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28/04/2010
Avanços na Cura de Complicações do Diabetes

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Avanços na Cura de Complicações do Diabetes
23/4/2010 - Correio Braziliense

Márcia Neri
A retinopatia diabética (RD) é uma das grandes preocupações de oftalmologistas em relação aos males causados pelo diabetes melito, doença metabólica caracterizada pela hiperglicemia, que compromete órgãos como o coração, os rins, os vasos sanguíneos e os olhos. A RD é a principal causa de cegueira em pessoas com idade entre 20 e 74 anos nos Estados Unidos. Embora não existam estudos que apontem a prevalência do problema no Brasil, especialistas estimam que o mal atinja pelo menos 2 milhões de brasileiros. A Organização Mundial da Saúde (OMS) calcula que a mazela ganhará maiores proporções nas próximas duas décadas. O número de diabéticos tende a aumentar de 250 milhões em todo o planeta para 380 milhões em 2025.

A retinopatia diabética ocorre quando o excesso de açúcar no sangue danifica os minúsculos vasos sanguíneos dentro da retina — tecido sensível à luz situado na parte posterior do globo ocular. Essa alteração impede a nitidez da visão. As chances de os diabéticos desenvolverem a retinopatia aumentam com o passar do tempo, principalmente quando exames oftalmológicos periódicos são negligenciados. Dados do Ministério da Saúde revelam que a RD compromete a visão de 99% dos pacientes que sofrem com o diabetes melito tipo1 há mais de duas décadas . Quando o diabetes é do tipo 2, após o mesmo período, 60% dos pacientes têm a vista comprometida.

Atualmente, é possível tratar a RD com a fotocoagulação a laser ou com cirurgia, em casos mais avançados. As duas terapias impedem o avanço da doença nos olhos, mas não recuperam a visão perdida. Um estudo em andamento na Escola de Medicina da Johns Hopkins University, em Baltimore, nos Estados Unidos, tem mostrado que uma nova opção de tratamento poderá, em breve, trazer mais benefícios aos que perderam parte da visão em decorrência do edema macular — inclusive a recuperação da capacidade de enxergar.

Resultados preliminares do trabalho serão apresentados no 35º Congresso da Sociedade Brasileira de Retina e Vítreo — que ocorre até amanhã, em São Paulo —, pelo retinólogo americano Quan Dong Nguyen. Considerado um dos maiores pesquisadores no campo das patologias que afetam a retina, o especialista adiantou ao Correio informações importantes que compartilhará com colegas brasileiros. O oftalmologista Arnaldo Bordon, médico do Departamento de Oftalmologia da Escola Paulista de Medicina/Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e chefe do setor de retina e vítreo do Hospital Oftalmológico de Sorocaba (SP) avalia a pesquisa. Segundo o especialista brasileiro, o estudo promete revolucionar o tratamento do edema macular, dano provocado pela retinopatia diabética.

Entrevista Quan Dong Nguyen

Nas últimas décadas, quais foram as principais descobertas relacionadas ao tratamento da retinopatia diabética?
Na década de 1980, estudos demonstraram que o tratamento precoce da retinopatia diabética com a fotocoagulação a laser minimizava o risco de perda visual total. No entanto, na maioria das vezes, o tratamento a laser não conduzia a uma melhora na acuidade visual. De 1990 a 2000, o uso de esteroides intraoculares promoveu uma recuperação temporária da visão perdida. Mas, além de não oferecer uma melhora duradoura, o medicamento ainda provocava efeitos colaterais, como a catarata e a hipertensão ocular. Convivíamos com a frustração do paciente e passamos a procurar melhores opções.

Os estudos clínicos conduzidos pelo senhor e por sua equipe têm mostrado que um novo tratamento do edema macular decorrente da retinopatia diabética poderá proporcionar resultados animadores aos pacientes.
Qual a grande novidade?
O trabalho da equipe do Vitreoretinal Clinical Trial Unit, no Wilmer Eye Institute da Johns Hopkins University, batizado de READ-2, mostrou que o crescimento vascular endotelial é um estímulo determinante para o edema macular diabético, condição que acomete grande parte dos pacientes com RD. Ao constatar esse fato, acredito que lançamos bases para trazer, em pouco tempo, uma nova abordagem para o tratamento. Estamos certos de que um agente farmacológico conhecido como ranibizumab promove uma bioatividade extremamente benéfica no edema macular, resultando em considerável melhora ou recuperação da visão perdida. Posterior ao nosso trabalho, um estudo conduzido na Europa também demonstrou resultados consistentes com as injeções intravítreas do ranibizumab.

Como foi possível chegar a essa conclusão?
O estudo ainda está em curso e terá duração de três anos. Nosso objetivo era comparar o tratamento convencional, que é a fotocoagulação, com o uso do ranibizumab. Trabalhamos com três grupos de pacientes. No primeiro, usamos a nova medicação. No segundo, aplicamos apenas o laser e, no terceiro, fizemos uma associação das duas abordagens. Os resultados preliminares foram apurados nos primeiros seis meses do trabalho, no segundo semestre de 2009. Constatamos que o grupo de pacientes que recebeu apenas a medicação ranibizumab, aplicada na cavidade ocular, teve resultados extremamente melhores em relação à recuperação da visão do que os outros dois grupos testados.

Essa substância representa, então, uma verdadeira esperança àqueles que perderam a visão por conta do edema macular diabético?
É o que estamos avaliando. Os resultados preliminares são animadores e provam que sim. A fotocoagulação a laser preserva a visão de pacientes vítimas da retinopatia diabética, à medida que impede a progressão da cegueira, mas é limitada em relação ao ganho visual. Tanto o READ-2 quanto o estudo europeu que mencionei já mostraram que injeções intravítreas de ranibizumab podem levar a uma melhora na acuidade visual e na espessura da retina, revertendo, assim, a perda da visão. Tudo indica que os agentes farmacológicos antagonistas ao fator de crescimento endotelial vascular têm propriedades para restaurar a visão perdida.

No Brasil, a retinopatia diabética é responsável por cerca de 8% de incapacidade para o trabalho e aposentadoria precoce. Como está essa realidade nos países desenvolvidos?
A perda visual por retinopatia diabética tem um tremendo impacto sobre a sociedade, porque é a causa mais frequente de baixa visão na população ativa dos países desenvolvidos. Em 2025, mais de 300 milhões de pessoas em todo o planeta serão portadoras do diabetes. O edema macular diabético é a causa mais comum de perda de visão moderada. Sua prevalência na população diabética é estimada entre 10% e 25%, sendo mais acentuada em pacientes com retinopatia mais grave. É algo muito considerável, que afeta milhares de pessoas tanto nos países desenvolvidos quanto naqueles em desenvolvimento, como o Brasil.

Quais as principais dificuldades relacionadas ao tratamento da retinopatia diabética nos EUA?
Pacientes com RD nos Estados Unidos são contemplados com muitas opções terapêuticas disponíveis. Eles podem receber fotocoagulação a laser, diversos tipos de esteroides perioculares ou intraoculares e ainda as variações dos antagonistas do fator de crescimento vascular endotelial, como o ranibizumab e bevacizumab. A combinação dessas terapias amplia ainda mais o leque de alternativas. Além disso, temos novos ensaios clínicos que investigam agentes terapêuticos potenciais, principalmente quando o edema macular diabético não responde as opções convencionais disponíveis pelos cuidados clínicos padrões. No entanto, a variedade de opções de tratamento, por vezes, traz desafios para pacientes e médicos, obrigando-os a perder algum tempo para analisar cuidadosamente as vantagens e desvantagens de cada tratamento.

» Expectativa “muito favorável”
U.F.S.P/Divulgação


O oftalmologista Arnaldo Bordon, médico do Departamento de Oftalmologia da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e chefe do Setor de Retina e Vítreo do Hospital Oftalmológico de Sorocaba (SP), avalia que o estudo em andamento nos Estados Unidos promete revolucionar o tratamento do edema macular, dano provocado pela retinopatia diabética. “A expectativa é muito favorável. Pela primeira vez, temos resultados que indicam alento àqueles que já perderam parte da visão em decorrência do inchaço na mácula provocado pelo diabetes”, enfatiza. O ranibizumab atua na porção vascular atingida pela patologia crônica, proporcionando uma recuperação das células e da visão.

Bordon observa que estudos brasileiros revelam que 8% da população no país desenvolve a retinopatia diabética. “O excesso de açúcar em circulação no organismo também atinge os olhos, em particular a retina. Isso desencadeia uma alteração nos vasos, fazendo com que a RD se instale. Um em cada quatro diabéticos sofre com o edema macular, desdobramento da retinopatia”, detalha. O problema é que não há sintomas no começo da doença. Quando o paciente nota o comprometimento da visão, a RD já está em fase mais avançada, fator que dificulta a terapia. “Geralmente, dividimos a RD em dois grupos: o edema macular — que é o comprometimento da área central ou foco da visão e o estudo americano trata exatamente desse tipo de problema — e a retinopatia diabética em si — quando o resto da retina é comprometido”, acrescenta.

A fase do diabetes no olho determina o tipo de tratamento. A fotocoagulação é usada para a maioria dos casos, exceto naqueles em que o paciente chega ao especialista com a patologia em estado muito avançado. Para esse extremo, é indicada a cirurgia, cujo resultado nem sempre é satisfatório. As duas técnicas realmente impedem a progressão da perda visual, mas não recuperam o que foi perdido. A fotocoagulação é usada desde a década de 1980 e está disponível para os pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil.

Bordon considera que é preciso melhorar a informação ao paciente no Brasil. “Eles precisam entender que o diabetes é uma doença crônica que afeta várias partes do corpo. O problema demanda pelo menos uma visita anual ao oftalmologista para a realização do exame de fundo de olho. Acredito que esse estudo trará boas novas aos diabéticos. Em dois ou três anos, no máximo, passaremos a usar essa nova injeção”, espera.




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