16/05/2006
Viver disperso

Sempre ao acordarmos nossa consciência retorna. Vendo ao redor tudo o que é familiar, ouvir ruídos próximos ou distantes e sentir algum aroma, isso tudo significa estarmos no nosso estado objetivo ou estado consciente. Pelo menos é o que pensamos.Estando “despertos” muitos pensamentos afloram na nossa mente. Se prestássemos mais atenção ao que pensamos, perceberíamos que grau de importância é dedicado à nossa vida. Poderíamos perceber como sempre nos ausentamos de nós mesmos, distraídos que ficamos nos pensamentos e eles nos levam para pessoas e locais onde são afins com elas e com eles.
Compromissos, problemas ou algo pendente demorando a ser resolvido, leva-nos para os pensamentos de atendê-los e enquanto estamos nesses pensamentos, mais somos eles do que nós mesmos, porque, absortos neles esquecemos nossa individualidade. Ela, vez ou outra ressurge interrompendo os pensamentos, nos devolvendo o agora da existência e a consciência de donde estamos e o que fazendo. De imediato, se quisermos, podemos sentir a diferença desses estados alternados da consciência de quando ela esteve distraída nos pensamentos e de quando ela retornou para o presente de donde estamos. Não habituados a essa percepção, no mais das vezes, não impedimos o dispêndio de tempo exagerado em manter pensamentos, eles sendo inúteis antes da ocasião de suas necessidades. Essa distração sempre está a impedir a percepção do sentir do fluir da vida e esse sentir é o nós sermos nós mesmos, nos momentos que nos pertencem, não sendo eles para as necessidades do depois ou vindouras.

No estado desperto, objetivo, continuamente estamos recebendo estímulos externos, mais pelos sentidos da visão e da audição. Também, recebemos estímulos da memória de fatos do passado que se reproduzem pelos nossos pensamentos e se intercalam com os pensamentos causados pelos estímulos externos. O que vemos e ouvimos sempre estão a ativar o mecanismo da memória e ela lança para a mente, lembranças do passado, correlatas ou relativas ao que provocaram os estímulos externos de visão e audição. Mesmo quando não existe correlação, nossos pensamentos se alternam (atendem) entre os lampejos provenientes da memória do momento e as percepções produzidas na visão ou audição.

Fácil de compreender vivemos divididos entre o presente e o passado. Difícil é manter a consciência atenta a essa alternação. Ela se perde entre o estado objetivo ---o estado presente aos estímulos externos--- e o estado subjetivo das lembranças do passado. Tornadas comuns, essas alternações de um estado a outro nos fazem acreditar que elas sejam tão naturais que, distraídos nos pensamentos, ora sobre os da memória, ora sobre os das sensações do momento em que estamos vivendo, nós, “imperceptíveis” nessas alternações não percebemos que ocultamos nossa individualidade ou identidade que jaz por detrás dos pensamentos causados pelos estímulos objetivos ou subjetivos. Quem consegue dispersar os pensamentos que não lhe convém, torna-se apto para os que lhe convém. Isto requer a prática de sempre manter a consciência focada na individualidade, independente das divagações que provocam os alternados estados objetivos para subjetivos e vice-versa. Nosso ”eu” sem se perder nessas circunstâncias, volta a ser íntegro para consolidar o sentir do fluir da vida, ela sendo tantas vezes despercebida.


Altino Olímpio

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