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27/01/2022
Vacinas com vírus desativados protegem mais

Instituto Butantã - São Paulo

Países que optaram por vacinas de vírus inativado, como CoronaVac, estão mais protegidos contra variantes do SARS-CoV-2, aponta estudo espanhol.

Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Barcelona, na Espanha, concluiu que vacinas contra a Covid-19 elaboradas com vírus inativado, como é caso da CoronaVac vacina do Butantan e da farmacêutica chinesa Sinovac, conferem maior eficácia no médio e no longo prazo no controle da pandemia, na comparação com imunizantes feitos com outras tecnologias, devido a seu desempenho diante das variantes do vírus SARS-CoV-2.

Segundo Joan Serrano-Marín e Rafael Franco, autores do artigo “Two urgent needs in the battle against COVID-19: a classic-type vaccine and specific medication”, publicado na plataforma de preprints OSF, as novas tecnologias de vacinas desenvolvidas em ritmo emergencial para o combate à pandemia, como RNA mensageiro e vetor viral de adenovírus, podem conferir proteção elevada frente à cepa original do SARS-CoV-2, mas tendem a perder eficácia à medida que vão emergindo novas variantes.

“As vacinas clássicas, como a CoronaVac, promovem a geração de um repertório mais amplo de anticorpos e respostas celulares. Ou seja, elas nos permitem neutralizar o vírus seguindo estratégias mais diversas. Prova disso é a situação positiva que vivem países como Chile, China e Uruguai, onde a principal vacina utilizada tem sido a CoronaVac”, explicam Joan e Rafael em entrevista exclusiva para o Portal do Butantan.

Os imunizantes de vírus inativado contêm todas as partes do vírus morto. Isso pode gerar uma resposta imune mais abrangente que as das vacinas de RNA mensageiro ou que usam adenovírus como vetor viral, já que elas utilizam somente uma parte da proteína Spike (utilizada pelo SARS-CoV-2 para infectar as células).

O artigo sugere que a reinfecção e o colapso dos sistemas de saúde podem ocorrer em países que usam as vacinas de RNA mensageiro ou de adenovírus, embora a porcentagem da população vacinada seja alta – assim como aconteceu em Israel. A mesma tendência, ou seja, novas ondas pandêmicas após a vacinação em massa com vacinas de RNA/adenovírus, estaria sendo vista, de acordo com os pesquisadores, em vários países europeus e nos Estados Unidos.

“A carga viral da variante delta é muito alta para vacinados e não vacinados. Em outras palavras, os vacinados continuarão infectando os vacinados e os não vacinados. A imunidade de rebanho, em termos gerais, é alcançada quando o número médio de infectados infecta menos de uma pessoa por infectado. Ou seja, é preciso reduzir drasticamente a transmissão. Conforme indicam os cálculos realizados, para o mesmo percentual de vacinados, a transmissão é extremamente menor nos países que utilizaram a CoronaVac como vacina principal”, complementam Joan e Rafael.

Desempenho das vacinas de vírus inativado

Países como Estados Unidos, Israel e Reino Unido têm enfrentado um recrudescimento no número de casos de Covid-19, apesar dos altos índices de vacinação. O motivo é a chegada da variante delta (B.1.617.2, indiana), mais transmissível. É uma tendência oposta ao que se observa no Chile, Uruguai e China, que usaram a CoronaVac como principal imunizante.

Nos casos do Uruguai e do Chile, o aumento da porcentagem de vacinação da população com CoronaVac levou a uma redução considerável na proporção de novos casos. Em relação à China, os cientistas ressalvam que nem os aumentos nem as quedas são significativos, pois o total de 2.021 casos, medido por milhão de habitantes, é insignificante na comparação com os outros países (cinco novos casos por milhão de habitantes na China, contra 65.543 em Israel ou 53.200 nos Estados Unidos).

Para os pesquisadores, a administração da CoronaVac e outros imunizantes de vírus inativado é altamente desejável para a obtenção da imunidade coletiva devido ao amplo espectro de anticorpos que elas geram nos indivíduos vacinados, incluindo uma maior diversidade e quantidade de anticorpos neutralizantes e não neutralizantes, e sua maior capacidade de responder às possíveis mutações ou deriva genética de todas as proteínas do SARS-CoV-2.

“O maior número de estratégias imunológicas que as vacinas tradicionais induzem se deve principalmente ao fato de que, partindo do vírus completo, no caso da CoronaVac, o sistema imunológico é capaz de induzir um maior repertório de respostas, tornando esse processo mais eficaz. Isto não acontece com as vacinas modernas, de RNA mensageiro ou de adenovírus, todas elas concebidas para focar sua ação em única proteína do coronavírus, a proteína S, que também pode sofrer mutação quando o vírus sofre mutação”, resumem Joan e Rafael.

Como funcionam as vacinas de vírus inativado

Cada dose de vacina de vírus inativado, cuja tecnologia é conhecida há mais de um século, é composta por trilhões de partículas do vírus em questão. Por serem inativadas, tais partículas são incapazes de provocar a doença em quem recebe o imunizante. Sua função é outra: estimular o sistema imune a reconhecer o vírus assim que entrar em contato com ele.

Como a CoronaVac contém o vírus SARS-CoV-2 inteiro inativado, o sistema imune produz anticorpos que reconhecem muitos antígenos (proteínas) do novo coronavírus. A proteína S é a principal delas, usada pelo SARS-CoV-2 para penetrar nas células humanas, mas não a única. O coronavírus conta ao todo com 29 proteínas, em sua grande maioria responsáveis por regular a multiplicação e a saída do vírus das células humanas. Sendo assim, uma variante que apresenta alteração da proteína S (mutação) deixa de ser reconhecida por vacinas específicas contendo somente a proteína S.

As vacinas modernas foram concebidas de modo a conferir ao sistema imune a habilidade de identificar a proteína S, estimulando assim a produção de anticorpos neutralizantes, que são as principais armas do nosso organismo no combate ao vírus. Já vacinas de modelo tradicional, como a CoronaVac, por conter o vírus inteiro, são capazes de estimular o sistema imune a reconhecer em maior ou menor grau todas as proteínas, disparando a produção tanto de anticorpos neutralizantes da proteína S, quanto de diversos outros relacionados às demais proteínas do arsenal viral.

*Este texto é uma colaboração do jornalista científico Peter Moon para o portal do Butantan

Estudo publicado em Novembro de 2021


Instituto Butantã

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