20/12/05
Mundo Pequeno

As vinte e três horas; irrompeu a orquestração da música “fascinação” envolvendo num encantamento, todos os presentes daquele baile.
Ao atenuar do som, o apresentador da orquestra, elegantemente trajado, ao microfone anunciou: “Senhoras e senhores... com este prefixo musical, a orquestra Tamajoara lhes deseja um bom entretenimento. Desejamos através da música, acompanhá-los na descontração e embalar o extravasar de suas emoções”.
Nem terminou e os pares já dançavam preenchendo os espaços do luxuoso salão.
Sentados, separados pelas mesas ao derredor, um homem já na maturidade e uma jovem, quando seus olhos se fixaram, ambos se admiraram.
Com meneios e acenos ele convidou-a para dançar. Dançando, logo se sentiram envolvidos.
Harmônicos ao ritmo da melodia, floreceu-lhes a candura de sentimentos nobres, os mesmos perdurando nas seleções musicais seguintes.
Com corações a palpitar, ele sussurrou ao ouvido da jovem:
--No fim do baile teu pai virá te buscar? E ela respondeu:
--Não, não tenho pai, minha mãe virá me buscar.
A resposta dela reativou-lhe um antigo remorso. Do seu casamento ha muito tempo desfeito, desconhecia o destino da ex-esposa e de uma filha.
Essas tristes recordações foram se desvanecendo enquanto o tempo e as emoções foram se sucedendo. Numa pausa, no momento quando sozinha a bateria mantinha com seu rufar a cadência lenta da melodia anterior, o cantor da orquestra antecedendo-a, principiou a cantar:

“Quando eu estou aqui
Eu vivo esse momento lindo
Olhando pra você
E as mesmas emoções sentindo
São tantas já vividas
São momentos que eu não me esqueci
Detalhes de uma vida
Histórias que eu contei aqui”

Foi demais! Apertando a jovem nos braços, aspirando seu perfume, deslizando os lábios pela sua testa entre os cabelos esparsos e beijando-a, quase não resistiu ao impulso de declarar-se e dizer-lhe: “Gostei tanto de você, te quero, te quero!”
Felizmente não se declarou, mas, repercutia em sua mente o desejo de ficar a sós com a jovem, talvez num motel.
Pensando nesse propósito ele perguntou-lhe.
--Você tem condução para voltar para casa?
--Tenho, minha mãe vem me buscar, já te falei.
“Ainda bem” pensou ele “afinal não será como tem sido com tantas outras.”
Enamorados quando terminou o baile, sorridentes e de mãos dadas, seguindo o fluxo de todas as pessoas ao se retirarem do salão, na aglomeração junto a porta de saída , a jovem exclamou: --Veja! É minha mãe que veio buscar-me!
Quando a jovem ia preparar as apresentações... a mãe dela e aquele homem ficaram aturdidos instantaneamente, sem saberem o que fazer ou dizer e então:
--VOCÊ! MÃE DELA! ENTÃO... ELA É MINHA FILHA?
--NÃO! TUA NÃO! ELA É MINHA E SÓ MINHA FILHA!
--MÃE! MEU DEUS! O QUE ESTÁ ACONTECENDO? ELE É MEU PAI?
--NÃO, ELE É UM CANALHA, VAMOS EMBORA! AGORA!
--NÃO! POR FAVOR, ESPEREM. PRECISAMOS CONVERSAR.
A insistência foi inútil. Transpondo a porta para o páteo do estacionamento, sob os olhares curiosos dos participantes do baile, ele ainda tentou dialogar mas não conseguiu.
Cabisbaixo, entristecido acompanhou com o olhar a partida do carro que as levou daquele local.
Com lágrimas, recordações e remorsos, refletindo o que deveria ou não fazer depois daquele fato, sentado no para-choque do último carro ainda estacionado naquele solitário estacionamento, assim terminou o baile e a noite daquele homem.


Altino Olímpio

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