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04/05/2006
Nem choro nem vela

O decreto do Presidente Evo Morales de nacionalização da industrialização, distribuição e comercialização de gás e petróleo da Bolívia atingiu diretamente o Presidente do Brasil Luis Inácio da Silva Lula, que se auto proclamava líder da integração latino-americana. Não teve choro nem vela, apesar de manchar a fita verde e amarela, em plena comemoração à auto suficiência brasileira na produção de petróleo, conquistada pela Petrobras, empresa lesada moral e materialmente pelo recém empossado mandatário Boliviano. As implicações desse ato dito nacionalista vão além das simples aparências de pirotecnia esquerdista. Para os mais atentos, vão da consolidação da liderança de Hugo Chavez no continente até o projeto de reeleição de Lula, a deixar a Petrobrás como coadjuvante de mais um assalto político ao patrimônio do povo brasileiro.

 

CHAVEZ É O CHEFE

 

Chavez é o chefe de fato dos latinos. Detonou a Comunidade Andina, comprou a dependência da Argentina, mina o Mercosul via Uruguai, e coloca o Brasil a entorpecer com os cocaleiros. Lula tinha a ilusão de ser o líder da integração latino-americana, mas o episódio boliviano deixou claro, para quem ainda subestimava Hugo Chavez, que ele é o mais ambicioso e pragmático líder na região. Chavez disse a Evo: “os imperialistas brasileiros devem indenizar o povo boliviano pela exploração centenária dos recursos naturais do país. Encampe a Petrobras, não pague indenização pelo investimento de US$1,6 bi, aumente o preço do gás e o imposto sobre ele, para financiar a extração de petróleo e adquirir a tecnologia. Diga a Lula que terá participação para financiar sua campanha de reeleição e o pais não terá desabastecimento de gás, claro. Com aumento de 20% dos preços e imposto de 82%, ele receberá 2%. Não vai ter choro nem vela. O Brasil vai aceitar o preço e o imposto.” Se isso não foi dito, o plano está em curso entre os Presidentes que se apóiam mutuamente nas campanhas eleitorais, mas Chavez é o chefe.

 

A ESQUERDA QUE OLHA PARA TRÁS

 

Chavez, Evo e Lula vêem as propriedades públicas e privadas como fontes de financiamento de projeto para perpetuarem-se no poder. Nacionalismo, guerrilha, pilhagem, vingança e outros ideários são a base de formação desses lideres – o que não é nenhuma revelação extraordinária. No entanto, o problema é que eles representam a esquerda que olha para trás. O confisco da propriedade da Petrobras por meio de cerco às refinarias por soldados armados é uma imagem de retrovisor, que não se coaduna com o desejável mundo sem fronteiras no século XXI, mas, sim, se emparelha com a destruição de um laboratório de pesquisa de empresa privada assaltada pelo MST, fartamente financiada por Lula, que se vira para os dias de Getúlio, mas mancha a fita presidencial.

 

LULA NÃO SABIA

 

Um dia depois do assalto militar à Petrobras, o governo brasileiro faz uma reunião de “emergência”, com as ausências do Ministro da Justiça e do Comandante das Forças Armadas. Claro, era dia do trabalho. Na Bolívia, agia-se a mano militari, aqui, comemorava-se. O quê fazer? Lula teria sido apunhalado pelo seu companheiro Evo Morales. Não sabia, embora tenha participado da campanha eleitoral que alardiava esse projeto de apropriação da propriedade privada estrangeira. O resultado foi a aceitação emergencial do aumento do preço e do imposto. Não haveria risco de desabastecimento, apenas a incômoda situação de refém do Estado brasileiro aos planos de Hugo Chavez, que pretende instalar no continente a dependência energética de todos os latinos aos seus petrodólares. Mas Lula não sabia. Terá de assumir o papel de bobo da corte latina.

 

DANOS MATERIAIS E MORAIS

 

Por não se tratar de nacionalização de recursos naturais, como é comum a todas as nações, mas, sim, de nacionalização de propriedade privada e de operações industriais instaladas por meio de relevante investimento, a questão erige-se ao status de demanda de Estado. O Brasil deve ingressar de imediato com petição de arbitramento em Haia para ser ressarcido pelos danos morais e materiais diante da grave ofensa perpetrada pelo Estado boliviano, sob pena de se tornar alvo de vilipendio de outros aventureiros autoritários. O presidente Lula não deve render-se a interesses de perpetuação no poder, à expensas do patrimônio do povo brasileiro. O país foi atingido no seu prestigio internacional, e a empresa estatal sofre perdas materiais mensuráveis por simples cálculos. A garantia de abastecimento de gás não é suficiente para acomodações políticas. É uma chantagem incontroversa, a exigir uma ação firme do Estado brasileiro contra esse assalto. Ou se desmantela a sanha que se desenha na América Latina, ou o Brasil sucumbirá ao papel de capacho oceânico para o mundo.


Hermano Leitão / JAS

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