17/08/2017
Metamorfose

Ela acordou com gritos chamando seu nome sem nenhuma delicadeza!

- Acorda criatura, acorda agora, que estou mandando... Chega de dormir para a vida!

Com os olhos semiabertos pelo excesso de claridade que ela tinha certeza, não estava antes naquele quarto, ela olhou em volta e achou que ainda estava dormindo e que aquilo era com certeza um sonho. Mas ao deitar de novo, mal teve tempo de fechar os olhos e os gritos dessa vez mais altos e severos voltaram:

- Criatura infame, saia já dessa letargia, o seu mundo esta desmoronando e você não pode continuar sonhando como sempre fez na vida.

Dessa vez, acordada mesmo, ela olhou em volta e não viu ninguém, mas mesmo assim perguntou:

- Quem está aí? Quem é você que me acorda no meio de um lindo sonho, numa tarde de domingo, dia que tenho o direito de ficar aqui quietinha curtindo um pouco de solidão?

- Ah! Escutou agora? Quem sou eu? Eu sou aquela ou aquele que sempre esteve ao seu lado, em todos os momentos de sua vida, desde a hora que você embarcou mais uma vez para esse planeta chamado terra, para cumprir uma série de trabalhos, resgates, aprendizado e missões... Sou aquela (e) que falou no seu ouvido muitas vezes e você chamou-me de intuição, sou o seu anjo, sou o seu demônio, seu protetor ou protetora, chame como você quiser, mas acorda agora, já. O tempo passou você tem se olhado no espelho? Não percebeu que envelheceu? (como ela foi cruel nessa hora). Não dá mais para esperar você crescer, é agora ou nunca mais.

Ela continuou:

- Dei um tempo para você se acostumar que foi lhe dada a oportunidade de ‘VIVER A SUA VIDA...’, mas o que você está fazendo criatura?...

- O que acha que é viver? Dormir, sonhar com a suas eternas borboletas?...

- Quem disse para você que podia destruir a muralha da proteção que sempre ergueu para defender os seus? ... Era uma verdadeira leoa para espantar até um simples inseto em torno dos demais, e agora baixou a guarda... Abriu as portas de tudo, escancarou o seu coração, começou a distribuir balinhas em formatos de corações, transbordando de ilusões e ficou cega para os bichos peçonhentos que existem aqui na terra? Começou a criar cobras até dentro de seu sagrado templo?...

- Por isso estou aqui criatura insana. Mas dessa vez, cansei de tocar sininhos para você acordar para a vida, estou gritando mesmo, acorda imbecil! ...

- Olha em volta!...

- O que esta faltando?...

- Ah, você nem percebeu né?...

- Soltou todas as amarras... Mulher ingênua!

Agora, completamente acordada, espantada com o choque de realidade... a pobre sonhadora ainda disse:

- Mas, estava tudo tão bem... Eu cumpri tudo o que me foi pedido... Agora, eu só queria desfrutar a paz do dever terminado e você vem me dizer que estou errada? Onde? Por quê?

Mas não ouve necessidade de resposta, ela mesma olhou em volta e de repente tudo se tornou claro. Precisou apenas de um questionamento para si mesma, e entendeu o que estava errado.

Estava tão cheia de amor, tão cheia de paz, que havia se esquecido de que o mundo não se resumia no seu templo como ela costumava dizer: “Meu lar, meu templo”.

Ela havia aberto as portas que sempre mantivera trancadas para a maldade.

Ela se esqueceu do mundo lá fora.

Ela deixou o mal entrar e sorrateiramente ele foi minando os alicerces, que ela na sua visão benevolente e inocente, ainda com a sensação de missão cumprida, não percebeu.

Mas isso foi até aquele dia, quando seu anjo de asas negras e vermelhas gritou, cansado de ver tanta cegueira, para que ela acordasse de novo.

Acabaram-se as ilusões, o choque foi tão intenso, que mesmo com a força imensurável que recuperou, o estrago foi tão grande que ela perdeu a visão para o encantamento de suas eternas borboletas coloridas, principalmente aquelas de cor lilás, sumiram de sua vida.

O processo foi longo, foi penoso!

As duas maiores forças da terra, o amor e o ódio, lutaram dentro dela por muito tempo...

Não vou dizer que alguma delas venceu, porque precisamos das duas para viver, mas ela aprendeu.

Soltou a voz... Nunca mais deixou morrer em seu peito o grito de dor, que muitas vezes sufocou para não ferir...

Ela já se achou... Graças aquela criatura maravilhosa de asas vermelhas, que não a deixou no sono profundo da ignorância para a maldade.

Na sua vida, não existe mais lugar para cobras humanas disfarçadas. Ela aprendeu a reconhecer.

Ainda tem amor para dar... Só que agora, os selecionados são poucos.

Mas não fiquem tristes...

O tempo de lagarta dela terminou. Suas asas estão crescendo de novo e suas amigas borboletas, estão voltando...

Outro dia mesmo, ela reencontrou aquela sua velha amiguinha de asas lilás.

Voaram juntas de novo!

Selma Esteticista
 



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