respeito à hierarquia) e reage de uma maneira diferente do que vinha fazendo.

Minha dúvida é em relação a Dilma. Pressionada por uma situação econômica de clara dificuldade, percebendo que o setor político começa a olhar o ano que vem com outras alternativas, será que ela não resolveu dar uma guinada de política econômica mais geral?

Qual sua avaliação sobre o resultado do PIB, que cresceu 0,6% no primeiro trimestre, resultado abaixo do que previam os economistas e o governo?

Aconteceram duas coisas com esse PIB. A primeira, a gente já vinha acompanhando, se você pegar o deflator das vendas ao varejo (inflação que pesou na cesta de consumo das famílias) deu 7,4% em 12 meses. Como os salários subiram pouco mais do que a inflação, o poder de compra foi corroído. Mais do que isso. Como esse pessoal está endividado, eles estão com orçamento apertado. Esse é o primeiro sinal mais dramático da classe média. O consumo crescia a uma média de 0,9% por trimestre e esse resultado caiu para 0,1%. É a primeira vez que acontece. No ritmo de alta de 3,6% ao ano, como estava, dava para eleger um poste. Não é meu ramo, não tenho certeza. Mas acho que a Dilma pode mudar alguns pontos da política econômica porque a pressão por causa das eleições no ano que vem é insuportável.

Mas a política econômica já não está mudando, com a alta dos juros?

Tem sinais de mudança na política econômica, mas não tem ainda uma mudança sistêmica para enfrentar a agenda de problemas. Um dos grandes erros da Dilma foi a incapacidade de perceber que ela herdou uma economia diferente dos anos de Lula. Ele contou com uma série de forças auxiliares que levaram a um crescimento econômico até maior do que o potencial do País. Essas forças desapareceram. O Lula pegou a economia com desemprego alto, a Dilma com desemprego baixo. O Lula tinha o consumidor pouco endividado. Ela herdou o consumidor no limite do endividamento. O Lula tinha infraestrutura com espaço de crescimento, ela está com o gargalo. O Lula tinha os preços de exportação em processo acelerado de crescimento. A Dilma está vivendo um período de redução de preços. Ela não percebeu isso e continuou com a mesma política de estímulo ao consumo, no sentido de usar esses espaços ociosos para empurrar a economia para a frente. Mas ela não tem esses espaços. Ela agora precisa entender que, sem o investimento que aumenta a oferta na economia, não consegue crescer mais. Mas duvido que ela e a equipe dela tenham essa leitura.

Qual será o impacto da alta dos juros sobre o crescimento?

O PIB está baixo porque a inflação está alta. O consumo representa 60% do PIB e está sendo afetado pela alta dos preços. Se você reduzir a inflação, o resultado da economia poderia ser um pouco maior do que se previa. A inflação deveria cair porque há uma desaceleração do choque de alimentos e, com a alta dos juros, há uma mudança de expectativas na economia.

A alta dos juros poderia provocar uma reação do PIB?

Sim, mas não é só isso. O mercado previa 0,9% de alta no trimestre. Nós na Quest, tínhamos 0,8%. Daria de 3,5 % a 4% no ano. Seria um PIB excelente. Mas veio 0,6% no trimestre. Mas se você olhar a composição do resultado, você tem duas coisas que Tocqueville (Alexis Tocqueville, historiador francês) chama de 'acessórias', coisas menores que acabam compondo um quadro maior. Teve um problema de chuva atrasando exportação de minério de ferro da Vale. E teve uma queda grande de produção de petróleo por causa de uma manutenção feita pela Petrobrás que o bonitão anterior não tinha feito. Se você olhar esses dois setores e considerar uma situação normal, o PIB teria tido 0,2 ponto a mais no primeiro trimestre. Seria de 0,8%. E porque tem a ver com o Tocqueville e foi ótimo ter acontecido isso? Se sai um resultado de 0,8%, talvez o Banco Central não fosse dar 0,5 ponto de juros e o governo não levasse o susto que levou. Então, o que vai acontecer? Normalizando essas coisas, vamos ter no segundo, terceiro trimestre, um PIB maior do que estávamos prevendo. É uma coisa pontual, mas tem de ser colocada no contexto de política econômica da Dilma. Se nossos dados estão certos, é uma intervenção divina para poder dar esse susto.

Qual seria o efeito da alta dos juros na campanha eleitoral, já que o PSDB está usando a inflação como bandeira política?

A alta dos juros e o controle da inflação podem tirar o doce da boca deles. Não é trivial o que o Banco Central fez. Israel, Índia Austrália, e vários países do mundo emergente jogaram os juros para baixo. O Brasil é uma jabuticaba, no sentido de que é um emergente que elevou muito os juros. É um ato importante, mas eles têm um problema que é o câmbio.

Qual a dimensão do problema?

Eles estão pagando o preço de terem mexido no câmbio quando o resto das moedas não estava sendo desvalorizado. O Brasil saiu na frente e desvalorizou quase 20%. O que acontece agora? Faz um mês que o mercado está fazendo uma leitura que os juros vão subir nos Estados Unidos, e o dólar será fortalecido. Então todas as moedas emergentes se desvalorizaram. O peso mexicano, que é o queridinho do mercado, perdeu 8% nas últimas semanas. Ninguém vai dizer que o real lá trás já tinha desvalorizado. Agora, se as moedas dos emergentes desvalorizam, o real desvaloriza junto. Temos uma desvalorização do real que é imediata, tem impacto na inflação mais rápido que os juros. O câmbio afeta bastante pelos bens de consumo e alimentos. Bens de consumo duráveis, como televisão e geladeira, têm uma parte grande dos componentes importada. A situação deste ano é crítica.

O que o governo pode fazer em relação ao câmbio?

Eu não sei como eles vão fazer. Eles tentaram intervir hoje (sexta-feira), com um pequeno leilão. Fizeram certo. Não adianta. Se todas as moedas emergentes estão se desvalorizando, não tem por que o real se valorizar. Mas eles deram um sinal de que estão olhando para isso. Eles têm um problema. Acho que teriam de trazer o dólar para R$ 2. Pelo menos para dar tempo para a queda dos alimentos e esse sinal dos juros levar a uma queda da inflação. O pior que pode acontecer é aumentar os juros e, mesmo assim, o câmbio fazer com que a inflação fique mais forte do que estava antes.

Em entrevista na quarta-feira, o ministro Guido Mantega deu a entender que a desvalorização pode ser benéfica para a indústria e o câmbio não deve ser usado para combater a inflação.

Não é verdade, porque a desvalorização vira inflação. Eles têm uma capacidade extraordinária de não enxergar coisas que seres normais enxergam. O Banco Central, não. O Belluzzo (Luiz Gonzaga Belluzzo, economista), que é um dos gurus do governo, tem dito que não é hora de mexer no câmbio. Eu não sei como eles vão sair dessa. A minha leitura, vamos acreditar numa certa racionalidade da coisa, é que o Banco Central, uma vez acalmada a situação lá fora, vai tentar reduzir essa desvalorização para evitar que isso chegue na inflação.

Não pode haver uma mudança de estratégia do governo no câmbio, para ajudar a indústria?

Se está desvalorizando dólar australiano, peso mexicano, não tem jeito, o mercado leva o real também. E eles têm aí uma arma positiva, com o juro mais alto, se tiram IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) da aplicação financeira no Brasil, vai entrar bastante dinheiro de fora e com isso ajuda a reverter o câmbio. O mercado está esperando isso. Seria mais uma volta em relação às coisas que sempre disseram que não mexeriam. Mas, com o risco de eleição no ano que vem, eles fazem qualquer coisa para não dar à oposição a bandeira. A oposição, pelo que a gente está vendo, tem duas bandeiras importantes: a estagnação, o Brasil parou de crescer e pode aumentar o desemprego. A segunda é a inflação. Já estão combatendo a inflação, mas precisa melhorar.

A inflação está alta, o PIB cresce pouco e o déficit externo está aumentando. Como o governo escapa dessa armadilha?

Primeiro, o que teria de ser dito. Como seu Lula não cuidou do investimento no passado, estamos com gargalos aí importantes que estão segurando a economia. Não adianta crescer acima disso. O que temos de fazer? Estabilizar num nível bem mais baixo o crescimento e ao mesmo tempo em que a gente faz o investimento crescer.

Nós batemos no teto de crescimento econômico, mas graças a Deus temos a importação, porque se não estaríamos numa situação mais complicada. Não tenho medo da parte externa. Porque até agora, se houver aumento de confiança em relação à inflação, a entrada de capital para investimentos, principalmente em empresas, será mais do que suficiente para cobrir o déficit da conta corrente. Não temos problema nisso e, então, pau no investimento! E pau no investimento é chamar o setor privado, principalmente para atuar nas concessões. E ser mais 'market friendly' (amigável com o mercado).


O Estado de São Paulo

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