19/09/2017
O desprendido

Lembro-me de quando ainda era criança e de quando meu avô materno veio visitar minha família lá no Bairro da Fábrica de Papel de Caieiras. Homem simples do Sítio do Castanho pertencente ao Município de Jundiaí, ele veio caracterizado mesmo com sua simplicidade. Com camisa comum, calça com o cinto por fora dos passadores e... O mais surpreendente, ele veio descalço. Assim “apresentável”, primeiro ele embarcou num trem na Estação de Várzea Paulista (Jundiaí) da Estrada de Ferro Santos a Jundiaí (Hoje, CPTM, Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) e ao desembarcar na Estação de Caieiras, a seguir embarcou na “Maquininha” (trenzinho) do percurso Caieiras ao Bairro da Fábrica. Nessa lembrança de criança, ainda continua na minha memória o fato de minha mãe muito ter gostado da visita de seu pai, mas, também, “nada ter gostado” de vê-lo descalço e tão à vontade como se fosse normal alguém caminhar pelas ruas sem a “proteção de couro” para os seus pés. Afinal, o que a vizinhança poderia dizer sobre ela e o pai dela? O que iriam falar sobre os pés desprotegidos dele (risos)?

 

Agora, mais ou menos sessenta e cinco anos depois, lembrando-me daquela visita do meu avô, não como crítica, mas, sim como elogio, o velho era um caipira autêntico, desses que não se vê mais. Nem é preciso escrever aqui que ele foi um homem despretensioso e honesto. Ele, José Anselmo do Amparo, casado com a Patrocina Rodrigues do Amparo, minha avó, ele era de poucas palavras. Vestia-se como queria e não se importava se alguém se importava com o modo dele se vestir. Hoje quando vejo muitas moças trajando calças de jeans rasgadas nos joelhos sendo a moda com que a moda se acomoda e se amolda em rasgos e desfiados, fico pensando se só o meu avô era caipira só porque a ninguém ele imitava (risos). Quanto a ele ser de poucas palavras, ele já havia aprendido o que parece que mais ninguém aprendeu: Abrir a boca e falar só quando é necessário. Nestes tempos, muitas pessoas falam, falam, falam e tanto falam mesmo que nada haja para aproveitar (risos). Naquele dia da visita do meu avô, na volta para o seu sítio eu fui com ele e lá fiquei por oito dias, mas, isto seria para contar numa outra ocasião.

 

Altino Olympio



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