01/05/2018
Como era verde o meu vale

Naquela década de 1950 a natureza era abundante em dispor para as crianças seus espetáculos diurnos sob o brilho do sol, suas matas como as verdes mamonas ladeando as ruas de terra que os meninos, descalços como era o costume, exibiam suas simplicidades e ingenuidades em suas idas e vindas com suas irresponsabilidades felizes de ainda serem crianças sem as preocupações que aborreciam os adultos. Naquele lugar, conhecido como Bairro da Fábrica de Papel de Caieiras donde nasci o verão era sonorizado pelos cantos de cigarras. Do outro lado da rua defronte a casa donde eu morava, posicionadas e enfileiradas lado a lado sobre os fios de energia elétrica que ficavam entre um poste e outro, sempre em bando, as andorinhas silentes pareciam desfrutar daquela paz e daquele silêncio diurno que existia naquele lugar. Às vezes, eu me sentava na escada de acesso à minha casa e ficava observando-as. E, parecia que elas também ficavam me observando. Ás vezes eram os pardais que, com seus cantos em uníssono mais pareciam “gritarias” que voando de árvore em árvore interrompiam o silêncio. Naquela época diziam que matar andorinhas e beija-flores era pecado. E os outros pássaros, não era pecado matá-los?

Dias de sol quente eram um convite para ir nadar e se refrescar. E num dia como outro qualquer, eu e o meu vizinho Zé Polatto (saudoso) sem nossas mães saberem fomos até a Vila da Ponte Seca para nadar na lagoa que existia lá. A partir de nossas casas o trajeto até lá era bem encantador. Depois de ultrapassarmos as casas que ficavam à nossa direita, a primeira era dos irmãos Ernani e Valentim Cavalette. Vizinho deles era a casa do casal Luis e Vitoria Molinari. A próxima era a do casal Vicente e Gioconda Lisa. A casa vizinha era da viúva Dona Nicacia. Depois era a do casal Antonio e Emilia Gabriel e por última era a do casal Vitorio e Lucinda Olimpio (todos os citados são saudosos). Depois da casa do meu tio Vitorio Olimpio, numa pequena subida ficava um lugar com mourões fincados no chão que era conhecido como “pau de amarrá égua”. Tais mourões eram para impedir que algum veículo desgovernado vindo lá de cima da portaria um da entrada da fábrica da Indústria Melhoramentos de Papel despencasse no Rio Juquery. O local servia para as pessoas de outras vilas ali se encontrarem quando juntas iam para algum lugar e combinavam assim: Em tal hora te espero lá no “Pau de amarrá égua”, combinado?

Deixando de lado o restante da narrativa do trajeto para não me entender muito, o nadar e se refrescar lá na Lagoa da Ponte Seca esteve agradável como foi de esperar. Na volta, eu e o Zé andando pelo caminho estreito e tortuoso que contornava a lagoa, nos deparamos com um velho senhor que estava ao lado de uma árvore e pescando. Paramos para conversar com ele que era do Bairro de Perus que próximo donde estávamos pertencia à Cidade de São Paulo. A conversa entre nós foi agradável e deu pra imaginar que aquele velho pescador tenha pensado em como eu e o Zé Polatto éramos dois meninos simpáticos e bem educados. Despedimos-nos daquele senhor e continuamos seguindo por aquele caminho tortuoso rente a lagoa e com árvores da mata à nossa direita até dobrarmos a esquerda onde num aclive íngreme se subia pelo barranco até o alto dele e da estrada de ferro dos trens da chamada Estrada de Ferro Santos a Jundiaí, assim como era chamada antigamente.

Os remanescentes daquele lugar que não existe mais e “onde era verde o meu vale”, agora, só existem o verde. Eles, os remanescentes e conterrâneos meus, se lerem esta crônica poderão mentalmente reviver aquele passado de quando nós tínhamos a nosso dispor a natureza por onde caminhos de terra eram ladeados por plantações de altos pés de pinhão (araucárias) como aquele do trajeto à Lagoa da Vila da Ponte Seca onde, nenhuma ponte havia (risos). A passagem do caminho por baixo dos trilhos da estrada de ferro como se fosse um túnel curto é que deu origem ao nome “ponte seca” que ficou extensivo para o lugarejo que existia naquele local.

Mas, voltando àquele dia de verão, do nadar na lagoa e do velho pescador, eu e o Zé estando lá no alto dos trilhos da estrada de ferro olhando a paisagem, principalmente do lugar distante donde estivemos nadando, lá as águas da lagoa estavam turvas, ou melhor, estavam amarronzadas pelo lodo que havia no fundo raso das águas donde mais pisoteamos do que nadamos. Nosso olhar passeando pela lagoa vendo aquelas matas emersas que chamavam de “taboa”, logo visualizamos aquele homem que estava pescando e com que nós educadamente conversamos. Mas, aquela cena do velho homem pescando lá abaixo... Que tentação impossível de evitar, então... Aqueles cascalhos para o apoio dos dormentes dos trilhos dos trens... Não me lembro qual de nós foi o primeiro a pegar um e atirar n’água para espantar os peixes donde estava o pescador. Mas que felicidade, pedras e mais pedras caiam próximas donde ele estava. Não éramos maus porque tentamos evitar que alguma pedra o atingisse. Será que aquele homem bondoso só por causa de umas pedras que caiam do céu nos chamou de filhos daquela profissão mais antiga do mundo? (risos).

Hoje quando me “vejo” lá no passado de quando eu ainda era menino sinto pena dos meninos de hoje que nem imaginam o que de verdade era ser menino. Éramos mais soltos, mais saudáveis e mais felizes, embora, tivéssemos também a tendência para praticarmos malvadezas como a contada aqui sobre as pedradas para atrapalhar a pesca daquele homem da Lagoa da Ponte Seca. Entretanto, tivemos histórias para lembrar no futuro que os meninos de hoje não terão.

 

Altino Olympio

 

 

 

 

 

 



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