03/03/2022
Eu acendi uma vela na mesa da sala de jantar.

Seu olor de baunilha logo começou a se expandir entre minhas narinas.

Sentei numa cadeira que costumo deixar no canto, com uma echarpe que geralmente aquece o frio de minha alma, quando vejo o mundo nu e cru. Cruel.

Coloquei meus óculos e percebi que não podia enxergar a chama, ainda que meu olhar estivesse à altura da flama tímida.

Fechei os olhos.

Tirei os óculos e tentei agarrar alguma palavra dentro de meu corpo que pudesse representar estes momentos em que nenhuma expressão é suficiente para frear a tristeza, a desesperança, a frustração.

Elas moviam-se desconexas, em velocidade acelerada, descompassadas.

Apertei a têmpora e encolhi o rosto reprimindo as imagens dos últimos acontecimentos no mundo.

Como fazer diferente? 

Repetir a narrativa dos olhos desesperados do mundo? 

Ser mais uma - apenas?

Como protestar a revolta, a indignação, sem repetir o que estamos exauridos de conhecer?

A derrota desgovernada galopou pisoteando meus  sentimentos de fé.

Abri meus olhos e a chama estava translúcida, intensa e totalmente aparente.

Entendi que o que Eu posso fazer é pouquíssimo ante a gravidade e magnitude das últimas tragédias.

Mas não desistir.

Quem sabe  abrindo a porta do  coração para que estas emoções encontrem tantos outros corações consigamos rezar, orar, pedir, implorar aos céus, aos deuses, ao Universo que despertem, iluminem o caminho de pedras, escurecido pelo descaso, pela  maldade, pelo egoísmo, pela ambição. 

Que guiem nossos irmãos, nossos semelhantes, a uma porta, uma janela, uma brecha que caiba um corpo, uma saída para a luz.

A sensação que tem norteado nossos dias cada vez que uma sequência de desgraças, trágicos eventos, iminentes e eminentes é que estamos perdendo existência na caridade, no amor.

É que fazemos sombra quanto mais tentamos nos reunir em massa contra as injustiças, os desafetos, as calamidades maculadas pela mão do homem.

Que nossa indignação seja maior que nosso medo.

Quiçá um coro silencioso e uníssono do mundo das almas, fazendo eco a estas vítimas perdidas e por perder-se, nestes buracos de horror que se abrem constantemente da superfície até as entranhas da Terra, seja ouvido por algo próximo a salvação da humanidade.

É assim que a vergonha da fome, da miséria, da escassez de um pedaço de pão, da falta de tanto vai crescendo e deixando rastros pelos rincões deste aglomerado de  perdas.

É na timidez da decência que os horrores também crescem e multiplicam-se devastadoramente.

E é neste cenário de calabouços que como resistência, por muitas vezes,  na voz dos leigos, dos desprotegidos, dos excluídos, marginalizados, esquecidos,  a esperança encontra o calor para seguir viva. 

Há quem possa mover mais multidões, fazer chegar comida à fome, água aos sedentos, roupa aos desnudos, remédio aos doentes, afeto aos rejeitados. 

Há sim quem possa boicotar mentes enfermas, fechar fronteiras, governar nos ditames da integridade.

E há tantos de nós que temos pouco para conter a enxurrada de mazelas que afoga a decência na civilização.

Não queremos que o mundo precise de mais heróis. 

Queremos um mundo em que o compromisso seja com uma vida digna.

Queremos paz.

Queremos casas seguras.

Queremos florestas aquecidas pelo suor que corre nos corpos transbordando nas festas de primavera, verão, outono e inverno. 

Queremos ser donos de nossos corpos, queremos ser ouvidos.

Queremos acordar com sussurrar dos ventos que abanam as árvores, e  não sirenes de emergência.

Queremos as luzes da lua como iluminação desta grande peça. 

Não as luzes vermelhas das ambulâncias, dos caminhões de bombeiro, de situações críticas, pois estas nos cegam.

Acho que somos muitos.

Somos muitos e estamos morrendo sufocados por lama, escravizados em indústrias de produção de consumo (não importa o que, há que consumir).

Estimulamos o sweatshop.

Nossas crianças estão definhando em campos de trabalho, em lixeiras, dentro de nossa sociedade, vitimizadas por todo tipo de abuso, estão sendo arremessadas de arranha-céu, torturadas pela hediondez comportamental de monstros.

Nossas crianças são roubadas, largadas, amedrontadas.

Lutamos por saude!

Sim, somos muitos… mas inseguros, aplastados pelo sistema da "resignação a insignificância". Sem lugar para aportar.

Meros espectadores de mandos e desmandos. Cumpridores fiéis dos desígnios de algo ou alguém. 

Ridicularizados pela pequenez de nossas aspirações. Fantoches porcamente adornados para um espetáculo de quinta numa segunda feira mal dormida.

É bem possível que a descrença nos torne todos estes adjetivos, se não reagirmos.

Apoie causas que inspiram, reúna os vizinhos para falar do lixo jogado, ensine o futuro motorista que não há um minutinho teclando, que os cintos de segurança não são enfeites. 

Invista tempo ouvindo as futuras gerações, doe livros, debata sobre a pobreza, a economia, a política. Ou escute e aprenda. 

Vamos ao basico.

Porque há um monte de indignados que nada fazem, nossos guerreiros de hashtags. 

Muitas gerações chegaram ao futuro, este aqui e agora. 

Tantas outras trabalham para chegar mais além.

E se já pensamos em exploração de mineral no espaço, em planetas de fuga, e quase tocamos uma ou outra constelação, ainda não ensinamos homens a serem grandes homens…..

Não ensinamos e não aprendemos.

Chegamos ao nosso futuro?

Mas ainda há guerra, segregação, disputa por terras, e ainda erramos sequencialmente no julgamento de nossos governantes. 

O mundo erra!

Não dá para voltar ao passado.

Convido você para ler meu próximo artigo.


Daniele de Cassia Rotundo



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