30/05/2016
Futebol com melancia

Há anos, uma vez por mês vou até um restaurante da Avenida Paulista de São Paulo para um almoço, reunido com a “Turma dos Mais de Cinquenta”. Depois de ter almoçado e saboreado várias sobremesas, como sempre, deixo pro fim degustar os pedaços de melancia. Sentado junto a mesa com amigas e amigos de ambos os lados e defronte, naquele tanto “zum zum” das conversas e risos, ao mirar “meus pedaços” de melancia no prato para degustá-los, uma forte lembrança se apoderou de meus pensamentos. “Aquele dia do meu primeiro pedaço de melancia...”

Quedei-me absorto inconsciente de tudo e de todos que estavam naquele ambiente. Distraído, mentalmente ausentei-me daquele lugar alegre e me vi distante, lá no passado criança, num dia de domingo, no clube de esportes do lugarzinho donde nasci e me criei. Sob o forte sol havia jogo de futebol. Como sempre, tinha presente muita gente conhecida do lugar. Arquibancada lotada, mas, a maioria sempre ficava lado a lado pela extensão das cercas laterais do campo de futebol que era de ripas de madeira pintadas.

O clube, frequentado por famílias, ele era a única atração e distração local. “Naquele dia” estava eu junto à cerca onde era o barranco de um dos lados da arquibancada vendo o jogo do alto, quando, abaixo e a minha direita, por detrás da trave do gol, num espaço plano com gramas misturadas com vegetações rasteiras, foi onde aquele caminhão estacionou. Que havia naquele caminhão? Por que pessoas se aproximaram dele? A curiosidade infantil me fez ir até lá para ver e vi. Na carroceria do caminhão havia o que eu nunca havia visto, muitas melancias e dois homens as estavam cortando em pedaços para vender. 

  E eu menino fiquei “com água na boca” vendo pessoas mordendo pedaços daquela fruta vermelha. Que gosto ela teria? Como também tanto desejei um pedaço daquilo! Mas custava “quinhento réis” (cinquenta centavos) e eu não tinha. Mas eu queria e queria e então... “Pernas pra que te quero”. Sai de lá correndo sem parar todo afobado até chegar em minha casa para pedir dinheiro pra minha mãe e ela me deu. Ufa, que alegria. Outra vez em disparada voltei ao clube temendo que o caminhão já pudesse ter ido embora. Mas, não! Lá ainda estava ele.

Comprei e desfrutei da delícia do meu primeiro pedaço de melancia. Com a casca verde por fora e com o que seria seu núcleo, o vermelho pigmentado por sementes pretas. Como era fácil ser feliz naqueles tempos. Naquele dia a felicidade estava num pedaço de melancia (risos). E, na lembrança daquele dia e do percurso que percorri ida e volta para buscar dinheiro em casa, revi as ruas por onde correndo passei, como também, revi quase todos os seus moradores que eu conhecia tão bem. Ah aquele lugar... Todos tinham as mesmas condições para viver naqueles tempos de quando se era pobre sem saber que se era. Retornando do passado para o presente voltei a ser sorrisos e atenção para os amigos do almoço. Eles, tão presentes no presente, conversando e distraídos como estavam, jamais perceberam que por alguns momentos, não estive lá com eles mesmo lá estando

                                                                                          Altino Olympio



Leia outras matérias desta seção
 » Conversa ocasional
 » Por que viemos ao mundo?
 » O passado convive com o presente
 » Os traídos e os traidores
 » Os exagerados do Youtube
 » Os que não sabem são os que mais sabem
 » Brasil, fonte do saber
 » Seres humanos que muito irritam
 » A Torre de Babel brasileira
 » Pegando pesado
 » Pensamentos lúcidos
 » O diálogo entre um Ateu e um Espírita
 » O gostar de alguém sem o alguém saber
 » Má temática da vida
 » Avenida Paulista amarelada
 » Tempo e a submissão a ele
 » Os simples e os gênios da humanidade
 » História apavorante
 » É proibido e pecado se suicidar
 » O castigo existe?

Voltar