18/05/2016
O amor fora do ar

As poucas horas que o aplicativo do Whatsapp esteve desativado já foram suficientes para inquietar. Excluindo-se os que o utilizam para trabalho, um grande numero de pessoas necessita dele apenas para comunicações corriqueiras, que vão desde um simples “ bom dia” às mais calorosas declarações de amor adesivadas, é claro, por coraçõezinhos, florezinhas e beijinhos. Para alguns, a solução foi instalar  outro aplicativo, parecido e suficientemente capaz de manter sentimentos antenados.

Infelizmente, para os  que nada fizeram, o amor simplesmente permaneceu   fora do ar, angustiado no silêncio de campainhas, toques e sinais que  turbinam seu tranquilo cotidiano. Lógico que  não foi nenhuma desgraça e enquanto a desativação era discutida judicialmente, eu, pelo menos, aproveitei para turbinar as minhas reflexões sobre o assunto. Imaginei então, a vida de todos nós sem o whatsapp. O que faríamos? Ou o que voltaríamos a fazer para nos comunicar afetivamente? Voltaríamos a telefonar mais? Voltaríamos a nos visitar mais? Voltaríamos a escrever idílicas cartas de amor?.


Cenas pitorescas passaram pelo meu pensamento como, telefones tocando incessantemente, conversas longas com os amigos nos fazendo esquecer o mundo e casas  cheias de parentes e vizinhos  desconectados do universo cibernético. Vi até  uma caixa de correio, abarrotada  de cartas esperadas, ou inesperadas de gente querida mandando notícias, mandando fotos de lugares longínquos e mandando beijos, muitos beijos em  envelopes perfumados e cheios de carinho. Imaginei, com certa nostalgia, correspondências sendo apressadamente abertas, expondo grafias variadas, caprichosamente contornadas por amigos distantes, amores perdidos e desejos proibidos. Imaginei, imaginei e imaginei.


Por alguns instantes senti aquelas  mesmas emoções sentidas há décadas, quando estes eram os únicos meios de comunicação. E foi imensamente prazeroso recordar a alegria de encontros, almoços e cafés que marcavam datas importantes e que uniam pessoas preocupadas umas com as outras, driblando heroicamente um  precioso tempo pra se visitarem, se abraçarem e se aproximarem. Foi prazeroso imaginar o som de telefones tocando. Emocionei-me ao recordar lágrimas, surpresas e risos ao se ouvir, do outro lado da linha, a voz de alguém amado e distante. E alegrei-me por relembrar que, no final das contas, a saudade doída e desmedida, era sempre nocauteada pelo simples perguntar:  “ Alô, tudo bem?”.


Imaginei estas cenas num mundo mais sentimental, mais romântico, sem internet, sem e-mails e sem qualquer mecanismo artificial  pra se dialogar. Imaginei sentimentos fora dos aplicativos, fora das redes sociais e aconchegadamente apoiado em atitudes afetuosas. Certamente  os afagos  seriam  mais concretos, palpáveis, presentes e muito mais gratificantes. Imaginei um mundo sem teclados, sem editor de textos e sem  os lúdicos e padronizados “emotions”.  Imaginei, imaginei até que, de repente, um sinal no meu aparelho mostrou entrada de novas mensagens.
E lá fui eu checar meus recados... Virtualmente lindos, mas que, cada vez mais, atestam o quanto estamos  excessivamente ocupados com tecnologias e dispersos ao extremo  para  gestos mais humanos e profundos.

Fatima Chiati



Leia outras matérias desta seção
 » A Semana Santa na Vila Leão
 » Religiosidade e religião de amor
 » Caminhar é preciso
 » Recordações da Av. dos Estudantes
 » Os gênios do Colégio Walter Weiszflog
 » Fragilidades de todos nós
 » As mentiras na Internet
 » Reverências aos nossos amores
 » O amor fora do ar
 » Amor, política e relacionamentos
 » As históricas enchentes de Caieiras
 » Homenagem às mulheres
 » Algo mais
 » Trégua de Natal
 » Atitudes de autoajuda
 » O dia de finados
 » Mãe é aquela que cria
 » A internet não esquece
 » Capelinha da Vila Leão
 » Benzedeiros e benzeduras

Voltar