» Colunas » Editorial

27/08/2010
E agora embaixador Didi Mocó, sai dessa, se puder!

O texto que eu gostaria de ter escrito


Querido Didi,

Há alguns meses você vem me escrevendo pedindo uma doação mensal para
enfrentar alguns problemas que comprometem o presente e o futuro de muitas
crianças brasileiras. Eu não respondi aos seus apelos (apesar de ter gostado
do lápis e das etiquetas com meu Nome para colar nas correspondências)...

Achei que as cartas não deveriam ser endereçadas a mim. Agora, novamente,
você me escreve preocupado por eu não ter atendido as suas solicitações.

Diante de sua insistência, me senti na obrigação de parar tudo e te escrever
uma resposta.
Não foi por "algum" motivo que não fiz a doação em dinheiro solicitada por
você. São vários os motivos que me levam a não participar de sua campanha
altruísta (se eu quisesse poderia escrever umas dez páginas sobre esses
motivos).

Você diz, em sua última Carta, que enquanto eu a estivesse lendo, uma
criança estaria perdendo a chance de se desenvolver e aprender pela falta de
investimentos em sua formação.

Didi, não tente me fazer sentir culpada. Essa jogada publicitária eu conheço
muito bem. Esse tipo de texto apelativo pode funcionar com muitas pessoas
mas, comigo não.

Eu não sou ministra da educação, não ordeno e nem priorizo as despesas das
escolas e nem posso obrigar o filho do vizinho a freqüentar as salas de
aula.

A minha parte eu já venho fazendo desde os 11 anos quando comecei a
trabalhar na roça para ajudar meus pais no sustento da minha família.
Trabalhei muito e, te garanto, trabalho não mata ninguém. Muito pelo
contrário, faz bem! Estudei na escola da zona rural, fiz Supletivo, estudei
à distância e muito antes de ser jornalista e publicitária eu já era uma
micro empresária.

Didi, talvez você não tenha noção do quanto o Governo Federal tira do nosso
suor para manter a saúde, a educação, a segurança e tudo o mais que o povo
brasileiro precisa. Os impostos são muito altos! Sem falar dos Impostos
embutidos em cada alimento, em cada produto ou serviço que preciso comprar
para o sustento e sobrevivência da minha família.
Eu já pago pela educação duas vezes: pago pela educação na escola pública,
através dos impostos, e na escola particular, mensalmente, porque a escola
pública não atende com o ensino de qualidade que, acredito, meus dois filhos
merecem.

Não acho louvável recorrer à sociedade para resolver um problema que nem
deveria existir pelo volume de dinheiro arrecadado em nome da educação e de
tantos outros problemas sociais.

O que está acontecendo, meu caro Didi, é que os administradores, dessa
dinheirama toda, não têm a educação como prioridade. Pois a educação tira a
subserviência e esse fato, por si só não interessa aos políticos no poder.
Por isso, o dinheiro está saindo pelo ralo, estão jogando fora, ou aplicando
muito mal.

Para você ter uma idéia, na minha cidade, cada alimentação de um presidiário
custa para os cofres públicos R$ 3,82 (três reais e oitenta e dois centavos)
enquanto que a merenda de uma criança na escola pública custa R$ 0,20 (vinte
centavos)!

O governo precisa rever suas prioridades, você não concorda? Você pode
ajudar a mudar isso! Não acha?

Você diz em sua Carta que não dá para aceitar que um brasileiro se torne
adulto sem compreender um texto simples ou conseguir fazer uma conta de
matemática. Concordo com você. É por isso que sua Carta não deveria ser
endereçada à minha pessoa.

Deveria se endereçada ao Presidente da República. Ele é "o cara"

Ele tem a chave do Cofre e a vontade política para aplicar os recursos.

Eu e mais milhares de pessoas só colocamos o dinheiro lá para que ele faça o
que for necessário para melhorar a qualidade de vida das pessoas do país,
sem nenhum tipo de distinção ou discriminação. Mas, infelizmente, não é o
que acontece...

No último parágrafo da sua Carta, mais uma vez, você joga a responsabilidade
para cima de mim dizendo que as crianças precisam da "minha" doação, que a
"minha" doação faz toda a diferença. Lamento discordar de você Didi. Com o
valor da doação mínima, de R$ 15,00, eu posso comprar 12 quilos de arroz
para alimentar minha família por um mês ou posso comprar pão para o café da
manhã por 10 dias.

Didi, você pode até me chamar de muquirana, não me importo, mas R$ 15,00 eu
não vou doar. Minha doação mensal já é muito grande. Se você não sabe, eu
faço doações mensais de 27,5% de tudo o que ganho.

Isso significa que o governo leva mais de um terço de tudo que eu recebo e
posso te garantir que essa grana, se ficasse comigo, seria muito melhor
aplicada na qualidade de vida da minha família.

Você sabia que para pagar os impostos eu tenho que dizer não para quase tudo
que meus filhos querem ou precisam? Meu filho de 12 anos quer praticar tênis
e eu não posso pagar as aulas que são caras demais para nosso padrão de
vida. Você acha isso justo? Acredito que não.

Você é um homem de bom senso e saberá entender os meus motivos para não
colaborar com sua campanha pela educação brasileira.

Outra coisa Didi, mande uma Carta para o Presidente pedindo para ele
selecionar melhor os ministros e professores das escolas públicas. Só
escolher quem, de fato, tem vocação para ser ministro e para o ensino.
Melhorar os salários, desses profissionais, também funciona para que eles
tomem gosto pela profissão e vistam, de fato, a camisa da educação. Peça
para ele, também, fazer escolas de horário integral, escolas em que as
crianças possam além de ler, escrever e fazer contas possa desenvolver dons
artísticos, esportivos e habilidades profissionais. Dinheiro para isso tem
sim! Diga para ele priorizar a educação e utilizar melhor os recursos.

Bem, você assina suas cartas com o pomposo título de Embaixador Especial do
Unicef para Crianças Brasileiras e eu vou me despedindo assinando...

Eliane Sinhasique - Mantenedora Principal dos Dois Filhos que Pari.

P.S.: Não me mande outra carta pedindo dinheiro.
Se você mandar, serei obrigada a ser mal-educada: vou rasgá-la antes de
abrir.

Fiquem sabendo, as organizações Globo entregam todo o dinheiro arrecadado à
UNICEF e recebem um recibo do valor para dedução do seu imposto de renda.
Para vocês a Rede Globo anuncia: essa doação não poderá ser deduzida do seu
imposto de renda, porque é ela quem o faz. Está mais do que na hora da Globo
e da Unicef levarem a público, balanço detalhado desse programa, inclusive quanto
custa para êles colocarem todo o seu aparato para a realização do evento, se for por
filantropia unicamente, que o Roberto Marinho seja canonizado.

Texto coletado na Net , sem garantia que a Eliane exista, mas se não existir é a
expressão legítima de milhões de mães brasileiras.

edson navarro

Leia outras matérias desta seção
 » Tribunal de Contas x Prefeitura
 » Tribunal de Contas age e breca licitação
 » Homenagem a Lei Anticorrupção
 » O mundo mudou, os políticos não!
 » 9 de Julho: a vitória política
 » PROERD da Polícia Militar
 » Resposta ao meu amigo Osvaldo
 » Lixão: Vox Populi Vox Dei
 » Ampliação do lixão, vale a pena lutar contra ?
 » Colecionando improbidade administrativa
 » Como afastar um Prefeito
 » O Jornalismo
 » Caieiras um Município Carente na TV
 » ITBI não sobe e Lei tem falha
 » Carnaval ainda é cultura popular?
 » Favor não alegar ignorância
 » O Mar de cocô
 » Caieiras homenageia República de Nagorno que não existe
 » Aprendam políticos e advogados
 » O polêmico decreto sobre armas de fogo



Voltar