15/04/2017
O paraíso perdido

Para os ainda racionais, hoje o nosso desencanto foi devido a termos vivido na “feliz” inconsciência e mesmo na ignorância de como de verdade era o mundo dos homens. Houve no passado a impressão que tudo era cor de rosa, isso, dependendo de onde se vivia. Sem muitos atenuantes para a falta do que fazer e do tédio, sem as sofisticações de hoje engendradas para povoar a mente do povo, ele, na simplicidade, mentalmente parecia viver melhor. Até o tempo parecia ser mais lento. Decorrente daí, vindo o progresso tecnológico até os destes dias, mais ele esteve para ocupar a mente dos ociosos mentais. Muitos que se conscientizaram que eram vazios de entendimentos sobre questões da existência resolveram apelar para a busca da evolução que pensavam existir além da intelectual. Fácil é saber que a evolução intelectual existe. Uma criança que não sabe ler e nem escrever, isso, logo aprende já no primeiro ano escolar e assim evolui. Entretanto, nem todos igualmente evoluem intelectualmente. Não são poucos os que não conseguem entender um texto qualquer, ou, compor uma redação.

Por “falar” em redação, não são poucos aqueles que utilizam de meios informativos, como revistas e jornais, para escreverem historinhas bobas para o desfrute de mentes simples iguais a de quem escreve. São banalidades que não provocam algum ensinamento, questionamento ou reflexões sobre elas. Ao lê-las ninguém se confronta com alguma novidade e a leitura do começo ao fim é de fácil entendimento por ser bem comum. Nada disso acrescenta algum conceito novo para quem lê. Então, essa capacidade descritiva somente é para a lembrança do que já se sabe e para o que já se viu para quem lê tais histórias.

Mas, voltando ao tema da evolução, muitos acreditaram haver outras além da biológica e da intelectual, como a mental, a psíquica e a espiritual. E foram denominadas como sendo de iluminação da consciência. Espiritualidade seria a humana introdução consciente ao que transcende o nosso viver objetivo e material. Entretanto, esse transcender de nosso estado material para o estado espiritual e lá interagir nunca foi comprovado por quem quer que seja. Tudo ainda está no campo das especulações e até das imaginações, apesar de termos à disposição muitos escritos “verídicos” de santos e iluminados sobre tal transcendência.

A maioria, nesse desejo de evolução trilhou caminhos onde ela poderia ser alcançada, isto é, nas religiões, no espiritismo, no esoterismo, no misticismo, no budismo e em outros “ismos”. Pergunto-me: Será que tal evolução existe mesmo? Não teria sido inventada ou proposta para aprisionar as mentes dos mais crédulos, supersticiosos e curiosos distanciando-os assim da responsabilidade e da necessidade da reação contra o domínio tirânico de uma minoria sobre a maioria? Para quem ainda consegue perceber (coisa rara), todas as instituições em prol do aprimoramento humano, como, as religiões e as filosofias, todas elas faliram em conter o ímpeto de seres humanos que exploraram os seres humanos, seus semelhantes. As corrupções, as guerras, as mentiras, a violência urbana, a pobreza e tudo o mais que está a destituir o povo de sua prosperidade e dignidade são constatações da falência de tais instituições.

Este planeta teria tudo para se constituir num paraíso terrestre, mas, tristemente ele é habitado por umas criaturas humanas indignas de conviverem com outras. Esta terra sem chegar a ser um paraíso já é um paraíso perdido mesmo antes de ser. Tamanha é a confusão que prolifera entre o povo, tamanha é a imoralidade que se efetuou, tamanha foi à dissolução da ética e tamanho foi o assimilar da sociedade desses fatos que obstruem os antigos e bons costumes. Hoje mais prepondera a escuridão dos sentidos que pode conduzir a humanidade num retorno parcial para a condição precária da irracionalidade, igual à existente nos primórdios da existência humana, embora, isto seja aqui um exagero proposital.

Hoje em dia pode ser considerado como louco quem se dispõe a dizer “coisas” que são ausentes dos conceitos e do cotidiano de outros. Isso porque esses outros vivem no conforto de seus egoísmos, no conforto de suas limitações simplistas inconscientes e com elas julgam até o que ainda não conhecem e que é exteriorizado por outros mais afeitos em relatar conceitos ainda incomuns que possam servir para reflexões úteis. Já ouvi falar que “religião e política não se discute”. Isso é alegria para os acomodados que refutam esclarecimentos. Que continuem, então, vivendo na ignorância, essa coisa tão contagiosa (risos). Que dizer das amizades ou dos relacionamentos humanos desta época? Parece que quase todos perderam seus parâmetros sobre o certo e o errado, sobre o útil e o inútil, devido ao tanto serem influenciados pelos falsos valores exaustivamente promulgados. E nessa situação agora preponderante, paraíso mesmo só foi aquele do Adão e da Eva que também fora um paraíso perdido, pois, um assassinato entre dois irmãos estragou com tudo e aconteceu mais para premeditar do que os seres humanos seriam capazes. Também, aquele paraíso do morrer e ficar ao lado direito de Deus é mesmo verdadeiro para quem tem uma boa e fértil imaginação.

Altino Olympio

 

 

 

 

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