20/05/2007
E o filme era triste

Este fato teve como palco para o seu desenrolar, o Cine Marrocos da cidade de São Paulo.
Jovem e inexperiente ainda, torturado por uma desilusão amorosa, penetrei no cinema e o fiz no meio da sessão do filme.
Solitário, acomodei-me numa das poltronas vagas das últimas fileiras do cinema, onde mais isolado, pudesse encontrar algum lenitivo para minha desilusão.
Atento ao filme, contudo, percebi movimentos furtivos nas poltronas da frente, próximas e à minha direita.
Desviei minha atenção do filme admirando um casal na sua intimidade romântica e até senti inveja deles devido minha recente desilusão.
O lanterninha ali pelas proximidades intimidava-os, visto que, a vigilância quanto aos procedimentos considerados levianos naquela época era rígida. Com ele distante o casal retornava às carícias.
Foi-me perceptível um desabotoar de botões e imaginem só, aquele marmanjo desmamado debruçado naqueles morrinhos sobressalentes e empanturrando-se.
Ao acender das luzes quando terminou a sessão do filme, a surpresa arregalou-me os olhos: a dona dos morrinhos era recentemente casada e muito conhecida no bairro onde eu morava, mas, o marmanjo desmamado era-me desconhecido.
Com o reinício da sessão cinematográfica, aquela cena extra e imprópria para menores, recomeçou com o marmanjo novamente saciando-se.
Felizmente, as lembranças da minha desilusão, diante daquela visão contagiante... desapareceram.
Muito tempo passou e o implacável destino colocou-me também numa condição de desmamado, visto que, ficara viúvo. Um dia, participando duma festividade quando descontraído conversando com antigos conhecidos, vi a dona dos morrinhos e sua presença postou-me irrequieto.
As recordações vieram à tona e a imaginação apoderou-se do resto:
“Hum... até que ela ainda tem seus encantos. Hum... filha da mãe daquele marmanjo daquele dia no cinema”.
Mas a voz da consciência intrometeu-se e o diálogo interno foi mais ou menos assim:
“O meu! Pare com isso, tu sabes que ela é casada”.
“Hum... mas aqueles morrinhos quentes... ...”
“Mas eles já devem ter deslizado e estarem agora dependurados”.
“Hum... aqueles picos do Jaraguá...”
“Quepicoquepicaquenada! Seu burro, você está vesgo e passando a língua pelos lábios, não percebes?”
E“Madre mia! Gostaria de morrer assim, saciando-me como um marmanjo desmamado”. Bem! A consciência que se dane, vou aproximar-me dela, puxar conversa e depois de algum tempo, talvez assim seja nosso diálogo:
- A senhora gostaria de me ter ocasionalmente?
- O seu ca...
- Desculpe, desculpe! Expressei-me mal. A senhora gostaria de ter-me ocasionalmente para...
- ... nalha...ah bom! Mas sou casada você não sabe?
Finalmente a aproximação do marido matou minha imaginação. Conhecido e influente na região, ele apoiou o braço nos ombros da esposa e cumprimentou-me como querendo mesmo dizer: -Ela é minha mulher!
Sei sei! Mas aquele marmanjo desmamado.


Altino Olímpio

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