20/12/05
Água Envenenada

Depois de muito tempo na mata convivendo com os índios, um homem voltou para sua cidade.
Numa noite, ele teve um sonho quando lhe apareceu um anjo prevenindo-o que a água daquela cidade estava envenenada e seus habitantes estavam enlouquecendo.
Sugestionado e apavorado pelo sonho, nos dias seguintes ele misturou-se com a população, atento a tudo que via e ouvia, para constatar a veracidade daquele sonho premonitório. Estarrecido, ele assistiu a tantas distorções dos valores da vida. Vítimas das promulgações divulgadas, o povo enfileirava-se para participar das jogatinas legalizadas pelo governo. O ar estava irrespirável por bafo de cerveja. Muitas mulheres estavam masculinizadas, trajando-se como homens, copiando seus hábitos e vulgarizando-se.
Alguns homens, além dos cabelos longos e penteados com os chamados rabos de cavalo—que gracinha—usavam brinco numa das orelhas.
Num filme nacional, horrorizado, ele assistiu um atorzinho inconsequente, inconsciente das possíveis consequências ao sujeitar-se a ser amante da própria filha
Vendo o acesso às conduções –os trens por exemplo—aquilo lhe pareceu um debandar de cavalos.
Dia e noite, o convívio familiar era interrompido por pedintes mal educados e até exigentes.
Legalizados e localizados entre residências, alguns butecos davam guarida à desclassificados que atemorizavam os moradores das imediações quando exteriorizavam suas bestialidades congênitas.
Pelos absurdos e pela postura passiva e omissa dos habitantes tradicionais daquela cidade, como sendo coniventes com o que ocorria, isso, decepcionou aquele homem que para aquela cidade voltou.
Ainda mais quando ouviu a conversa de duas crianças. “A mamãe” disse uma delas “foi com papai no motel.”
Outras mães entregavam seus filhinhos para religiosos que lhes catequizavam com pedofilia.
Muitas crianças, facilitadas por greve escolar, viviam perdidas nas ilusões das diversões eletrônicas, que, por ironia, estavam instaladas próximas as escolas. Alguns jovens infernizavam a vida dos moradores com suas motocicletas barulhentas. Também, barulho insuportável era nos bailes de jovens, cujas bandas pareciam ter pacto com o demônio. Latidos de cachorros se ouvia de dia, de noite e pela madrugada, demonstrando assim, a inteligência dos seus donos.
Dissociadas dos valores reais, uma grande parcela da população, agrupava-se em torcidas organizadas de seus clubes e quando de seus egressos ou regressos das competições futebolísticas, a balbúrdia às vezes era acompanhada de vandalismo num “salve-se quem puder.”
Na televisão, as novelas pareciam ter um único intento: destruir o moral do povo a partir de sua célula—a família.
Entretanto, aturdido com aquela circunstância, aquele homem resolveu relatar tudo o que lhe havia sido revelado no sonho: a água envenenada e suas conseqüências.
Altruísta e solidário, acreditava naquela oportunidade como o cumprir de uma importante missão perante seus semelhantes, conscientizando-os sobre a calamidade a que estavam expostos.
Tanto falou, tanto alertou até que, tornou-se impertinente. Todos que ouviram-no falar da água imprópria para beber, pensaram que ele estava louco. No jardim de uma praça, abriram uma torneira d’água e forçaram-no a beber daquela água tanto repudiada por ele. A seguir, o efeito provocado pela água fê-lo exteriorizar-se assim:
--Calé a de vocêis! Chega de amassa amassa, soltem-me! Que bicho deu hoje? Quais foram os números da sena? Algum aposentado já desmaiou na fila de espera? Hoje minha irmã vai sair com uma mina que sustenta.
Meu irmão abandonou a minha cunhada e foi morar com um homem. Quando tem eleição? Eu quero votá eu quero votá. Meu avô toma viagra e ainda vai à zona. Tá passando Big Brodher na tv? Eu quero assistir. Eu preciso dar dízimo, como é que eu faço? Bebê mijo, cura mesmo alguma doença?
Então... todos aqueles que estavam à sua volta, assim se exclamaram: --Milagre! Milagre! Deu certo. Ele bebeu da nossa água e sarou. Viva! Deus se já louvada... aleluia, aleluia.

Altino Olímpio

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