Crônica: Almeida

Ele, Júlio Carlos Almeida, o Almeida, companheiro de todas as mulheres do bairro, mesmo sendo casado; e freqüentador de todos os bares da vila. Fumava que dava medo, cerca de três maços por dia, não esquecendo dos acessos de tosses durante a noite.
Sua mulher Arlinda da Silva, já se conformava, um dia já chorou muito, mas hoje já está acostumada, seus filhos já estão no colegial, não tem mais com o que se preocupar.
Ninguém da família desprezava o Almeida, mas era aquela coisa: “Mantenha Distância”. Aliás, quando ele chegava bêbado todos direcionavam os olhos pra ele e pensavam: “Nossa, ele se acaba”.
E um dia ele se acabou, quer dizer quase. Foi numa noite mais ou menos as três horas da madrugada. O Almeida começou a ter o seu primeiro acesso de tosse da noite (em média eram cinco), mas o esquisito era que ele tossiu diferente, com um som de um rádio não sintonizado, levantou-se da cama (ninguém sabe pra quê, mas suponhamos que fosse para ir ao banheiro) e sussurrou:
- Arlinda...Arlinda!
Caiu duro no chão.

 
 

* * *
Na manhã seguinte, quando Arlinda foi levantar, viu o Almeida no chão, chamou a ambulância.
Em meia hora Arlinda e Almeida já estavam no hospital, melhor esclarecendo na U.T.I. do hospital. O médico responsável pelo Almeida, aparece de uma porta em direção à Arlinda:
- Ele é um caso grave – fez silêncio – Teve um traumatismo craniano. E o que complica é a sua insuficiência respiratória, está respirando por aparelhos, sua pressão está baixa e... e ele perdeu uma parte da memória. Seu estado de saúde é delicado.
Arlinda não agüentou caiu no choro, o seu Almeidinha que tanto a amava (com todo o respeito) ali... numa cama, esperando a morte vir e levá-lo aos quarenta e dois anos.
- Me acompanhe, por favor! – O médico a abraçou levando-a para trás da porta, que enunciava: ”Proibida a entrada de pessoas não autorizadas”.
Arlinda estava sentada numa cadeira ao lado do leito do seu Almeidinha. Ele acordou, olhou pra ela assustado:
- Maria, há quanto tempo? Lembra? Nos conhecemos na “Gafieira do Paulão”.

 

Arlinda não agüentou, achou que aquilo era demais. Depois de doente, conseguia lembrar-se de suas amantes e menos dela. Sacou sua bolsa e atirou na cara dele. Ele morreu.

 

Jonathas Lima Soler

Leia outras matérias desta seção
 » Camões carente
 » Homenagem aos atletas e aos Jogos Regionais
 » Crônica: Abstrato
 » Crônica: Aleatoriamente Amor
 » Crônica: Ilusão
 » Crônica: Anseio
 » Crônica: O tempo do próprio tempo
 » Crônica: Obrigada
 » Crônica: Inexplicavelmente Real
 » Crônica: O Crime não compensa
 » Crônica: Almeida
 » Crônica: A Volta do Almeida
 » Fé no Brasil
 » País emburrecido
 » Dicionário
 » Eco da Vida
 » Curiosidades acontecidas
 » Brasil e o mundo podem prejudicar a sua saúde
 » Frases
 » A vida hoje
 » Filhos
 » Anos Rebeldes
 » Conto: O Homem que não existia
 » Conto: Desodorante
 » Conto: O Cão e a Roda

Voltar